Uma das coisas mais bonitas e mais características de estar em missão com os Leigos é que trabalhamos com a comunidade. E isso traz muitas alegrias e também muitos desafios.
Implica assumir o ritmo da comunidade a quem queremos servir. Implica não impormos os nossos ritmos, as nossas ideias, as nossas manias e formas de trabalhar. Implica abrirmo-nos à realidade que nos recebe e deixarmo-nos envolver por ela.
Queremos “fazer com” e não “fazer por”. E, muitas vezes, isso significa um trabalho lento, demorado, sem resultados imediatos.
Por isso, o trabalho a que somos chamadas exige uma presença verdadeira e inteira. Exige um serviço que não se mede apenas pelo que fazemos, mas pela forma como estamos. Dar a própria presença, estar disponível, ser para o outro.
Nem sempre é fácil. Às vezes esta forma de servir é lenta, frustrante, e o nosso ego pede resultados. Mas a missão vai-nos ensinando a largar esse ego e a entregar aquilo que realmente podemos dar: a nossa presença.
“As necessidades humanas são muitas e as situações de sofrimento, cansaço e dor são infinitas, mas a necessidade das necessidades é ter alguém próximo que faça dom da sua presença, até sem palavras, simplesmente com o seu rosto e o seu olhar.” (Enzo Bianchi, Dom e Perdão)
Sinto que a missão me tem ensinado isso: que muitas vezes o mais importante não é aquilo que conseguimos resolver, organizar ou mudar, mas a forma como estamos.
E, quando nos abrimos de verdade, quando nos deixamos envolver por esta realidade nova, descobrimos pessoas e lugares que se tornam casa. Descobrimos uma familiaridade que nunca imaginámos sentir. Uma cultura tão diferente da nossa começa, pouco a pouco, a tornar-se próxima. De repente damos por nós a usar expressões moçambicanas, a fazer gestos que antes nos eram estranhos…
Acho que este é um dos maiores dons da missão: deixarmo-nos envolver de tal forma por um mundo novo que passa a ser também um lugar onde nos sentimos em casa.
E talvez seja aí que o serviço ganha o seu sentido mais profundo: envolvermo-nos verdadeiramente na vida das pessoas e deixar que elas façam, também, verdadeiramente parte da nossa vida.
“O dom não é suficiente se não estiver presente também o doador” (Martinho Lutero).
Mariana Ortigão
Tete (Moçambique), 2025-2026
