Saint-Exupéry contou-nos que o Principezinho, nas suas viagens planetárias, encontrou um vendedor de comprimidos para tirar a sede. “Tomando um por semana, nunca mais se tem vontade de beber. Os especialistas fizeram as contas. Poupa-se cinquenta e três minutos por semana.” Sentindo que o seu tempo deixaria de ter uma razão de ser, o Principezinho questionou-o. “E com esses cinquenta e três minutos faz-se o quê?” O vendedor apresentou-lhe a liberdade. “Faz-se o que se quiser.” O Principezinho nada mais fez do que pegar nessa liberdade e comprar de volta a sua sede. “Eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar muito calmamente à procura de uma fonte.”
Não é segredo nenhum que o significado do ato de pensar se tem vindo a alterar com a introdução de um assistente pessoal altamente qualificado à disposição de cada um e à distância de um “Hey, Chat”. Com esta alteração ao ato de pensar surge a possibilidade de se anular o risco que corre quem ousa fazê-lo: falhar.
Mas nem só de pensar vivem os homens e a história já será diferente quando se trata do ato de sentir. Ato este que não só aceita a falha como obriga a percorrer o desconforto do erro. Não são palavras bonitas. Não nos fazem sentir heróis estóicos. Será que conseguimos pedir que sintam por nós? Assim, poderíamos finalmente eliminar a falha das nossas vidas e as manchas que deixa no nosso currículo emocional. Se conseguirmos pensar com precisão matemática e sentir com exatidão geométrica, tudo o que criamos será munido de perfeição. Tudo, tudo, tudo. Até aquilo que deixar de ser nosso a meio do caminho.
Toda a forma de arte tem por base uma oração.
Aqui que ninguém nos ouve, para que é que precisamos realmente de sentir? É certo que o nosso Principezinho precisou de sentir sede para saber que tinha de se pôr a caminho para a saciar. Se não a tivesse sentido, ficaria fraco e sem poder continuar a viajar. Admitimos que sentir possa ter alguma relevância. Permite-nos identificar a nossa sede. Mas se tomarmos um comprimido para tirar a sede, deixa de ser um problema por inteiro. Sorte a nossa que estes vendedores de comprimidos chegaram para ficar e como se nos apresentam cada vez mais acessíveis e aliciantes, pedimos-lhe: “Chat, sente por mim! Sff.”
“A sede exprime-nos.” Não foi a inteligência artificial que o disse, mas sim a inteligência sobrenatural de Tolentino Mendonça. O caminho que escolhemos para procurar a fonte deixa marcada, muitas vezes, a nossa pegada artística. Paul McCartney procurou uma resposta para as suas horas de desassossego, times of trouble, e pelo caminho deixou Let it be. Uma criança de 4 anos procura mostrar à família que lhe traz alegria e, assim, faz o seu primeiro desenho. Esta expressão é a materialização do amor que temos para entregar uns aos outros. A arte, enquanto via não literal de comunicação, abrangendo a multiplicidade de formas que se encontram entre os dois exemplos anteriores, é sempre um modo de transmitir amor, pois parte de um apelo alojado no coração.
Criamos com o desejo de estabelecer uma ponte, mesmo que não saibamos qual será o destinatário final. Lançamos um apelo, esperando que caia em solo fértil. Também a oração se trata de um apelo. Quando fechamos os olhos e dizemos “Pai,” esperamos ser escutados, estabelecendo uma ligação. Toda a forma de arte tem por base uma oração. Nada mais é do que um pedido a Deus, com a certeza de que nos ouve, para que se façam os homens à sua semelhança e se deixem tocar pelo que criámos. Pedimos com fé em Deus e criamos com esperança nos homens.
A IA não é capaz de criar, pois esta é uma consequência de quem tem a necessidade de se expressar.
Afinal, como é que, no meio destas experiências obrigatoriamente humanas, a Inteligência Artificial (IA), personificada nos seus Chats, vem acabar com quase todas? Antes de mais, vem resolver o primeiro dos nossos problemas. Tira-nos a necessidade primordial, enquanto seres emocionalmente complexos, de mostrar essa complexidade uns aos outros. A supramencionada sede. Sede essa que não é linear e inequívoca, pois se ando em busca de me saciar, existe o risco de me enganar no caminho. Com este novo assistente pessoal, porém, não há necessidade de andar, porque aquilo que procuramos encontrar está embrulhado e pronto a entregar. É-nos vendido o comprimido da arte, da expressão, da perfeição. Se a máquina faz melhor, quem sou eu para sequer tentar?
