Jesus entrou no mainstream mas ainda não fala português - Ponto SJ

Jesus entrou no mainstream mas ainda não fala português

O que é preciso para termos em Portugal música mainstream que diga o nome de Jesus e fale dos Evangelhos de forma leve, cool e que dialogue com a linguagem da cultura pop atual?

Confesso que cheguei tardíssimo à Rosalía. Já tinha, claro, ouvido a agitação à volta do seu nome, mas talvez por teimosia, não quis ir atrás do hype. Tudo mudou quando uma amiga, a quem seria sacrilégio recusar uma sugestão cultural, me enviou a mais recentíssima canção “Mio Cristo Piange Diamanti”. Ouvi e a verdade é que me emocionou imenso. Fiquei profundamente convencido de que a existência de músicas como esta, que levam a fé a lugares inesperados na cultura mainstream, é um verdadeiro milagre.

A experiência com Rosalía, ainda assim, foi só o gatilho para uma reflexão que tenho alimentado nos últimos meses, enquanto dou por mim a ouvir em repeat artistas como Forrest Frank, Josiah Queen, The Figs, Seph Schlueter, Emma Niesen, entre vários outros. Há um fenómeno a acontecer na música cristã, especialmente a de origem anglo-saxónica. Se, há uns anos, a música “pop-rock cristã” tinha, perdoem-me a expressão, um certo “azeite” e se confinava a um som muito focado em worship e aleluias, parece que o setor está a evoluir. De repente, estamos a ouvir música cool, com uma qualidade de produção irrepreensível, pronta para passar na rádio ou, mais importante, para conquistar os algoritmos do Spotify.

Será que subestimamos o público, assumindo que não há sede de uma espiritualidade que se expresse também através de um bom beat e de uma melodia contagiante?

Os mais puristas poderão usar isto para fazer pouco do meu gosto por música pop e mainstream, e aceito a crítica. Mas a verdade é que algo se torna mainstream por uma razão: porque chega a muita gente. O carimbo de “passar na rádio” já não é o que era, mas ser descoberto pelo Spotify e entrar nos charts da Billboard é o seu equivalente moderno. E é isso que está a acontecer. Artistas como Forrest Frank estão a alcançar estes marcos com músicas que falam abertamente de Jesus, que são leves, criativas, que dão vontade de cantar. De repente, damo-nos conta de que estamos a louvar a Deus quase sem nos apercebermos e, melhor ainda, a divertirmo-nos com isso.

Isto leva-me, inevitavelmente, a pensar no espaço disponível em Portugal. Faço-o sem qualquer desprimor por artistas que muito admiro e que tanto fizeram e fazem pela espiritualidade de muitos: os Simplus foram e são a banda sonora de muita gente (e a minha), e o trabalho do Pe. Duarte Rosado, sj está a tocar imensos corações (e o meu). Mas a minha pergunta é outra, porque é uma questão de género musical.

O que é preciso para termos em Portugal música mainstream que diga o nome de Jesus e fale dos Evangelhos de forma leve, cool e que dialogue com a linguagem da cultura pop atual? Será que não há artistas mainstream com fé? Será falta de produtores e editoras que apostem neste cruzamento entre fé e cultura pop? Ou será que subestimamos o público, assumindo que não há sede de uma espiritualidade que se expresse também através de um bom beat e de uma melodia contagiante?

Não sei bem a resposta. Mas sei que Portugal tem muito talento e que a música tem este poder de levar o sagrado ao nosso dia a dia, nos nossos fones, enquanto vamos no autocarro. E a ideia de ter a fé a pulsar no meio da cultura pop, de forma genuína, não me parece um problema. Pelo contrário.

Fica a pergunta e, mais do que isso, a esperança de que, em breve, também possamos cantar em português sobre um Cristo que chora diamantes, ao som de uma canção que todos, crentes e não crentes, queiram ouvir em repeat e que cause aquele arrepio surpreendente de estar a rezar sem dar por isso.

(Para ilustrar o fenómeno que descrevo, preparei uma pequena playlist. Fica o conselho, no entanto, para que a usem como um ponto de partida: a verdadeira descoberta começa ao explorar a função ‘Ir para a rádio da música’, porque o Spotify vai-se revelar um curador muito mais eficaz do que eu na sugestão de boa música dentro deste género.)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.