A II Guerra Mundial através do Arquivo Português da Companhia de Jesus - Ponto SJ

A II Guerra Mundial através do Arquivo Português da Companhia de Jesus

Apesar de Portugal ser neutral, o conflito não nos passou ao lado. Este artigo elaborado pelo P. Francisco Correia, sj - arquivista da Província Portuguesa da Companhia de Jesus - mostra como a Companhia viveu este período conturbado.

Apesar de Portugal ser neutral, o conflito não nos passou ao lado. Este artigo elaborado pelo P. Francisco Correia, sj - arquivista da Província Portuguesa da Companhia de Jesus - mostra como a Companhia viveu este período conturbado.

O livro The Second World War through Jesuit Archives: The Case of Europe (1939–1945), uma obra que reúne, pela primeira vez, contributos dos arquivos jesuítas de toda a Europa e Mediterrâneo Oriental para compreender como a Companhia de Jesus viveu e testemunhou os anos da Segunda Guerra Mundial. A Província Portuguesa da Companhia de Jesus participou ativamente no projeto através do Arquivo Português da Companhia de Jesus (APSI), sob a direção do P. Francisco Correia, sj. Saiba mais aqui.

Portugal: Arquivo da Província Portuguesa da Companhia de Jesus 

1.     Introdução

Portugal (1939–45)

Quando Portugal declarou neutralidade no início da Segunda Guerra Mundial, pretendeu, em primeiro lugar, distanciar-se das potências do Eixo e evitar qualquer conflito com o Reino Unido que pudesse levar à perda das suas colónias africanas (Angola, Guiné e Moçambique).[1] Por outro lado, Portugal não queria alinhar-se com o Reino Unido, com o qual tinha uma aliança que remontava a 1386, receando o risco à sua soberania no continente, de modo particular porque a Espanha simpatizava tanto com a Alemanha como com a Itália. A 17 de março de 1939, Portugal assinou um tratado de amizade e não-agressão com Espanha, seguido por outro a 29 de julho de 1940, que defina a neutralidade da Península Ibérica no contesto da guerra em curso. Os Aliados reconheceram esta neutralidade.

Todavia, apesar de Portugal ser oficialmente um país neutral, cerca de 300 voluntários portugueses combateram ao lado da Alemanha na guerra contra a União Soviética, opondo-se ao comunismo. Estes portugueses alistaram-se na “Divisão Azul” (1941–43), um corpo de voluntários organizado em Espanha.[2] Temperaturas de cinquenta graus Celsius negativos, fracas rações e a falta de abrigos adequados contribuíram para o elevado número de baixas entre os expedicionários portugueses.

Em 1942, as forças japonesas invadiram Timor-Leste (uma colónia portuguesa), sendo este episódio o único combate envolvendo as forças portuguesas no conflito da Segunda Guerra Mundial. Tal não se traduziu num convencional estado de guerra entre Portugal e o Japão. Militares portugueses e voluntários civis lutaram ao lado de australianos e neerlandeses contra os invasores japoneses. Os japoneses reconheceram a neutralidade de Portugal e afirmaram respeitá-la, mas pretendiam garantir uma presença estratégica numa ilha que poderia ser utilizada como base contra os mesmos.

Portugal, estando fora da guerra, foi um aliado inativo. Foi difícil distanciar-se dos interesses que o Reino Unido e os Estados Unidos tinham em Cabo Verde, nos Açores e na Madeira, embora isso complicasse as operações nestes arquipélagos. A 18 de agosto de 1943, foi assinado um acordo secreto que permitiu aos britânicos estabelecerem-se nos Açores. Portugal estava ciente de que a Alemanha poderia retaliar nos Açores, pelo que enviou para lá uma unidade militar. Os Estados Unidos também pretendiam beneficiar das facilidades concedidas aos britânicos. Portugal tentou opor-se a isso, mas teve de ceder sob o compromisso de que os Estados Unidos ajudariam a recuperar Timor. Graças a estes esforços diplomáticos, Portugal manteve a paz e tornou-se um refúgio para refugiados e, inevitavelmente, a cidade de Lisboa e os seus arredores tornaram-se um espaço de intensa espionagem.[3]

