Divina

A verdade é que ninguém fica indiferente à personalidade da Divina, seja do Bairro da Graça, seja dos Leigos para o Desenvolvimento ou qualquer pessoa que nos venha visitar.

Uns dias antes de escrever um testemunho, começo por pensar sobre o que vou escrever. Acabo sempre por me focar no momento por que estou a passar, no projeto ou na comunidade … Há uns dias decidi que ia escrever sobre a Graça, mas nunca iria conseguir transmitir num texto destes a energia e alegria deste Bairro. E como a Graça para mim são as pessoas, vou escrever-vos sobre uma em especial.

A Maria Emília tem 8 anos e todos a conhecem por Divina. O sorriso da Divina é sempre o primeiro que vejo quando chego à Graça, numa corrida de cerca de 20m do Centro até ao táxi que me deixa, de braços abertos para me receber a mim, ou a quem esteja comigo com um abraço. O sorriso não demora muito até se transformar numa cara de gozo, enquanto me mostra que acha que estou a engordar ou cara de chateada quando me pergunta por que não venho de carro ou onde estão outras pessoas. É difícil encontrar alguém na Graça que não saiba quem é a Divina, e podia contar muita coisa sobre ela. No Centro Juvenil, normalmente não entram crianças para não perturbar as formações, mas a Divina entra como se nada fosse e ri-se quando a mandam sair, e fica. Não é membro do GAIVA (Gabinete de Apoio à Inserção na Vida Ativa), mas é quem mais visita o gabinete e quem lá estiver. É a primeira a chegar às reuniões de coordenação do Grupo Comunitário, entra na sala e senta-se com um ar muito sério como se fosse moderar a reunião. Até conseguiu um papel especial no vídeo do projeto. Como participa nos campos de férias do Espaço Criança, é sempre uma animação quando na festa de encerramento sobe ao palco e dança como quiser. Na missa, não procura um lugar para se sentar, vem sempre ter connosco e vai variando de colo em colo. Mas também faz asneiras, como quando a Alice do projeto Epongoloko Lyukãy, enquanto costurava lhe deu 100Kz para comprar kissangua à sua mãe, não tardou muito até a Divina chegar sem kissangua, a comer bolinhos e a gozar com a Alice. A verdade é que ninguém fica indiferente à personalidade da Divina, seja da Graça, seja dos Leigos para o Desenvolvimento ou qualquer pessoa que nos venha visitar.

Quando era mais pequena, a Divina perdeu a fala e audição, mas comunica e entende mais que a maioria das crianças da sua idade. Deus deu-lhe uma família de mulheres fortes, grandes exemplos de resiliência, como a sua mãe, a avó e as tias que a estimulam e a levam a ser como é. A Divina é uma das maiores inspirações que encontrei na minha missão. Assim como a Graça, não se deixa ficar para trás pelas suas condições menos ideais e mostra a sua força e luz a cada dia.

Marta Horta
Benguela, 2017-2019