Verão Ponto SJ: As sugestões culturais de Tiago Cavaco - Ponto SJ

Verão Ponto SJ: As sugestões culturais de Tiago Cavaco

Esta semana, Tiago Cavaco deixa-nos a provocadora conclusão que hoje é a Igreja que mete medo ao mundo e sugere três séries relacionadas com o tema.

Esta semana, Tiago Cavaco deixa-nos a provocadora conclusão que hoje é a Igreja que mete medo ao mundo e sugere três séries relacionadas com o tema.

Este é um assunto que me é querido: antes o mundo metia medo à Igreja mas agora é a Igreja que mete medo ao mundo. Dou um exemplo tão saloio quanto sincero: crescido numa família Baptista, fui ensinado a temer bandas de heavy metal. Nos anos 80 isso não era coisa pouca, porque ser do heavy metal era um dos modos mais divertidos ou até corajosos de ser rapaz. Logo, os matulões que no secundário envergavam os coletes de ganga com as capas dos discos de Iron Maiden assustavam-me na mesma medida que me fascinavam.

Em trinta, quarenta anos, as coisas mudaram radicalmente. Hoje qualquer concerto, até de uma banda de heavy metal, tem de ser um safe space. O perigo perdeu-se onde antes se fazia questão de ele estar. Hoje temos de não ter medo de nada que no passado já nos assustou. Significa isso então que o medo foi banido? Como se diz hoje no inglês original: not so fast. O medo mudou de lugar. Se os maus passaram a ser bons, os bons tiveram de passar a ser maus.

Se um cristão deveria ter medo do mundo, agora que o mundo foi impedido de meter medo, talvez seja ao cristão que vai calhar a quota de meter medo. Daí que os novos discos de heavy metal, que nos anos 80 corriam risco de ser banidos, são agora as igrejas. São as igrejas que agora podem ser socialmente temidas. Colocavam-se autocolantes nos Estados Unidos quando a música era problemática: “parental advisory—explicit music”. Do mesmo modo, colam-se suspeitas em cima de movimentos religiosos.

Reconheço que volta e meia embarco nesta mudança. Já consumi várias séries de TV acerca de movimentos religiosos com suspeita colada neles. Menciono três: “Wild Wild Country” na Netflix conta a história de um guru indiano que em plena América promove uma espécie de colonização e conquista de uma pequena cidade assustada; “Waco, Apocalipse Norte-Americano” é sobre a história trágica de David Koresh e dos seus seguidores; e “Escaping Twin Flames” tem um enredo mais dependente das omnipresentes redes sociais.

 

Assumamos a mudança. Ir à Igreja ao Domingo de manhã é hoje mais perigoso do que ir a um concerto ao Sábado à noite. Por ser pastor evangélico, estou praticamente ao nível do antigo músico satânico. Assusta mais estar na assembleia dos santos do que nos deboches dos profanos. Se assim for, o terror da TV ganha mesmo poder de me entreter. Medo, já não me mete.

 

A sugestão cultural sai à quinta-feira no Ponto SJ e é uma rubrica do Verão Ponto SJ. Todas as semanas um novo convidado apresenta uma dica para inspirar este tempo de férias.

Conheça a sugestão cultural 1, de Manuel Fúria.

Conheça a sugestão cultural 2, de Pedro Carvalhas.

Conheça a sugestão cultural 3, de Inês Roseta.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.