Eleições na Itália: Uma nova encruzilhada

Conheça a análise às eleições italianas do P. João Vila-Chã, sj - professor de Filosofia Social e Política na Universidade Pontifícia Gregoriana, em Roma.

Conheça a análise às eleições italianas do P. João Vila-Chã, sj - professor de Filosofia Social e Política na Universidade Pontifícia Gregoriana, em Roma.

Este fim de semana, a Itália foi a votos: para a Câmara dos Representantes e para o Senado; mas também, em alguns casos isolados, para suprir outros cargos a nível regional. Os resultados estão agora à vista, para surpresa de muitos, e isso por mais que as tendências fossem já bem visíveis nos dias que antecederam a ida dos cidadãos às urnas: o Movimento Cinco Estrelas, com quase 33% dos votos, é o partido que se diz vencedor, e isso malgrado a sua intenção originária de permanecer «movimento» e não entrar a fazer parte do clássico, e segundo os mesmos ultrapassado, quadro partidário; o Partido Democrático, uma das maiores forças históricas da democracia italiana do pós-guerra, colapsou e vai ficar bem abaixo dos 20%; a Liga Norte consegue uns extraordinários 17,5% e com isso, dentro da coligação de Centro-Direita, consegue ultrapassar o partido «Forza Italia» de Silvio Berlusconi, que ficará com pouco mais do que 14% dos votos.

Tudo somado, a Itália acorda hoje para o que já sabemos quando se trata de a governar. E o que sabemos, e hoje se confirma, é isto: a governabilidade deste país é um constante desafio à imaginação, uma incessante corrida contra a implausibilidade das soluções, um desgarrar de apelos e forçamentos, de batalhas parlamentares e decisões soberanas. Uma vez concluída a contagem dos votos, será tarefa, previsivelmente difícil, do Presidente da República de nomear o primeiro a ser eventualmente sacrificado na batalha pela formação de um novo governo. Tudo me leva a crer que os primeiros a entrar na liça serão ou o jovem Di Maio, que em nome do Movimento Cinco Estrelas poderá mesmo vir a ser o governante mais jovem de toda a Europa, ou Salvini, o líder de um partido radicado no Setentrião italiano que, para surpresa geral, conseguiu extraordinários resultados também no centro e no sul do País, facto tanto mais assinalável quanto as cisões, inclusive culturais, entre o Norte e o Sul da Itália estão ainda longe de estar superadas.

Certo parece ser também que Matteo Renzi em breve se colocará à margem da direção do Partido Democrático, assumindo em pleno as consequências de uma derrota histórica, um facto de que certamente ele não é o único responsável, mas de que tampouco, dada a dimensão da derrota, ele se pode agora distanciar. Como sempre, para uns, na hora da vitória partidária, ainda que não necessariamente do País, o momento é de exaltação, sobretudo nos corredores do Movimento Cinco Estrelas, agora confirmado como uma das formações políticas mais importantes da Itália, ou ainda da «Lega Nord», um movimento que se opõe ao primeiro, embora ambos coincidam numa atitude cética perante a Europa, reafirmem um neo-soberanismo italiano e, fundamentalmente, se guiem por vias populistas na condução dos assuntos de interesse nacional.

Assim, e independentemente de quem vier a ser efetivamente chamado a formar governo, e nisso tenha o necessário sucesso, é de contar que nos próximos anos teremos uma Itália bem mais refratária, e fechada, em políticas de emigração, uma Itália mais desconfiada, e aguerrida, em relação às políticas da União Europeia, enfim, uma Itália em permanente convulsão política, algo frenética na procura das melhores soluções. Enfim, penso que nada melhor podemos desejar a este País no início de um novo ciclo político do que, como de resto na Alemanha acaba de acontecer de forma exemplar, fazer votos para que o sentido da responsabilidade e do dever político triunfe rapidamente sobre os mais diversos interesses de parte, para não dizer simplesmente partidários.

A Itália, com cerca de 60 milhões de habitantes, é um dos países mais importantes da União Europeia, certamente logo a seguir à Alemanha e à França, mesmo em termos de output industrial. Para além disso, e como país do Sul e mediterrâneo, a Itália nunca deixará de conter lições de real importância e interesse para Portugal.

Nota: O P. João Vilha-Chã foi recentemente distinguido com o Karl-Otto Apel International Prize