O mundo das crianças tem mais encanto!

Jesus disse “Deixai as criancinhas e não as impeçais de vir até Mim” (Mt 19: 14) e também “a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus“ (Mt 18: 3-5). Tanto podemos aprender com elas, com a sua alegria e simplicidade. Deixemo-las pois aproximar-se, e saibamos estar com paciência e carinho.

Uma das alegrias que mais me tem aliviado os dias difíceis de missão são as crianças. Como poderia não ser assim? Ainda para mais este mês, em que tivemos o dia da criança (1 de junho), e o dia da criança africana (16 de junho). E por isso, vale a pena dedicar-lhes umas quantas palavras e partilhar o tesouro que são!

As crianças em São Tomé são como as crianças em qualquer parte do mundo. No sentido de serem tela em branco, de serem simples, não esconderem o que sentem, de se alegrarem com o pouco. Ao mesmo tempo, sem me querer contradizer, há muitas diferenças que se podem enumerar.

Uma delas é o contexto. A vivência das crianças em São Tomé, e especialmente em Praia Melão, onde as conheço melhor, é de uma vida na rua. Não há o protecionismo de não as deixar sair do ninho. Pelo contrário – quando não estão na escola estão na rua, na praia, no rio, no campo de futebol, por aí espalhadas. Estão ao cuidado de umas das outras e da comunidade em geral. A verdade é que não acontecem tantos acidentes como seria de esperar tendo em conta o nosso natural alarmismo ocidental.

E não faltam ideias para atividades e brincadeiras. Desde pescar no rio, pescar na praia com rede mosquiteira, fazer bodyboard com pequenas tábuas de madeira, fazer piruetas e mortais na praia, jogar ao elástico, jogar futebol, trançar o cabelo uns dos outros, brincar com carrinhos feitos com plásticos, etc etc. São a alegria genuína personificada. Quando estou a andar em Praia Melão, nada me deixa mais feliz que ouvir as crianças a chamar “Francisco!”. Porque sei que estarão a sorrir, não me vão enfadar com trabalho, nem terão nenhuma segunda intenção. Deixai vir a mim estes pequeninos, preciso deles.

Mas não é tudo brincadeira. Apesar de alguns aspetos da cultura portuguesa se infiltrarem em São Tomé facilmente, a parentalidade positiva não é uma delas. Cá, a parentalidade é equiparada ao que eu oiço do tempo dos meus pais. Grande rigor exigência, e o que eles apelidam de “Chicoti” (autoexplicativo). As crianças desde cedo ajudam os pais com as tarefas domésticas. Lavar a roupa no rio, lavar a loiça, ajudar na cozinha, tomar conta dos irmãos, são tarefas às quais todos se vão habituando desde cedo. A autonomia começa desde bebé.

Jesus disse “Deixai as criancinhas e não as impeçais de vir até Mim” (Mt 19: 14) e também “a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus“ (Mt 18: 3-5). Tanto podemos aprender com elas, com a sua alegria e simplicidade. Deixemo-las pois aproximar-se, e saibamos estar com paciência e carinho.

 

Francisco Santos
Praia Melão (São Tomé), 2025-2026