Ainda se justifica assinalar o Dia Internacional da Literacia?

Estes recentes fenómenos de aumento de manipulação da informação, que dificulta a interpretação dos factos e notícias, veio demonstrar a importância de cultivar uma literacia para os media digitais e para a informação, em específico. 

Há já mais de meio século que 8 de setembro foi declarado o dia para celebrar a importância da literacia. Para cada indivíduo e para a sociedade.

Falar do papel essencial da literacia enquanto ferramenta de realização pessoal e de cidadania pode parecer desnecessário. No entanto, em tempos estranhos (a vários níveis) que vivemos, aquilo que deveria ser óbvio parece que necessita de ser reafirmado.

Ler, escrever, comunicar, interpretar o mundo que nos rodeia, participar ativamente. Tudo isto são dimensões da literacia – que alguns preferem usar no plural (literacias) ou adicionar qualificativos, literacia digital, literacia dos media, literacia da informação, apenas para mencionar alguns.

Há pelos menos dois espaços que, quando falamos em literacia, surgem de imediato. A escola e a biblioteca. Comecemos pela biblioteca, que é o lugar dos livros. São estes (byblos) a razão para o nome. Mas quando entramos nestes espaços, aquilo que é nos oferecido vai muito para além de livros e palavras escritas. Há pouco mais de uma década, em altura anterior aos conteúdos on demand, visitava com regularidade a Biblioteca Lúcio Craveiro, em Braga. Muitas vezes para ler a imprensa ou ver filmes.

A biblioteca Oodi, em Helsínquia, despertou a atenção mundial, aquando da sua recente inauguração, por ser considerada a mais avançada tecnologicamente em termos globais. Mas não precisamos de ir tão longe. As bibliotecas de Vila Franca de Xira ou de Viana de Castelo, só para dar mais dois exemplos, destacam-se quer pela multifuncionalidade dos seus espaços, quer pela arquitetura. E todas essas dimensões parecem ser relevantes para promover a literacia e a comunicação.

Quando, em 2015, a palavra do ano para os Dicionários de Oxford foi não um conjunto de caracteres mas um emoji, a mensagem é clara: comunicamos para além das palavras.

Já no que toca à escola, o seu papel é essencial no processo de alfabetização, no sentido mais basilar. Ler e escrever são aprendizagens complexas que a maior parte das pessoas adquire na escola. Isto, nas sociedades ocidentais com sistemas educativos solidificados. Porque existem, ainda hoje, muitas realidades com crianças a crescerem sem possibilidade de frequentar o ensino e, assim, poderem aprender a ler e escrever. E as consequências para a suas vidas são irreparáveis.

Quando, em 2015, a palavra do ano para os Dicionários de Oxford foi não um conjunto de caracteres mas um emoji, a mensagem é clara: comunicamos para além das palavras. E a escola tem procurado integrar muitas outras dimensões que promovem a literacia. Quer dentro da sala de aula, quer fora das paredes destes espaços de aprendizagem. E que se prolonga para além da própria escolaridade. A literacia é sobretudo um processo. Não termina quando concluímos a escola, independentemente do nível frequentado. As nuances do digital, por exemplo, obriga-nos a uma constante aprendizagem de novas competências técnicas e críticas.

A dimensão ética no âmbito da formação para a literacia tem também um papel que não é menor. Nos fenómenos das notícias falsas e da manipulação da informação, quem está por detrás destes acontecimentos serão pessoas, ou grupos, com grande destreza técnica e comunicativa, de manuseamento das ferramentas, capazes de perceber como causar confusão. Por isso, ter  competências de literacia digital e outras pode ser usada ao serviço não da libertação, mas da opressão – usando livremente os termos do pedagogo brasileiro Paulo Freire.

Estes recentes fenómenos de aumento de manipulação da informação, que dificulta a interpretação dos factos e notícias, veio demonstrar a importância de cultivar uma literacia para os media digitais e para a informação, em específico.  Sinal da (re)valorização desta área comprova-se pela revitalização de projetos com tradição, como o Público na Escola, ou no surgimento de observatórios de media, ou de iniciativas um pouco por todo o lado para promoverem a utilização crítica da internet e das redes sociais.

Respondendo à pergunta do título, se vale a pena ainda assinalar, ou celebrar, a importância da literacia, a resposta é, claro que sim. Afinal, disso dependem não só a valorização individual, mas também a qualidade de comunicação na nossa sociedade.  E, em consequência disso, especialmente nos tempos que nos encontramos, o rumo das próprias democracias.

 

Fotografia de:  Natalya Letunova – Unsplash

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.