Quem quiser ganhar, há de perder - Ponto SJ

Quem quiser ganhar, há de perder

O livro "Quem quiser ganhar, há de perder - forças espirituais, estilos de vida, formas de Igreja", do P. José Frazão Correia, editado pelas Paulinas, é lançado na próxima semana. Aqui fica um excerto, o texto de abertura da obra.

O livro "Quem quiser ganhar, há de perder - forças espirituais, estilos de vida, formas de Igreja", do P. José Frazão Correia, editado pelas Paulinas, é lançado na próxima semana. Aqui fica um excerto, o texto de abertura da obra.

«Pode dizer-se que hoje não vivemos uma época de mudanças, mas uma mudança de época», reconhecia o papa Francisco, em 2015, no encontro com os participantes do V Congresso da Igreja Italiana, em Florença. Não é um jogo de palavras. É um dado a assumir. Se é certo que todo o tempo é composto de mudanças, o nosso tem a particularidade de se constituir como mudança de tempo. Esta será a grande particularidade dos tempos que são os nossos, constituindo um desafio incontornável, em concreto, para os cristãos. Em 2019, num discurso à Cúria Romana, Francisco retomava a mesma expressão, acrescentando que «nos encontramos, portanto, num daqueles momentos em que as mudanças já não são lineares, mas epocais; constituem opções que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e de elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência». Fecha-se um longo ciclo histórico, deixando entrever a progressiva formação de um outro, com movimentos e características novas.

Como consequência, «não basta viver a mudança limitando-se a envergar um vestido novo, mas, depois, permanecer como se era antes». De pouco serve fazer de conta, na ilusão cómoda de que a fidelidade estaria em ficar impassíveis, imunes às dinâmicas do presente, deixando tudo na mesma – na Igreja, supostamente, as coisas estariam como sempre estiveram e assim deveriam estar para sempre. Também não será suficiente pedir ao passado que nos dê respostas às buscas e questões que se colocam hoje de forma inédita, dispensando-nos da graça e do risco da exposição à realidade. Segundo a imagem evangélica, o vinho novo pede odres novos.

Tal empresa não deveria partir do lamento de supostas ofensas à verdade evangélica ou de perdas infligidas do exterior à identidade, à tradição ou à autoridade da Igreja – muitas vezes, é a partir de dentro que se faz degenerar a verdade em ideologia; a identidade, em subcultura arrogante e marginal; a tradição, em idealização e imobilismo; a autoridade, em autorreferencialidade e arbitrariedade. A procura de odres novos parte da convicção crente de que escutar mais atentamente e perscrutar mais livremente a mudança de época que atravessamos é o caminho justo, ainda que mais longo e acidentado, que a Igreja tem de percorrer para poder escutar mais atentamente a Palavra de Deus a que está vinculada, para compreender melhor quem é e reconfigurar-se como instituição, para testemunhar mais radicalmente o Evangelho que recebeu de Jesus. Para a Igreja, prestar atenção a esta mudança de época e discernir os movimentos espirituais que nela emergem é condição do anúncio do Evangelho – é um dos legados maiores do Vaticano II ter assumido que o modo adaptado de anunciar o Evangelho é a lei de toda a evangelização, ou seja, que faz parte do anúncio considerar seriamente os destinatários, na sua realidade existencial concreta e no seu quadro sociocultural específico. Não sendo simplesmente um problema ao qual fugir ou uma agressão da qual se defender, a mudança de época começa por se apresentar como dado a gerir com responsabilidade. Por razões teológicas ainda mais estruturais, cabe assumi-la em liberdade – e com alegria – como tempo favorável para esse ato de atenção à realidade, da qual e com a qual também se quer aprender – kairos é o tempo da graça, agraciado e gracioso. Este é, pois, o tempo favorável para a releitura culturalmente situada do Evangelho e do conjunto da tradição da Igreja; é o momento propício para lançar processos consistentes, para implicar-se na procura de outras formas e expressões culturais de autenticidade e de fecundidade evangélica. Assim se é fiel, estando ativamente na tensão difícil entre Evangelho e experiência humana, vida crente e doutrina, aggiornamento e herança, dizer e fazer com outros.

Este é, pois, o tempo favorável para a releitura culturalmente situada do Evangelho e do conjunto da tradição da Igreja; é o momento propício para lançar processos consistentes, para implicar-se na procura de outras formas e expressões culturais de autenticidade e de fecundidade evangélica.

Naquela mesma comunicação em Florença, Francisco sublinhava que «a doutrina cristã não é um sistema fechado incapaz de gerar perguntas, dúvidas, interrogações, mas é viva, sabe inquietar, animar. Tem uma face não rígida, um corpo que se move e desenvolve, tem a carne macia: a doutrina cristã chama-se Jesus Cristo». Extraordinário! Habituados a associar doutrina a rigidez e a cristalização, Francisco considera-a um corpo vivo, que tem «carne macia». Atribui-se a João XXIII, no leito de morte, a afirmação de que «não é o Evangelho que muda, [mas que] somos nós que começamos a compreendê-lo um pouco melhor», graças, precisamente, às mudanças que os tempos geram e aos sinais do Espírito de Deus que a Igreja colhe neles.