As ações do Cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes (1885–1954), que no ano da invasão francesa (maio de 1940) concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal, ajudaram a salvar a vida de mais de 30 000 refugiados que tentavam escapar ao terror nazi. As estimativas registam entre 100 000 e um milhão de refugiados recebidos por Portugal, com uma população de seis milhões de habitantes. O país, à data, recebeu muitos húngaros e pessoas provenientes de muitos outros lugares da Europa. Deu generosamente, mas também recebeu benefícios. O magnata arménio do petróleo, Calouste Gulbenkian (1869–1955, em Portugal 1942–55), em gratidão pelo acolhimento que recebeu em Portugal, deixou uma fundação com o seu nome, sediada em Lisboa, que promove o desenvolvimento de indivíduos e organizações através da arte, da ciência, da educação e da caridade, não apenas em Portugal, mas em muitos outros países.

 

Jesuítas na Província Portuguesa (1939–45)

A Província Portuguesa da Companhia de Jesus tinha sofrido a sua terceira expulsão de Portugal em 1910, durante a Primeira República Portuguesa (1910–26). O regresso dos jesuítas do exílio começou em 1923, com a presença de uma igreja jesuíta na Póvoa de Varzim, seguido de comunidades por Lisboa em 1925 e Porto em 1927. Em 1933, a constituição portuguesa aboliu quaisquer leis discriminatórias com base religiosa; contudo, somente a 12 de maio de 1941, em plena guerra e em conformidade com a Concordata do ano anterior, é que a Companhia de Jesus foi reconhecida como Corporação Missionária, normalizando, deste modo, o seu estatuto legal no país e respetivas colónias ultramarinas. A partir de 1923, os jesuítas tiveram de recomeçar tudo de novo: a formação de casas, colégios e outras obras. Os tempos eram difíceis e as carências a todos os níveis (em pessoal, fundos económicos, etc.) eram evidentes. Apesar disso, foram reabertas missões em Macau (1930), Goa e Moçambique (1941). Durante o período da Segunda Guerra Mundial, a província era composta por cerca de 353 jesuítas (incluindo padres, escolásticos e irmãos leigos). O número de escolásticos era perto de 114. Proporcionar boa formação a tantos religiosos, porém, era difícil. As casas de formação asseguravam o ensino até ao início da teologia, que normalmente tinha lugar em Espanha.

 

2.     Fontes

O Arquivo Português da Companhia de Jesus (APSI) não possui um corpo documental abundante no que se referente às atividades por parte dos jesuítas portugueses na Segunda Guerra Mundial, porém, é possível documentar alguma coisa no que diz respeito às suas ações como capelães militares, à disponibilização de residências para refugiados, ou a criação de movimentos de solidariedade ou centros de distribuição para assistência ocasional de deslocados de guerra.

O material relativo à Segunda Guerra Mundial, encontrado no APSI, com base em informações fornecidas aos jesuítas pelos Ecos da Província de Portugal trata-se, essencialmente, de relatórios dos Provinciais portugueses, Paulo Durão SJ (1893–1977, em funções 1933–40) e Júlio Marinho SJ (1891–1976, em funções 1940–47). O arquivo possui, ainda, documentos que detalham o impacto que a guerra teve na revista Brotéria; assim, bem como, custodia a correspondência de missionários em Timor e em Macau.

 

Ecos da Província de Portugal, 1926–70

A publicação mensal, Ecos da Província de Portugal, para além de publicar algumas cartas circulares do Provincial, refletia o progresso da província nos seus apostolados. Durante a guerra, incluía uma secção intitulada Das Províncias da Companhia afetadas pela guerra, mantendo os jesuítas portugueses informados sobre o que estava a acontecer aos seus confrades nos lugares de conflito. Relatavam os ataques sofridos pelas populações, fornecendo informações detalhadas sobre os danos nos edifícios e acerca do destino das pessoas afetadas. Descreviam-se as necessárias adaptações às rotinas religiosas, especialmente nas casas de formação. Noticiavam ações de caridade, como a distribuição de alimentos por estudantes dos colégios ou por estudantes jesuítas nas casas de formação; a presença de capelães militares na frente de batalha e as suas ações espirituais e humanitárias, bem como a mobilização de estudantes jesuítas, especialmente para serviços de saúde.

