A justa fome de hospitalidade - Ponto SJ

A justa fome de hospitalidade

A pobreza é um sinal claro dos nossos limites. Por isso nos custa tanto lidar com ela.

A pobreza é um sinal claro dos nossos limites. Por isso nos custa tanto lidar com ela.

“Nós não ‘queremos’ resolver o problema de todos os famintos em Portimão, mas queremos dar o nosso contributo. Não foi por altivez que não pedimos apoio ao Estado para a construção do Centro Social, mas foi para pôr à prova a comunidade. Afinal, os cristãos são para quê? Não são para olhar para esta gente que precisa de nós? Portanto, pus o desafio. E foi com a comunidade que nós ganhámos o desafio! (…) É um milagre contínuo, o que acontece no Refeitório Social, porque nunca falta alimento. E eu não tenho nada assegurado. É tudo feito por voluntários.”

(P. Arsénio Castro Silva SJ)

São muitas as pessoas que nos procuram para pedir apoio, em Portimão e na Mexilhoeira Grande. Algumas trazem problemas recentes (uma depressão que levou a um despedimento, um despedimento que levou a um despejo, um despejo que levou a um saco-cama), outras trazem marcas antigas (uma dependência, uma doença mental). A maioria é portuguesa, nascida e criada, mas também não faltam amigos de outros países, com diferentes sotaques.

Diariamente, de segunda a sexta-feira, várias equipas de voluntários asseguram a preparação de refeições gratuitas a mais de 50 pessoas. De forma discreta, há quem nos traga sacos de batatas, que ofereça pão, peixe, carne, etc. Tudo é feito graças à generosidade da comunidade. Como dizia o P. Arsénio, e como repetem as pessoas que ali trabalham, “é um milagre diário”.

Aos sábados, outros voluntários ajudam na distribuição de roupas doadas. Todas as semanas, chegam à nossa igreja sacos volumosos, repletos de roupa. “É uma pena deitar estas coisas fora: estão boas, e há tanta gente que precisa”, como frequentemente nos explicam.

Mas a comunidade também é porto de abrigo para outras formas de fragilidade. Sobretudo, a fragilidade que se veste de luto e lágrimas. Pessoas que sofrem a dor profunda da ausência e da perda, que se transforma em solidão e desânimo existencial: também elas procuram consolo. Mensalmente, uma psicóloga amiga organiza um encontro para quem está pobre de afetos.

A pobreza é um sinal claro dos nossos limites. Por isso nos custa tanto lidar com ela.

Na nossa paróquia da Mexilhoeira Grande, esta mesma preocupação de estar atento ao próximo, como expressão do dinamismo do evangelho e, em concreto, das Bem-aventuranças, é visível tanto na Aldeia de S. José de Alcalar, como no ATL. A aldeia-lar surgiu da vontade de resgatar a população idosa e vulnerável da sombra da solidão. Era uma população pobre financeira e socialmente, a quem faltavam recursos e laços humanos, que ali encontrou uma comunidade. Já no ATL, a paróquia presta um outro serviço importantíssimo. Do ponto de vista prático, é uma ajuda às famílias que não têm onde deixar os filhos. Mas, a um outro nível, o ATL é um espaço de socialização, que acolhe crianças de mais de 15 nacionalidades!

Este trabalho de integração no tecido social também acontece em Portimão. Uma voluntária, antiga professora primária, dá aulas gratuitas de português aos nossos amigos estrangeiros que procuram residência na cidade. É uma forma muito simples de dizer a quem chega: “És bem-vindo! Não estás só”.

Naturalmente, gostaríamos de fazer muito mais. A crise do custo da habitação aflige sobremaneira muitos dos nossos vizinhos, e não temos resposta para esses dramas reais. As traseiras da nossa igreja paroquial escondem o ritual diário do consumo de substâncias que deixam tantos jovens em situações de risco, e não fomos ainda capazes de encontrar estratégias para os acompanhar (para além da parceria com os grupos de Alcoólicos Anónimos).

A pobreza é um sinal claro dos nossos limites. Por isso nos custa tanto lidar com ela; por isso é tão difícil lidar com os pobres. Nesta época em que as nossas sociedades ocidentais parecem ter tanta dificuldade em conciliar lucidez para discutir políticas equilibradas, com a capacidade de permanecermos humanos para exercermos compaixão, que este dia dos pobres nos dê uma justa fome de hospitalidade.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.