É este o quadro que enquadra os textos que se seguem. Se nasceram autonomamente para responder a questões e a solicitações específicas – por isso, cada um deles conserva a sua coerência interna, podendo ser lido por si –, expõem também um mesmo filão de interesses, de interrogações e de horizontes que tem vindo a ser explorado por quem escreve. O fio que os cose, esse, insinua-se na conjugação intencional de duas palavras presentes no subtítulo do livro e nos títulos das duas partes que o compõem: forças e formas, de cunho mais existencial, na primeira parte; formas e forças, na segunda parte, onde a atenção é posta essencialmente em questões e dinâmicas eclesiais.

Trata-se de uma chave de leitura e de um programa. De uma chave de leitura, na medida em que cristãos e comunidades cristãs – a Igreja no seu todo – são depositários da força do Evangelho de Jesus para a qual parecem ter dificuldade em encontrar, hoje, as formas capazes de lhe dar «vivibilidade» e visibilidade, enquanto, por inércia, por receio ou por entendimento desajustado do que significa ser fiel, correm o risco de perpetuar formas que, entretanto, perderam a sua força evangélica e que, por isso, deixaram de ter vitalidade eclesial, impacto existencial, relevância sociocultural.

O que entender por força? Energias, desassossegos, desejos, afetos, imaginação, poder ser e poder fazer ser… Forma diz representações, conceitos, enunciados, práticas, instituições, estruturas, leis, modos de fazer, estilos de vida… Não há Evangelho sem formas – seria só ideia, sentimento, abstração, essência intemporal e sem lugar –, mas também não se identifica totalmente nem se esgota definitivamente em nenhuma delas. Por sua vez, as formas, que são sempre culturais, ressoam, tornam visível, tangível e apreciável a força originária e inesgotável do Evangelho: dão-lhe uma fisionomia particular, realizam-no no espaço e no tempo de vidas e de comunidades reais; narram-no, expõem-no ao juízo e à imaginação alheia. Assim o tornam visível e reconhecível.

Não há Evangelho sem formas – seria só ideia, sentimento, abstração, essência intemporal e sem lugar –, mas também não se identifica totalmente nem se esgota definitivamente em nenhuma delas.

Conjugar forças e formas é também um programa, já que a exaltação de umas em detrimento das outras e, consequentemente, a remoção de uma das duas é «tentação» frequente e comum. Facilmente se invocam impulsos emotivos e sentimentais, forças espirituais e afetivas cegas, sem direção, sem lei nem governo – seriam tanto mais autênticas quanto mais interiores, invisíveis, inaudíveis e intocáveis fossem e quanto menos forma assumissem e menos vínculos gerassem. Do mesmo modo, facilmente se reduzem as formas a caixas vazias sem qualquer vibração, a embrulhos exteriores e instrumentais, a objetos de comércio e de consumo. Não considerar suficientemente a implicação recíproca de forças e de formas significa ceder tanto a espiritualismos intimistas, cegos e desencarnados, caóticos, sem tempo nem lugar, facilmente manipuláveis, como a formalismos frios, forçados e rígidos, secos e estéreis. Hoje, na cultura ocidental como em toda a história do Cristianismo, não é difícil reconhecer desequilíbrios para os dois lados.

Estilo é a categoria que servirá o propósito de implicar reciprocamente forças e formas. Vale para indivíduos, vale para a Igreja no seu todo. «Marca distintiva de um modo de habitar o mundo», o estilo diz e opera a coerência entre interior e exterior, a forma visível e reconhecível de forças espirituais, quer entre aqueles que o partilham, quer por quem o observa do exterior – distinguindo-se pela sua particularidade face a outros estilos, um estilo compreende-se na distinção, na parcialidade e na relação. Mais do que declarar-se, o estilo faz-se. É um modo de proceder e, por isso, uma prática efetiva em que se exercita, que se aperfeiçoa. A sua força – a sua verdade – reconhece-se operativamente na forma: não fica escondida por cima, lá no alto, ou dentro, num profundo inacessível, mas dá-se à superfície, no quotidiano de gestos, em ações habituais. A sua forma é a sua força. Na autenticidade de um estilo, força e forma conjugam-se sem se confundirem nem se separarem.

Que estilo, então, para as nossas vidas e para a Igreja, neste tempo de mudança cultural das nossas sociedades? É esta a questão. «Quem quiser ganhar há de perder», título que tomo do evangelista Mateus (cf. 16,26), é condição de possibilidade e convicção que suporta os processos pessoais e eclesiais a que importa expor-se para imaginar, procurar e encontrar novas formas para a força do Evangelho no contexto cultural que é o nosso: palavras, narrações, formulações, práticas, instituições. Poderá não bastar reformar formas antigas. Haverá outras necessidades e situações que reclamam formas inéditas. Antes de mais, que sejam quentes. Se a «arte de perder» parece estar no limite do possível por apontar para uma força fraca, quem cultiva a terra sabe que é esse o processo elementar de qualquer nova planta que nasça de uma semente. Os cristãos sabem de agricultura e sabem também que essa paixão, esses passos e essa passagem são o próprio mistério da Páscoa.

O livro será lançado no dia 30 às 19h, na Brotéria, em Lisboa.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.