A leitura faz parte de mim desde que me lembro. Sempre preferi adormecer entre páginas, com os olhos já pesados e as linhas a desfocar na sonolência. É nos livros que me perco do tempo, que viajo sem sair do lugar, onde a criatividade pulsa e a imaginação floresce.
Ler é o espaço onde o meu mundo se expande por dentro.
A Esperança não descansa …
Não consigo escolher apenas um livro que me tenha marcado à luz desta Esperança — seria como tentar escolher um só instante inesquecível. Por isso, partilho os três livros que mais me tocaram na última década e que me fazem acreditar que tudo pode ser transformado em graça, e que a única possibilidade de crescer e de ver as nossas fragilidades sarar, é entregando-nos e tornando-nos vulneráveis, reconhecendo a nossa pequenez para que nos deixemos transformar pelo amor de Deus.
São livros que não se lêem apenas com os olhos — lêem-se com a alma. Entram devagar, mas ficam para sempre.
“Cidade da Alegria”, de Dominique Lapierre, uma história verídica e comovente de um jovem médico francês, Max Loeb, que decide abandonar a sua vida confortável na Europa para viver num dos bairros de lata mais pobres de Calcutá, na Índia.
Ali, entre ruelas estreitas, miséria extrema e condições quase desumanas, Max é confrontado com a dor crua da fome, da doença e da exclusão. Mas é também nesse cenário que descobre algo ainda mais forte: a dignidade de um povo que, mesmo sem quase nada, vive com alegria, solidariedade e fé.
Este livro tocou-me muito porque mostra que a alegria não depende de circunstâncias externas, e que o amor ao próximo pode ser o maior luxo de todos. Ensinou-me que a verdadeira grandeza humana muitas vezes se revela no meio da adversidade.
“Nascemos e Jamais Morreremos” não é só a história de uma vida — é um convite a olhar o amor e a entrega de uma forma que toca a alma. Chiara Petrillo foi uma mulher jovem, real, que enfrentou perdas imensas e uma doença grave, mas escolheu viver tudo com uma serenidade e uma fé que quase parecem milagrosas.
Ao lado do marido, enfrentou a dor da morte prematura de dois filhos ainda antes de os ver nascer, e, mesmo assim, nunca desistiu de amar, de esperar e de confiar. Quando finalmente teve o terceiro filho, já com o cancro avançado, escolheu proteger a vida dele antes de iniciar tratamentos, mesmo sabendo o que isso podia significar para si.
É um livro que se lê com o coração apertado e uma sensação de reverência profunda. Não se trata de um heroísmo distante, mas de uma coragem silenciosa, de uma entrega tão real que nos desafia a repensar o que é viver verdadeiramente. Para Chiara, a vida não acaba com a morte — nasce um novo caminho de amor e eternidade.
Este livro ensinou-me que o amor maior é aquele que não desiste, que escolhe a luz mesmo nas sombras, e que viver com verdade é talvez o maior presente que podemos dar a nós mesmos e aos outros.
“Os 5 Maiores Arrependimentos na Hora da Morte”, de Bronnie Ware, é um livro escrito com uma simplicidade desarmante, tecido por relatos íntimos de uma cuidadora que acompanhou as últimas jornadas de vida de pessoas prestes a partir. Nas conversas que partilhou, emergem confissões, desejos e arrependimentos profundos — ecos do que fica por dizer e por fazer quando o tempo se esgota.
Ler este livro foi como despertar de um sono profundo, um convite a olhar para os meus 48 anos e a desejar ardentemente que, quando chegar o meu fim, o faça em paz — com a alma tranquila e o coração pleno, sem o peso de palavras não ditas ou sonhos adiados.
É um lembrete delicado e poderoso de que a vida nos oferece sempre uma escolha: viver em consonância com o nosso coração, ou deixar-nos levar pela indiferença e pelo automatismo do dia a dia.
Este livro fez-me parar no meio do caminho e perguntar-me, com toda a sinceridade: estou a viver verdadeiramente fiel a mim mesma?
A sugestão cultural sai à quinta-feira no Ponto SJ e é uma rubrica do Verão Ponto SJ. Todas as semanas um novo convidado apresenta uma dica para inspirar este tempo de férias.
Conheça a sugestão cultural 1, de Manuel Fúria.
Conheça a sugestão cultural 2, de Pedro Carvalhas.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.