 

Ação e sensibilidade do Provincial Júlio Marinho SJ

Através dos artigos dos Ecos, torna-se evidente que a Província Portuguesa não foi indiferente aos horrores vividos pelos jesuítas nos países envolvidos na Segunda Guerra Mundial. Portugal não estava diretamente envolvido, mas sofreu as consequências da guerra: racionamento de alimentos e incertezas quanto ao futuro. Esta situação levou o P. Júlio Marinho a escrever uma carta circular à província em 17 de abril de 1941, recomendando algumas restrições alimentares e defendendo a austeridade económica. A carta exortava a evitar despesas e a suspender trabalhos menos urgentes. Sugeriu pormenores concretos onde tais restrições poderiam ser aplicadas, tanto em termos de lazer como na supressão de formas tradicionais de celebração à mesa. Apelava à oração pelos jesuítas que experimentavam diretamente os horrores da guerra. Nesta mesma carta o P. Marinho informou a província de que, com a aprovação de todos os consultores, tinha feito um voto de ir com a província a Fátima e ali “renovar o nosso Ato de Consagração ao Imaculado Coração de Maria se o Senhor nos preservar da guerra”. [4] Para cumprir este voto, escreveu outra circular à província, em 16 de julho de 1946, convidando todos os jesuítas a estarem em Fátima nos dias 30–31 de julho desse ano, apresentando o programa para cada um dos dois dias, o texto do Ato de Consagração ao Imaculado Coração de Maria, e instando à oração pelas vocações e pelos meios de as acolher adequadamente.[5]

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Carta Circular do Provincial P. Júlio Marinho, sj, de 17 de abril de 1941, anunciando restrições em consequência da guerra e o voto, para toda a Província, de realizar uma peregrinação a Fátima no caso de Portugal permanecer fora da guerra.

 

Artigos da Brotéria, 1902–

A revista Brotéria não relatou criticamente o desenrolar dos acontecimentos da guerra, mas alguns autores aproveitaram a oportunidade para escrever sobre temas relacionados com a mesma. Em 1939, foi publicado um artigo do P. João Mendes SJ (1910–72) intitulado A guerra e o Homem, que refletia sobre as grandes catástrofes do mundo. Analisando o tema a partir de uma perspetiva humanista e afirmando que a causa devia ser procurada na própria humanidade, observando simultaneamente que os países totalitários eram mais propensos à guerra enquanto o “pacifismo das democracias” é mais prudente.[6]

O mesmo autor publicou no ano seguinte outro artigo intitulado A guerra e o Homem de agora, no qual afirmava que as disputas entre os povos muitas vezes projetam, de forma ampliada, os conflitos dos indivíduos. As disputas relativas à justiça e a uma melhor distribuição da riqueza manifestam-se, no seu hoje, como luta de classes na guerra presente. Se os Aliados vencerem, escreveu ele, os capitalistas poderão reconhecer a justiça de certas reivindicações das massas.[7] Em 1940, o P. João Mendes, com o título Quem vence a guerra?, teceu algumas reflexões cristãs sobre a história humana, afirmando que uma Europa supostamente cristã, que se vangloria de uma “civilização cristã”, está “gasta e falsificada”, desafiando o leitor a criar uma “nova ordem” baseada numa vivência cristã transparente.[8]

Em 1941, o P. Domingos Maurício SJ (1896–1978) publicou um artigo significativo: A posição de Portugal frente à guerra. O seu artigo, de tom patriótico, defendia a maturidade de Portugal na sua organização social e expansão cultural, elogiando a personalidade moral do país, sem comprometer a sua neutralidade legal e efetiva. Reconhecendo a assistência de Portugal no acolhimento e ajuda aos refugiados provenientes da Europa devastada pela guerra. Para o P. Maurício, Portugal, jogava um importante papel no domínio sobre os arquipélagos dos Açores, Madeira e Cabo Verde como bases estratégicas no Atlântico, nas rotas entre as Américas, África e Europa.[9]

 

