“Há uma beleza para além da beleza estética.” Foi esta a frase que assinalou o ponto de viragem da experiência de Páscoa na PIPC 2026 (Páscoa Inaciana no Pragal/Caparica, uma atividade promovida pelos Centros Universitários, em colaboração com os Jesuítas da Comunidade S. Pedro Claver, no Monte da Caparica, durante a Semana Santa). Não por ser uma afirmação escandalosa ou surpreendente na sua novidade, mas porque, até ao momento em que a ouvi, não parecia fazer sentido.
Na quarta-feira da Semana Santa, o primeiro dia inteiro no Monte da Caparica, conhecemos o bairro, que era muita coisa certamente, mas belo não seria a palavra que usaria para descrever as ruas cheias de lixo e as portas de entrada vandalizadas. Como se nós, um grupo de jovens adultos oriundos de todo o país, vindos de cada um dos centros universitários Jesuítas, não fossemos bem-vindos ali. Mas este pensamento desvaneceu imediatamente quando começámos a conhecer as pessoas que por lá habitam.
Neste primeiro dia completo fomos acolhidos como parte da vizinhança, por sorrisos e histórias.
E no fim do dia, para conhecermos uma parte integrante deste bairro, tivemos um serão na comunidade dos jesuítas que lá vivem.
Foi aí onde ouvimos esta frase que não me deixou apenas a mim incomodado. Todos a anotamos em algum lado, no caderno ou telemóvel, o que estivesse à mão.
Mas mais do que espanto, ficou uma questão.
Passamos o resto dos dias com esta pergunta nos lábios, não era dita declaradamente, mas estava lá, a pairar entre nós.
“Onde estava essa beleza?”
Estaria nas pessoas que visitámos durante a tarde da Quinta-Feira Santa? Nas pessoas que nos mostraram a resiliência que se ganha ou é necessária para ali viver e que, ainda assim, nos acolheram como se fossemos vizinhos que se conhecem há muitos anos.
Estaria na impotência que sentíamos ao ver as pessoas que lá vivem? Para as quais nada mais podíamos fazer a não ser ouvir e talvez rezar por elas.
A beleza estaria na experiência de limite que sentimos ao visitar as obras da Companhia de Jesus? Na perceção de que viver nos lugares de fronteira é por si uma arte, sabendo que os jesuítas inevitavelmente encontraram os limites das suas missões e das suas capacidades, e ainda assim procuravam acompanhar, cuidar e rezar por estas pessoas, por estes seus vizinhos.
Estaria na Via-Sacra, percorrida ao longo dos vários bairros, que terminou no bairro da Penajóia, o mais recente bairro de lata, composto maioritariamente por imigrantes? Estaria nos testemunhos que ouvimos durante esta, integrados nas estações das quedas de Jesus, onde, a certo ponto, parámos de olhar para as quedas, mas sim para a capacidade de, tal como Ele, se levantarem?
Vi um pequeno vislumbre desta beleza além da estética.
Esta pergunta continuou a ressoar ao longo dos dias, nas visitas a casas, nas refeições, nas conversas, na nossa convivência como vizinhos. Mas houve algo de que nos fomos apercebendo com a aproximação do dia da ressurreição de Jesus. Ele estava no meio deste lugar repleto de pessoas que foram deixadas de parte, deixadas na outra margem da metrópole de Lisboa. Neste lugar onde o dia a dia pode tornar-se uma luta para sobreviver, onde todas as madrugadas quem lá vive se sujeita às carruagens a abarrotar do comboio, para poder chegar ao seu local de trabalho no outro lado, onde, por não terem outro modo possível, voltam apenas de noite a casa, deixando os filhos sozinhos, à mercê da rua.
Jesus estava no contraste que chegava aos olhos dos que procuravam beleza. Ele estava nesta ténue linha entre belo e repulsivo. E quando o sábado de deserto chegou, no silêncio da oração que fizemos em comunidade, perante a Sua aparente ausência, tudo gritava que, de algum modo, Ele permanecia connosco.
Por fim, na Vigília Pascal, vi um pequeno vislumbre desta beleza além da estética. Vi uma luz acesa no círio que reuniu pessoas ao ponto de ter uma igreja cheia. Ouvimos música que nos pôs, inevitavelmente, a dançar e a rir uns com os outros. Era fácil reconhecer aqui o Ressuscitado! No fundo, era por causa da sua presença que nos era acessível ver essa Beleza.
Todos eles eram belos, todos eles eram bons, tudo o que tínhamos vivido até aquele momento era bom, tudo o que vivemos era belo.
E Ele ressuscitava no meio disto, no meio destes nossos vizinhos temporários e, claro, no meio de nós.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
