A casa dos avós: o lugar onde tudo começou - Ponto SJ

A casa dos avós: o lugar onde tudo começou

A casa dos avós foi o primeiro mosteiro da minha infância: onde se rezava com o corpo, se aprendia com os afetos e se partilhava com verdade.

No dia 26 de julho, celebramos os avós. E, com eles, celebramos também um lugar muito especial na vida de muitos netos: a casa dos avós. Mais do que um espaço físico, esta casa é muitas vezes o berço da nossa história, o solo fértil onde foram lançadas as primeiras sementes da nossa forma de estar no mundo.

No meu caso, esse lugar tem nome, luz e cheiros: a casa das Azenhas do Mar. Um terreno escolhido com amor pelos meus bisavós, sonhado e construído pelos meus avós, e vivido também pelas gerações seguintes. Como nos disse tantas vezes a minha avó: “Podíamos ter investido numa casa em Lisboa só para nós. Mas quisemos construir um lugar onde as filhas e os netos pudessem estar juntos.” E foi essa visão que me educou.

Cresci num espaço onde o “nosso” vinha sempre antes do “meu”. Onde o skate que era dos primos, também usávamos; as raquetes, os jogos de tabuleiro, as loiças, e até a colecção de galos da avó. Onde a mesa tinha sempre lugar para mais um amigo. Onde se partilhavam refeições, choros, alegrias e conquistas. Era ali, na casa dos avós, que se aprendia o sentido mais básico — e mais nobre — de comunidade.

A arte e a educação também habitavam esta casa. A minha avó, artista de formação e de alma inquieta, enchera as paredes de quadros seus, incentivando os netos a descobrir a beleza no traço e na cor. Já o meu avô, professor catedrático de Educação Física e apaixonado por Sociologia, ensinava pelo exemplo: o saber partilhava-se. Mas era no campo de ténis, que a pedagogia se tornava prática. Jogávamos todos juntos — netos, tios, avô — e aprendíamos o jogo mais importante de todos: o do encontro.

Havia também, o pinhal. Um mar de árvores onde me sentia livre, selvagem e em paz. Olhava o pinhal com os pés em cima do poço, subia aos troncos das árvores, tocava na resina, fazia fisgas com paus, regava as plantas com a avó, reconhecia as flores. Era a natureza a formar-me: o tempo lento, o silêncio, o vento, o cheiro das pinhas. A contemplação como escola de vida.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto esta casa moldou a minha maneira de ser. A forma como valorizo a comunidade, a partilha, a criatividade, a ligação à terra, ao mar, ao surf, ao belo. Tudo isso nasceu ali. A casa dos avós foi o primeiro mosteiro da minha infância: onde se rezava com o corpo, se aprendia com os afetos e se partilhava com verdade.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto esta casa moldou a minha maneira de ser. A forma como valorizo a comunidade, a partilha, a criatividade, a ligação à terra, ao mar, ao surf, ao belo. Tudo isso nasceu ali.

Esta casa foi uma semente lançada pelos bisavós, regada pelos avós, cuidada pelas filhas e vivida pelos netos. Um amor que não se mediu em metros quadrados, mas em gerações transformadas.

Mas a casa dos avós não é apenas memória doce. Pode também ser, e tantas vezes precisa de voltar a ser, lugar de reconciliação. Entre irmãos, entre primos, entre gerações. No tempo em que tudo se calcifica em partilhas e testamentos, é fácil esquecer que o verdadeiro legado dos avós não está no que se possui, mas no que se viveu juntos. A herança mais valiosa é a da comunhão. A casa onde nos amámos pela primeira vez deve ser também a casa onde nos perdoamos, onde se reatam laços, onde se aprende a não deixar que o orgulho fale mais alto que o amor. É essa fidelidade às relações que transforma uma casa num lar.

Num mundo onde tantas vezes as raízes se perdem, a casa dos avós é o lugar da memória viva, onde a fé, a cultura e os valores se transmitem de forma natural. Como nos lembra o Papa Francisco: “Os avós são o elo entre as gerações, transmitindo aos jovens a experiência da vida e da fé” (Amoris Laetitia, 192). A casa dos avós é, por isso, uma escola de ternura, de gratuidade, de escuta — um lugar onde se aprende a amar sem condições.

A espiritualidade inaciana convida-nos a “procurar e encontrar Deus em todas as coisas”. Eu encontrei-O, começando em criança, na liberdade da natureza, na alegria dos avós, nos jogos entre primos, na beleza simples das paredes cheias de cor. Porque, afinal, como nos diz o Salmo, “A sorte coube-me em lugares amenos: é magnífica a herança que me tocou” (Sl 16,6). Há heranças que não se contam em testamentos — contam-se em memórias, raízes e frutos que perduram.

E há caminhos, como os que percorremos na casa dos avós, que nos guiam para sempre.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.