Timor-Leste

Desde a noite de 18 de fevereiro de 1942 até ao dia seguinte, os japoneses iniciaram a ocupação da cidade de Díli, capital de Timor, com um exército de cerca de 15 000 homens. A parte ocidental, sob administração neerlandesa, também foi atacada. Portugal considerou esta ocupação uma violação da neutralidade e protestou. Os japoneses procuraram esclarecer que não se tratava de uma agressão contra Portugal, mas de uma ação militar contra os australianos que tinham ocupado Díli em 17 de dezembro de 1941. Existia um acordo que permitia a intervenção de Portugal, com os Aliados comprometendo-se a enviar tropas para Timor caso os japoneses invadissem o território. Os australianos retiraram-se para as montanhas e organizaram-se como guerrilheiros para resistir aos japoneses. O resultado foi a ocupação de toda a ilha pelos japoneses e a dura e implacável opressão do povo timorense. Os Aliados abrandaram a reconquista de Timor porque a evolução da guerra no Pacífico levava a outras priorizações estratégias. Deste modo, os australianos retiraram-se entre o final de 1942 e janeiro de 1943, e alguns civis portugueses fizeram o mesmo. Timor permaneceu inteiramente nas mãos dos japoneses. A rendição do Japão em setembro de 1945, após os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, levou os japoneses em Timor a entregar as suas armas ao Governador português de Díli, Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho (1893–1968). No final de setembro, um contingente português chegou à cidade de Díli, tomando posse do território e desenvolvendo um projeto de reconstrução para Timor.

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Igreja em Same, cidade no interior de Timor-Leste, destruída pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.

A Companhia de Jesus ainda não tinha regressado a Timor após a sua expulsão de Portugal e dos territórios ultramarinos em 1910. A Província Portuguesa só voltou a ter jesuítas em Timor em 1960. Por esta razão, o APSI não possui informação sobre a guerra em Timor. Contudo, após a guerra, dois jesuítas, Ernesto Domingues SJ (1910–1987) e João Abranches SJ (1912–2000), serviram como capelães militares em Timor e a correspondência que mantiveram com o Provincial foi publicada nos Ecos da Província de Portugal.

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– P. João Abranches SJ (1912–2000), Capelão Militar em Timor-Leste, 1945–1948.
P.%20Ernesto%20Domingues%20SJ%20(1910%E2%80%931987)%2C%20Capel%C3%A3o%20Militar%20em%20Timor-Leste%2C%201945%E2%80%931948.
P. Ernesto Domingues SJ (1910–1987), Capelão Militar em Timor-Leste, 1945–1948.

A Força Expedicionária, enviada para ajudar Timor a recuperar da destruição material e humana causada pelos japoneses, partiu de Lisboa no navio Lourenço Marques a 4 de setembro de 1945. Passando por Lourenço Marques (atualmente conhecida como Maputo), capital de Moçambique, permaneceram ali cerca de dois meses. O atraso em Lourenço Marques visava incorporar soldados moçambicanos na Força Expedicionária. Durante esse tempo, os padres Abranches e Domingues, para além do trabalho regular com os soldados, dedicaram-se a dar conferências, pregar e orientar Exercícios Espirituais a grupos especializados na cidade. Em dezembro, embarcaram no navio Quanza com destino a Timor, onde se dedicaram a assistir uma população triste e desanimada, necessitada de encorajamento e esperança. Os soldados trabalharam em projetos de reabilitação material. As ações dos capelães jesuítas no contacto com a população e os seus esforços no desenvolvimento humano dos timorenses foram notáveis. O P. Abranches foi nomeado pelo Governador como Diretor da Obra da Assistência e organizou a educação e as escolas em toda a ilha. Lecionou no Liceu e foi nomeado seu Reitor. O P. Domingues deixou Timor em 1946 e Abranches em 1948.[10] Em junho de 1949, o P. Abranches foi nomeado Capelão-Chefe dos serviços religiosos das Forças Expedicionárias que embarcaram para Macau.

