Carta ao meu eu futuro

Não dormirá Aquele que te guarda!

Maria,

Escrevo-te a dois meses do fim da missão. Quando voltares a ler esta carta, é porque chegou o dia da partida. Sentes que este ano passou a correr, eu sei, e que te custa ir embora. Antes de mais, lembra-te de agradecer.

A missão começou muito antes de chegares a Angola. Começou no momento em que aceitaste o convite do Senhor para embarcar na formação dos Leigos para o Desenvolvimento e descobrir uma vida marcada pela simplicidade, pela vida comunitária, pela oração e pela disponibilidade para seres enviada.

Foi Ele quem te guardou em todas as viagens. Quando aterraste naquela avioneta, logo tu que tens medo de aviões, confiaste. Esse foi já um sinal do que estava para vir: pode dar medo, mas vais e confias.

Quando chegaste, tudo era novo. Encontraste realidades difíceis, muito diferentes das que conhecias, mas também uma alegria de viver e uma capacidade de acolher que te inspiraram desde o primeiro dia. Aprendeste que é preciso parar, escutar e dar tempo às pessoas para mostrarem quem são.

Logo em Benguela, foste acolhida pelos Padres Espiritanos, com quem jantaste no dia da chegada, e pelas Irmãs Doroteias, que te deram guarida. Conheceste também o Padre Amadeu, que nem sabes bem quando entrou na tua vida, mas que tinhas mesmo de conhecer. Os parceiros locais, a quem chamaste “padrinhos”, foram um verdadeiro sinal da Providência Divina. Ainda em Benguela, conheceste as pessoas do Bairro da Graça, onde os Leigos estiveram durante muitos anos.

Já na Ganda e no Alto Catumbela, onde viveste durante estes meses, conheceste toda a equipa do projeto que acompanhaste. Encontraste mulheres, jovens, leigos e, hoje, amigos que são um verdadeiro exemplo. Desde que chegaste, viveste momentos marcantes, como fazer o ofertório em espécies com aquele amigo que te chama “Mãe de Jesus”, entre tantos outros. Também toda a comunidade de consagrados e leigos da Diocese da Ganda ficará gravada no teu coração.

As pessoas com quem trocas e-mails na sede, em Portugal, e que trabalham para dar suporte e estrutura à missão no terreno, também deixarão saudades. E até os Leigos que passaram antes de ti pela província de Benguela, os “anciãos”, de quem ouviste tantas histórias, se tornaram familiares. Mesmo sem os conheceres, vais sentir saudades de ouvir o nome deles.

Agora percebes que ser missionária é aceitar ser enviada, tanto para partir como para regressar. A despedida custa, mas a confiança pode ser maior do que o medo. Leva contigo os lugares, as histórias e tudo o que aprendeste. Nada disso termina quando a missão acaba, tudo isso passa a fazer parte de quem és.

Recorda o entusiasmo que sentes por confiar a tua vida a Deus. Confia e descansa porque, tal como cantavas antes de partir: “Levanto os olhos para os montes, de onde virá o

auxílio? O meu auxílio vem do Senhor, que fez o Céu e a Terra (…) Não dormirá aquele que te guarda, não há de adormecer” (Sl 121).

A maior saudade será da comunidade doméstica e daqueles que vos guardaram todos os dias: a mana Béu e os guardas Simão e Cani. Agradece-lhes por serem exemplo vivo de que “não dormirá Aquele que te guarda”!

A ti, Maria, que em Angola foste batizada como “Mãe de Jesus”, aprende com Nossa Senhora, que permaneceu na esperança da Ressurreição, espera também n’Ele tudo o que ainda está por vir.

 

Maria Lima Santos
Ganda (Angola), 2025 – 2026