Então se aquilo que criamos como nosso vem do além, de uma entidade sem nome nem raízes, será que continuará a haver por detrás um pedido íntimo, uma oração ao Pai? Certamente que continuamos a ter os nossos desejos, que só ele conhece, mas onde se materializam entre os homens? Onde está o apelo que fazemos uns aos outros para que nos ouçam? Se a oração que precede o ato criativo não se transfigura, cai no vazio e definha, até que deixamos de saber oferecer amor uns aos outros.
A falha desta lógica ludibriante é que verdadeiramente a IA não é capaz de criar, pois esta é uma consequência de quem tem a necessidade de se expressar. Ainda assim sentimos, deslumbrados e rendidos, que aquilo que emanam estas máquinas transcende em forma o que nós, contentores de conteúdo, queremos dizer. O triste desfecho deste conto pós-moderno passará por acabar com as diferenças e limitar a criatividade humana a um pedido preguiçoso que contém instruções educadas. Falta saber o que acontecerá, então, à parte de dentro. A parte verdadeira e imutável que temos cá dentro e que quer falar.
Se matamos a sede com um clique, não precisamos de percorrer o nosso caminho.
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.” Nos Provérbios a mensagem é clara: guarda o coração, toma conta dele. Não o defraudes, potencia-o. Não há inteligência possível que consiga tirar melhor partido dele e esse é o nosso grande trunfo. Não dá para o penetrar, para o conhecer e imitar. Aquilo que origina, a nossa manifestação artística, é uma porta na qual, enquanto artesãos, trabalhamos de modo pessoal e único. A forma como a moldamos mostra a nossa história. Ao abrir a porta, partilhamos essa história, permitindo ao outro entrar e ver o que guardamos dentro de casa. Se não somos, porém, os artesãos da nossa própria porta, o nosso irmão vai descobrir que, embora muito bem enfeitada, a porta permaneceu fechada.
“E com esses cinquenta e três minutos faz-se o quê?” Perguntou o Principezinho ao vendedor de comprimidos para tirar a sede. A questão é mais que pertinente para o diálogo que temos com os nossos vendedores de comprimidos. Se matamos a sede com um clique, não precisamos de percorrer o nosso caminho. Então, o que nos força a abrir o coração? O que nos impele a sentir? O luxo do tempo é o atrativo ganho. Já não vamos perdê-lo, é todo nosso. Mas esta obsessão pelo controlo do nosso tempo cresce a par com uma perda de sentido. Na realidade, só encontramos um sentido quando gastamos tempo e nem disso temos consciência, pois não o estamos a contabilizar.
Muito resoluto, o Principezinho escolheu. “Eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar muito calmamente à procura de uma fonte.” A escolha é precisamente o cerne desta questão. O sábio protagonista da história diz-nos: quero andar, quero procurar uma fonte, reconheço que o caminho é bom para mim. Parece fácil e simples, mas a revolução vai ser essa. A revolução – termo a que recorro no sentido de oposição terna, mas firme, a uma ordem que possivelmente será estabelecida – vai ser querer sentir e fazer.
Para escolher, contudo, é preciso ter uma certeza inabalável. A certeza de que a porta de plástico com LEDs de várias cores não é melhor do que a nossa, a que vem de nós. Nunca o pouco ou nada que temos para mostrar vai ser bem substituído por um ruído sem identidade. Como na oração, se não sabemos o que dizer, falemos desse vazio. Lembremo-nos de que a ausência também ocupa lugar.
Mas não é assim tão sério, dirá a geração que, com mérito, conseguiu perceber que a vida com leveza corre melhor. Como parte dela, revejo-me inteiramente nesse mote, mas se não é assim tão sério, deixa-me tentar e falhar, deixa-me fazer eu.
“- Então a minha flor está ameaçada de desaparição a curto prazo?
– Evidentemente!
– A minha flor é efémera – pensou o principezinho – e só tem quatro espinhos para se defender do mundo inteiro (…)”
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