 

Macau

Relativamente a Macau, o Japão respeitou a neutralidade de Portugal e não ocupou o território, estabeleceu, no entanto, uma embaixada na cidade, que provavelmente funcionou como centro de espionagem.[11] A população de Macau quintuplicou durante a guerra, o que levou a dificuldades, entre as quais, ao racionamento de abastecimentos. Dois anos antes da guerra, o Japão já tinha invadido a China (Manchúria e províncias orientais) na Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937–45). Com a queda de Cantão, Hong Kong (colónia britânica) recebeu cerca de 750 000 refugiados chineses, sobretudo da costa ocidental, entre 1937 e 1939, aumentando a sua população para cerca de um milhão e meio de habitantes. Com a invasão japonesa de Hong Kong em dezembro de 1941, Macau tornou-se refúgio para uma multidão que fugia da cidade. Na prática, Macau era o único lugar, entre milhares de quilómetros, em estado de paz e com perspetivas de não vir a ser invadido. Tornou-se, assim, um espaço cosmopolita onde ingleses, chineses, invasores japoneses e portugueses coexistiam.

A Província Portuguesa, após a restauração da Companhia de Jesus em 1814, retomou a missão em Macau em 1890, mas teve de abandoná-la devido à expulsão de 1910. Os jesuítas foram para a Índia e, pouco depois, o Bispo de Macau convidou-os a trabalhar em Zhaoqing, na China continental, anexada à diocese de Macau em 1903.[12] Chegaram ali em 1913. A missão prosperou com a colaboração de jesuítas chineses e de sacerdotes seculares. Abriram um grande colégio, uma escola profissional e serviram muitas das comunidades cristãs. Quando a Província Portuguesa reabriu a missão em Macau em 1930, a província de Shiu-Hing fazia parte da missão de Macau.

 

Exemplos de arquivo

O Arquivo Português da Companhia de Jesus (APSI) contêm uma extensa correspondência (entre Cartas Ânuas e diários) entre os Superiores das várias missões e outros jesuítas, e com o Provincial em Lisboa, bem como entre D. João de Deus Ramalho SJ (1890–1958) (Bispo de Macau, 1942–54) e os Vigários de Hong Kong.

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Bispo João de Deus Ramalho, SJ (1890–1958), Superior da Missão de Shiu‑Hing, em 1940, e bispo de Macau, de 1942 a 1954.

A primeira referência à Segunda Guerra Mundial surge no diário da Residência de Vila Flor, em Macau, a 4 de setembro de 1939, com estas palavras: “Soube-se hoje pela rádio que a guerra rebentou ontem. A Alemanha não respondeu ao ultimato da Inglaterra e da França, portanto…”.[13]

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Diário da “Residência de Vila Flor” – Macau, 1938–1941. A entrada de 4 de setembro de 1939 regista a notícia da declaração de guerra entre Inglaterra e França e a Alemanha.

 

Algumas cartas de 1941, escritas ou recebidas pelo bispo D. João Ramalho, Superior da missão, mencionam ataques japoneses a Shiu-Hing e a destruição parcial das infraestruturas da missão, mas sem danos pessoais. Apesar de reconhecer uma certa “boa compreensão” entre Portugal e o Japão, considerou estranhos estes ataques a um local exclusivamente dedicado ao serviço humanitário, sobretudo em contraste com o respeito demonstrado pelas tropas chinesas.[14] Como Superior, D. João Ramalho ofereceu a residência dos jesuítas em Macau a um sacerdote dominicano que servia como procurador em Hong Kong, assegurando-lhe que o Superior local proporcionaria todas as facilidades para continuar o seu trabalho. Fez a mesma oferta ao P. Léon Vircondelet (1890–1973), Procurador-Geral das Missões Estrangeiras de Paris em Hong Kong, devido ao perigo potencial em que este se encontrava como cidadão francês, tendo Vircondelet descrito por sua vez a terrível situação em França. Embora Ramalho elogiasse o Marechal Pétain na sua correspondência, mencionava o seu desgosto por estar rodeado por um grupo pró-alemão, esperando uma mudança; criticando também a Itália, afirmando que Mussolini era um imitador de Hitler.[15]

O Vigário Capitular da Diocese de Macau escreveu uma circular aos missionários na China, referindo-se ao “verdadeiro cataclismo inesperado” da Guerra do Pacífico, que lançou na pobreza corporações religiosas e comerciais, bem como famílias que possuíam alguns bens. Assinalando que a Diocese tinha perdido rendimentos com os bombardeamentos em Singapura e que a Sé catedral perdera tudo o que possuía em Hong Kong.[16] Observava que era imperativo reconstruir a economia e continuar a atividade pastoral; contudo, as perspetivas não eram encorajadoras, os ministérios quase que tinham parado, o Colégio Shiu-Hing tinha encerrado e os bens essenciais eram escassos e racionados.

