A Sagrada Família está na minha família - Ponto SJ

A Sagrada Família está na minha família

Pude contemplar a vocação para a família, em particular a parentalidade, e como no presépio podemos encontrar um modelo para a sua vivência.

Certamente todos nos deparamos com um presépio nos últimos tempos: em nossas casas, numa iluminação de rua, ou na oração, têm estado à nossa volta. É uma imagem bem conhecida, e que nunca se esgota, motivo que me tem ocupado o espírito, e me levou a fazer algo novo: pela primeira vez, pus os óculos de psicóloga entre mim e a Sagrada Família. Pude contemplar a vocação para a família, em particular a parentalidade, e como no presépio podemos encontrar um modelo para a sua vivência.

A parentalidade é uma dimensão, por natureza, frágil e complexa. Estas não são características necessariamente negativas, simplesmente sublinham que a parentalidade pede discernimento. Quando este discernimento não é tido em conta, podem surgir sentimentos de confusão, insegurança, frustração, desânimo ou desligamento.

Por um lado, quando cuidar se transforma numa tentativa de corresponder à perfeição, pode surtir o efeito contrário, e tornar-se num exercício corrosivo e contraproducente. Por outro lado, quando se descarta a responsabilidade que esta dimensão comporta, corre-se o risco de perder a urgência de corresponder à criação de um vínculo essencial na vida de uma criança.

Geralmente, quando surgem estes sentimentos (de inadequação ao papel ou de sobre simplificação do mesmo), o espaço da fragilidade e complexidade passa a ser habitado por comparações traiçoeiras, por visões conflituosas de experts, que geram mais dúvidas do que esclarecem, e por excessivas opiniões exteriores. Aqui entra a Sagrada Família! Como Jesus é homem, nasce de carne e osso numa família em que, como em todas as outras, a parentalidade abarca as dimensões referidas: fragilidade e complexidade.

A entrega inteira e gratuita é o que norteia sempre a parentalidade de Maria e de José.

De facto, nada no presépio é evidente, a começar pela jovem que fica à espera de bebé sem estar sequer casada com o seu noivo. E é tudo muito periclitante: pensemos na manjedoura forrada de palha em que descansa um recém-nascido, enquanto o pai dorme agitado, a sonhar com uma fuga para o Egito, que deve por em prática apressadamente. Tudo é plenamente humano. Aquilo que é extraordinário na Sagrada Família, do ponto de vista da parentalidade, é o seu modo de proceder face às adversidades.

A resposta de Maria e de José é marcada pela consistência, presença, flexibilidade, e entrega gratuita. Isto faz com que seja possível uma vivência simultaneamente frágil e complexa, e simples e descomplicada.

A entrega inteira e gratuita é o que norteia sempre a parentalidade de Maria e de José. Sem exigências de retribuição, procuraram dar e educar da melhor forma – não de forma perfeita, mas sim de uma forma mais-que-perfeita: de forma humana. São pais com o que lhes é dado a viver. Foram radicais na entrega, até ao reduto mais assustador, sem ceder à tentação de perguntar: “E eu? Quem cuida de mim?”. Não criam um filho para si, criam-no para o mundo.

O presépio reflete o esvaziamento que deve ser central à parentalidade e que, numa família saudável, será até instintivo. A responsabilidade de cuidar de uma nova vida absolutamente dependente dos seus cuidadores pede que, da parte dos pais, haja uma disponibilidade tão absoluta quanto realisticamente possível. Este instinto da parentalidade existe para que seja possível continuar a espécie. Já que as crianças não nascem com a capacidade de se defender, de se alimentar, ou de se regular emocionalmente, garantir o seu bem-estar e sobrevivência está à responsabilidade dos pais.

Na infância, os bebés choram para comunicar todas as necessidades, e é importante que estas sejam atendidas pelos pais com a dita consistência e presença. Isto permite criar o vínculo bebé-cuidador (e não vice-versa), que será a chave da regulação e segurança da criança.

Em idades pequenas, os bebés e crianças não têm o desenvolvimento cerebral necessário para se poder autorregular, e, nesse sentido, é precisa a presença de um cuidador que possa guiar este processo. Em idades mais velhas, a capacidade de discernimento ainda está dependente de poder partir e retornar à base segura da família, para explorar o mundo ao seu redor.

Posto isto, não é necessária uma correspondência perfeita e imediata a cada necessidade da criança. É natural e bom que as crianças aprendam a partilhar e a lidar com a frustração que daí pode vir, que às vezes esfolem joelhos, que isso doa e assuste, e que aprendam a lidar com essa angústia. Tal não é evitável nem desejável que seja evitado. Mas é importante que, em todos estes momentos, esteja presente e atenta uma mãe ou um pai. Só assim será efetivamente possível o desenvolvimento no sentido da adaptação emocional a situações difíceis.

Os pais de Jesus mostram-nos que a chave do amor é ser plenamente para um outro, e que é nessa dádiva que se encontra o “eu” pleno.

Torna-se também evidente a importância da flexibilidade. É esta que permite uma resposta realista e adaptada às circunstâncias muitas vezes imprevisíveis e inevitáveis. No caso da Sagrada Família, as voltas foram muitas vezes trocadas, mas a resposta à adversidade foi sempre a de procurar a solução possível, e de fazer com esta o melhor. Não haver uma fidelização fundamentalista ao “plano” é o que permite aos próprios pais gerir a frustração e adequar as suas respostas.

Proponho, assim, que quando for preciso ânimo ou exemplo, voltemos os nossos olhos para a Sagrada Família. Os pais de Jesus mostram-nos que a chave do amor é ser plenamente para um outro, e que é nessa dádiva que se encontra o “eu” pleno. A parentalidade é uma graça, porque exige dos pais este treino de liberdade e indiferença tão inacianas, e tão importantes para ser pai e mãe, mas também para ser filho de Deus, criado para servir.

Dar gratuitamente, ser presente, constante e flexível, é, realmente “a perfeição” da parentalidade. São estas as características que promovem um desenvolvimento seguro e confiante- não para si próprio, mas para o outro. Um coração ansioso tem dificuldade de se abstrair das suas necessidades, porque nunca aprendeu que, com calma, serão atendidas. Educar seres humanos seguros e confiantes, é o primeiro passo para podermos voltar-nos uns para os outros como sociedade, e deixarmos o nosso umbigo sossegado. É, verdadeiramente, educar para servir.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.