Prince of Darkness - a sugestão cultural de Manuel Fúria - Ponto SJ

Prince of Darkness – a sugestão cultural de Manuel Fúria

Quem não se opõe ao mal consente-o. Resistir-lhe é manter acesa a esperança. Neste mundo sempre a colapsar, essa chama não descansa; não pode; é um combate.

Quem não se opõe ao mal consente-o. Resistir-lhe é manter acesa a esperança. Neste mundo sempre a colapsar, essa chama não descansa; não pode; é um combate.

O Príncipe das Trevas, de John Carpenter, é um grande filme católico disfarçado de terror metafísico. No contexto da trilogia do Apocalipse (juntamente com The Thing, de 1982, e In the Mouth of Madness, de 1994), é talvez o menos conseguido do ponto de vista técnico, mas é movido pela força de uma grande ideia. A saber: o Diabo existe, dá cabo de nós e para lhe fazer frente é preciso sacrifício.

Neste filme, tal como no Catecismo da Igreja Católica (art.ºs 2851 e seguintes) não se trata de uma força simbólica, psicológica. O mal não é o que acontece quando o bem se ausenta: é uma coisa ontológica. Uma realidade pessoal e espiritual. Uma coisa antiga que não pode ser vencida através da ciência ou da psicologia. Que só pode ser contida pela vigilância, pela fé e pelo sacrifício. E se for só um símbolo, dizia a boa Flannery, que se dane o símbolo.

O centro da narrativa é uma igreja na baixa de uma grande cidade americana que nunca é nomeada. Talvez Los Angeles; e bem podia ser Lisboa. Na cave dessa igreja está guardado (numa sinistra inversão da linguagem da Encarnação) o “filho de Satanás”. No final — perdoem-me, mas não acredito em “estragar finais” — uma mulher lança-se para dentro de um espelho para impedir o regresso do pai da entidade maligna: o anti-Deus preso noutra dimensão. Não é um triunfo. É um sacrifício. É a cruz.

Nesta fita, John Carpenter é uma espécie de São Leão IX do terror tecno-apocalíptico. Quando este escreveu a São Pedro Damião para lhe dizer esta coisa terrível, que agora é nos dita a nós: quem não se opõe ao mal, consente-o. Por isso, amigos, resistir-lhe é manter acesa a esperança. Neste mundo sempre a colapsar, essa chama não descansa; não pode; é um combate.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

A sugestão cultural sai à quinta-feira no Ponto SJ e é uma rubrica do Verão Ponto SJ. Todas as semanas um novo convidado apresenta uma dica para inspirar este tempo de férias.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.