Há dias em que percebo que viver em comunidade não é exatamente aquilo que imaginava. Achei que ia ser mais simples, que bastava vontade, amizade e missão. Mas a realidade é que viver em comunidade é desafiante. Quatro mulheres, quatro histórias, quatro maneiras de fazer as coisas. Habituámo-nos a ritmos diferentes, culturas diferentes, formas diferentes de comunicar e até a pequenas rotinas que pareciam insignificantes, mas que, quando partilhamos casa e vida, deixam de o ser.
Foi precisamente aí que começou a verdadeira aprendizagem.
É curioso como, tantas vezes, imaginamos que uma boa comunidade é feita de pessoas parecidas. A minha está constantemente a ensinar-me o contrário, demorei algum tempo a perceber isso. Foi acontecendo aos poucos, em momentos muito concretos. Lembro-me do Dia dos Jovens na paróquia, do Natal, das nossas aventuras no Zóbuè, em Boroma e no Songo. Pequenos dias que, sem aviso, fizeram com que a casa deixasse de ser apenas o lugar onde dormíamos. Passou a ser o lugar onde podíamos ser nós mesmas, onde podíamos rir, desabafar, rezar e aprender.
E aprender tem sido, talvez, a palavra que melhor define este ano. Aprender a esperar pelo tempo do outro, aprender que nem toda a gente resolve os problemas da mesma forma, aprender a ouvir antes de responder.
Viver em comunidade ensinou-me que a harmonia não aparece do nada. Constrói-se todos os dias, com pequenas cedências, muito diálogo e uma dose ainda maior de amor.
Curiosamente, é esta aprendizagem dentro de casa que depois me ajuda a servir melhor quem nos acolhe. Quando somos desafiadas a sair do nosso ponto de vista e a olhar para as situações pelos olhos das outras, também aprendemos a olhar a comunidade com mais verdade, calma e disponibilidade.
Mas não é só a comunidade missionária que me ensina. Também a comunidade que nos acolheu o faz todos os dias. Há uma forma simples de estar, de acolher e de partilhar o pouco que se tem sem fazer disso um problema. Pelo contrário. Às vezes, até com uma alegria difícil de explicar. Aqui aprende-se depressa que não é preciso muito para se viver bem. Que a felicidade não depende de ter muito, mas da forma como vivemos o que temos e de quem temos por perto.
Também na nossa casa se vive esta aprendizagem. Nas conversas ao final do dia, nas diferenças que às vezes cansam, nas gargalhadas que resolvem mais do que muitas conversas.
E há Deus no meio desta vida partilhada. Nas orações, nas partilhas, mas, sobretudo, na vida delas. Acredito que Deus se manifesta através dos seus testemunhos, das correções feitas com carinho, das brincadeiras e da forma como me desafiam, todos os dias, a crescer e a amar melhor.
Se tivesse de guardar alguma coisa deste tempo, não seriam os grandes acontecimentos. Seriam, antes, estes pequenos momentos de quatro vidas a aprender a viver juntas. Nem sempre com facilidade, mas sempre com verdade.
E talvez seja isso uma comunidade.
Leonor Lopes
Tete (Moçambique), 2025-2026
