Habituámo-nos a amar a vida quando ela corre bem.
A agradecer quando tudo encaixa, quando o desfecho confirma aquilo que desejávamos desde o início. Criámos uma relação confortável com o mundo. Damos quando recebemos, confiamos quando somos recompensados, acreditamos quando não somos postos à prova.
O problema não está em querer o bem, está em achar que o bem nos é devido.
Somos muitas vezes egoístas de uma forma silenciosa, educada, quase aceitável. Não é o egoísmo ruidoso de quem passa por cima dos outros; é outro, mais subtil, o de só aceitarmos a vida quando ela confirma as nossas expectativas. Quando a vida foge do guião, sentimos que algo nos está a ser tirado.
Queremos filhos saudáveis, dias previsíveis, respostas claras, finais felizes e é humano querê-los. O que raramente fazemos é perguntar se sabemos entregar aquilo que não controlamos, se sabemos confiar antes da confirmação, se sabemos acreditar quando não há garantias.
Confiar em nosso Senhor não é desistir, não é cruzar os braços nem entregar a responsabilidade a um vazio abstrato. Confiar é um ato ativo. É reconhecer, com humildade, que há um limite para aquilo que conseguimos carregar sozinhos e que não fomos feitos para suportar tudo.
Não somos donos da vida, somos depositários e não a controlamos.
Há um enorme equívoco quando se fala de fé: o de que confiar é deixar as coisas “ao acaso”. Não é. Confiar é perceber que somos imensamente privilegiados por poder colocar nas mãos de Alguém maior aquilo que nos ultrapassa. É retirar dos nossos ombros um peso que nunca nos pertenceu verdadeiramente. Não considero que tal seja uma fragilidade, mas sim lucidez.
Não é por força que tentamos controlar tudo, é por medo. Medo de perder, medo de sofrer, medo de aceitar que a vida não nos pede autorização para acontecer e é aí que a entrega se torna libertadora: quando percebemos que não estamos sozinhos naquilo que não conseguimos resolver.
A gratidão mais profunda não nasce no momento em que tudo corre bem, nasce antes. Nasce quando, mesmo no meio da incerteza, conseguimos dizer “eu confio”, “eu entrego”. Não porque sei o que vai acontecer, mas porque sei em Quem confio.
Creio que a sabedoria de vida se alcança quando, em lugar de procurar somente as coisas boas, se aprende a confiar no entretanto, quando elas ainda não chegaram ou quando chegam de forma diferente. Aceitar que nada nos é garantido, mas que tudo pode ser confiado.
Não somos donos da vida, somos depositários e não a controlamos. Quando percebemos isso, algo muda: deixamos de carregar o mundo às costas e passamos a caminhar mais leves, mais agradecidos, mais conscientes de que somos, acima de tudo, uns sortudos. Sortudos por poder confiar, sortudos por não termos de controlar tudo, sortudos por saber que há Alguém, infinitamente maior do que nós, que pode fazer no nosso lugar aquilo que nós nunca conseguiríamos.
Porque no fim, entregar não é perder. É confiar, e confiar é uma das maiores formas de liberdade que a vida nos pode dar.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
