Há imagens que só ganham significado quando deixam de ser apenas imagens. Durante estes meses em São Tomé, vi inúmeras mulheres caminhar pelas estradas com bacias equilibradas na cabeça. Um dia, fui experimentar.
A minha atenção estava toda concentrada em não deixar cair a bacia. Cada passo era pensado, cada buraco no caminho obrigava-me a endireitar a bacia. Ao meu lado, uma mulher caminhava com uma tranquilidade impressionante, conversava e seguia o seu caminho como se o peso quase não existisse. O peso era real, mas o equilíbrio parecia fazer parte dela.
Foi então que percebi que o verdadeiro desafio não era transportar a bacia, mas encontrar o equilíbrio. Sem o saber, aquela tornava-se uma das imagens da minha missão.
Quando cheguei a São Tomé, também vinha carregada. Trazia expectativas, vontade de ajudar e o desejo de responder a tudo o que encontrasse. Mas a missão foi-me mostrando, pouco a pouco, que servir não é carregar o mundo às costas. Nem tudo depende de nós. Nem todos os problemas podem ser solucionados pela nossa presença. Talvez seja precisamente aí que começa o verdadeiro equilíbrio.
Ao longo destes meses, tenho aprendido que a missão se faz de pequenos gestos: de presenças constantes, de conversas simples, de escutar, de permanecer e, sobretudo, de deixar que também cuidem de nós. Vim com vontade de servir, mas depressa percebi que a missão também passava por me deixar transformar pelas pessoas que vou encontrando.
Tenho descoberto que esse equilíbrio também passa por aprender a viver com o coração em dois lugares: entre São Tomé e as saudades de casa, entre o trabalho e o descanso, entre fazer mais e simplesmente estar presente. Descansar deixou de ser sinal de parar a missão, perder tempo e passou a ser uma forma de confiar que Deus continua a agir, mesmo quando eu não consigo fazer mais. É reconhecer que nem tudo depende de mim e que parar faz-me regressar ao serviço com um coração mais disponível.
Nove meses depois, continuo a aprender a viver este equilíbrio. Talvez a missão seja isso mesmo: caminhar, um passo de cada vez, procurando o equilíbrio.
Matilde Lourenço
Praia Melão (São Tomé), 2025-2026
