Está a aproximar-se o fim desta minha missão de dois anos em São Tomé e há quem pergunte ou diga que se regressa de missão uma pessoa diferente… Eu não me consigo rever nesta ideia! Porque as mudanças são difíceis! Porque os corações demoram a amolecer e a moldar-se! E porque, no fundo, no fundo, somos sempre os mesmos, vivendo e aprendendo!
É verdade que quando partimos e estamos em missão, não nos move só uma vontade de servir. Também se trazem e criam desejos de mudança e caminhos de conversão pessoal, que são igualmente bons e belos, quando não nos prendem em nós próprios. E isto é natural, e acontece em tantos outros momentos da vida!
Posso partilhar, por exemplo, que as chamadas de breves segundos “só para cumprimentar” que recebemos quando alguém se lembra de nós, e até a palavra “amole” (amor em crioulo forro) me alertaram para a necessidade de amolecer o coração e estar mais atenta, recordada e disponível para as pessoas, sem me fechar e endurecer com o tanto que sempre há a fazer. Ou que o ritmo “leve-leve” me foi recordando da minha necessidade de aprender a largar o controlo, a desacelerar, a moldar-me a outros ritmos e formas de fazer. E também que viver em comunidade nos força a exercitar (e sentir a dificuldade de pôr em prática) o desejo de um coração mais manso e humilde. Mas estes e tantos outros propósitos, que se trazem ou que despertam em missão, são processos diários e para a vida! Porque implicam escolher e calar palavras, olhar para dentro, olhar e compreender o outro também por dentro, ser vulnerável e verdadeiro/a e acolher a vulnerabilidade com disponibilidade. E isto não é algo que se aprenda ou resolva num ano ou dois! É um caminho de vida!
Como dizia, há uns tempos, uma irmã que nos orientava em retiro, “um coração mais atento e disponível aos outros, com mais mansidão, compaixão e humildade não se improvisa… Vai-se formando ao longo da vida, vai-se moldando no dia a dia, nos pequenos gestos, nas palavras que dirigimos uns aos outros, na abertura a aprender com os outros”.
Por isso digo que não saio de missão uma pessoa diferente. Quero acreditar que com vontade e esforço, reflexão e oração, enfrentando desafios e fragilidades, e com a ajuda de Deus, das minhas comunidades LD e da comunidade de Praia Melão, saio “um bocadinho mais limada”. Todavia, também sei que as “asperezas” que fui limando em missão não são um trabalho acabado e voltarão a asperecer se não mantiver a labuta — porque o desejo, a dedicação, as lutas interiores e da vida, e a relação comigo, com Deus e com os outros têm que existir sempre e continuamente.
Claro que também consigo identificar objetivamente algumas diferenças e transformações decorrentes da missão. Mas chamava-lhe mais aprendizagens: ganham-se ou desenvolvem-se algumas virtudes e competências; conhecem-se novas realidades; crescemos espiritualmente e em pertença à Igreja; ganha-se perspectiva; aprendem-se novas formas de estar, de falar, de se relacionar; expande-se a compreensão de nós mesmos, do outro e do mundo. No entanto, tudo isto não é mais do que a vida a acontecer normalmente, e nós a aprendermos vivendo.
Como filosofava o meu irmão Francisco quando falávamos sobre este tema “ou assumimos que somos sempre diferentes, a mudar a cada dia, ou assumimos que somos sempre iguais.” E eu acrescento: vivemos neste paradoxo de estar em constante transformação e aprendizagem e, no fundo, sermos sempre os mesmos (a tentar, a cada dia, ser um bocadinho mais limados/as).
Inês Rocha
Praia Melão (São Tomé), 2024-2026
