Há anos que ouço e leio o P. José Frazão Correia, sj. Este autor deixa-me, invariavelmente, um cansaço intelectual saudável e desafiante, de quem corre a galope atrás de um pensamento que se desenrola num relevo tendencialmente acidentado, raramente plano, num ritmo que exige absoluta concentração para não perder o foco no essencial. Deixa-me, por vezes, tensa, tenho de admitir.
O seu último livro “Quem quiser ganhar, há de perder” (Paulinas, 2025) não desilude. A urgência que senti ao ouvi-lo na sessão de apresentação na Brotéria não permitiu adiamentos. Ao chegar a casa, sentei-me à boa maneira inaciana – nem demasiado confortável nem desconfortável – de lápis em riste para sublinhar uma ou outra passagem mais importante. Ao fim de algum tempo, estava tensa, sentada na borda do sofá e com as folhas sublinhadas quase de alto abaixo.
Diante de mim, foi-se desenrolando uma análise clara, corajosa e certeira sobre a Igreja no tempo “da mudança de tempo”, que vamos todos tentando atravessar, descobrindo, a custo, o nosso papel. Este é um tempo a que o autor chama de tempo favorável “para a releitura culturalmente situada do Evangelho e do conjunto da tradição da igreja”, o kairos, o tempo da graça.
O espírito que nos move, que move a igreja, só pode ser compreendido quando entendemos que espírito e forma não existem de modo separado.
Eu sou nascida e criada no pós-concílio Vaticano II, intensamente vivido na minha comunidade. Tem-me deixado bastante apreensiva o atual medo da mudança, uma certa necessidade de “pedir ao passado que nos dê respostas às buscas e questões que se colocam hoje de forma inédita”. Tenho sentido, como provavelmente muitos de nós, que há um desajuste entre o que somos e o que mostramos, entre o que nos move e o que nos distrai.
Este livro lançou-me a luz que faltava para a leitura da realidade que vivemos. Somos “depositários da força do Evangelho de Jesus e (…) corremos o risco de perpetuar formas que perderam a sua força evangélica”, como diz o P. José Frazão, que afirma a determinada altura: “Quebrou-se a correia de transmissão entre fé e vida” e continua: “neste quadro de forças e de formas que modelam sensibilidades e inteligências, memória e desejo, linguagens e ações, poderá e saberá a fé cristã ser reconhecida como força que faça viver e forma que possa configurar a vida?”
O espírito que nos move, que move a Igreja, só pode ser compreendido quando entendemos que espírito e forma não existem de modo separado. O espírito — a convicção interior, a vida movida pelo Evangelho, o impulso que vem de Deus — precisa de uma forma concreta para se manifestar no mundo. Sem forma, ele permanece abstrato, inapreensível, quase inexistente para a vida humana.
Da mesma maneira, a forma sem espírito é vazia. Práticas, ritos, posturas, discursos e até hábitos morais, podem ser copiados mecanicamente. Contudo, quando não fluem de um coração movido pela fé e pela caridade, tornam-se apenas aparência. Jesus criticou justamente essa forma morta quando denunciou os que “honram com os lábios, mas têm o coração longe” (Mt 15,8).
Neste ponto das suas reflexões, o P. José Frazão Correia, sj, fala de estilo, o que me surpreende. Passando além da aparência, estilo é um conceito que aprecio, porque me diferencia do toda a gente faz, toda a gente pensa ou sempre se fez assim. O estilo é a maneira própria e singular como alguém se expressa, cria ou age, revelando uma identidade através da forma. O estilo de ser cristão nasce exatamente dessa união anteriormente mencionada entre espírito que encontra forma e forma que revela espírito. E é desse encontro, dessa relação, que surge a coerência de vida — não como perfeição moral, mas como alinhamento entre o que se crê, o que se vive e o que se expressa. Assim, o estilo cristão não é uma estética exterior, mas uma maneira de existir em que a interioridade molda as ações, as ações confirmam a interioridade e ambas testemunham o Evangelho. Afirma o autor: “vale para indivíduos, vale para a igreja no seu todo”.
Ser cristão, portanto, significa deixar que o Espírito configure a forma de pensar, sentir e agir, gerando um estilo de vida que seja testemunho coerente da fé. “Quem quiser ganhar há de perder”, toma o autor do evangelista Mateus. E “poderá não bastar reformar formas antigas. Haverá outras necessidades e situações que reclamam formas inéditas”. Não se pode ser cristão sem ousadia, sem franqueza. O estilo cristão implica a liberdade de falar, de dizer tudo. E por fim, o desafio que me deixou tensa, mas esperançada e cheia de entusiasmo: “A igreja está mais do lado do que ainda lhe cabe ser, do que do lado do que já foi”.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