O P. Anacleto Dias SJ (1879–1972), Vice-Superior da residência de Vila Flor e professor de teologia no seminário diocesano, escreveu ao Provincial que a “guerra do pacífico” trouxera enormes sofrimentos à população e tornava o governo extremamente delicado devido às ameaças e ao grande número de refugiados que chegavam constantemente por causa da invasão japonesa de Hong Kong[17]. Já o P. Vicente Leung SJ (1885–1955), da mesma residência, que ensinava chinês aos missionários e servia como diretor espiritual dos estudantes chineses no seminário, referia que, apesar das dificuldades, havia alimento suficiente — associações de socorro distribuíam comida todos os dias e ajudavam muitas pessoas que desejavam regressar à sua terra natal — elogiando o Governador, Gabriel Maurício Teixeira (1897–1973), como um bom católico.[18]

O diário da Missão de Shiu-Hing de 1943 relatou algumas notícias mais específicas sobre a guerra, por exemplo:

  • 11 de junho: houve bombardeamentos prolongados, mas com bombas de pequena dimensão e algumas destas não explodiram.
  • 2 de julho: foi criada uma comissão para assistir os necessitados devido à guerra.
  • 24 de agosto: notícia de que quatro soldados portugueses que fugiram de Macau chegaram a Shiu-Hing, com a intenção de se oferecerem ao exército aliado.
  • 17 de outubro: foram lançadas bombas incendiárias; notícia de que outros sete soldados portugueses ofereceram os seus serviços ao exército americano em Chungking. Foram ajudados pelo jesuíta belga P. Gastão Revelard SJ (1903–76), que os acompanhou à polícia e ao mandarinato.[19] Numa carta do P. Anacleto Dias ao Provincial, relatava: cinco jesuítas irlandeses que, a pedido do Governador, abriram um colégio (S. Luís Gonzaga) para crianças pequenas de refugiados de Hong Kong.[20]

A correspondência entre o Administrador Apostólico do Vicariato de Hong Kong, Mons. Henry Valtorta (1883–1953), e o Bispo João de Deus Ramalho expressava as dificuldades provocadas pela invasão japonesa e a assistência oferecida pela diocese de Macau, apesar dos seus recursos limitados.

Numa carta datada de 27 de outubro de 1944, Valtorta informou Ramalho de que o Delegado Apostólico de Pequim lhe pedira para transmitir a sua gratidão pela generosa hospitalidade proporcionada aos seus seminaristas. O delegado reiterou os seus sentimentos de agradecimento e apreço com o envio de uma calorosa saudação.[21]

Num telegrama enviado ao Bispo de Nova Iorque, Ramalho informou que aviões americanos realizaram dois bombardeamentos em Macau a 16 de janeiro e a 25 de fevereiro de 1945. Expressava que o ataque a uma cidade neutra que acolhia refugiados de muitas nacionalidades era injustificável e solicitou a intervenção do bispo junto das autoridades para evitar a repetição de tais atos.[22]

Depois da paz ter sido celebrada em Macau na noite de 3 de setembro de 1945, o Ministro do Seminário relatou no seu diário que teve lugar uma grande peregrinação a 8 de setembro, na qual o Governador se juntou à manifestação de ação de graças ao lado do bispo diocesano.[23]

 

Autoria: P. Francisco Correia, sj

Tradução: Gonçalo Pedrosa, sj

 


[1] Ver: da Costa Leite, Joaquim. “Neutrality by Agreement: Portugal and the British Alliance in World War II”. American University International Law Review, 14 (1) (1998): 185–99.
[2] Ver: Moreno Juliá, Xavier. La División Azul: Sangre española en Rusia, 1941–1945. Barcelona: Crític, 2005.
[3] Ver: Lochery, Neill. Lisbon: War in the Shadows of the City of Light, 1939–1945. Nova Iorque: PublicAffairs, 2011; e Rabaçal, Pedro. Portugueses na Segunda Guerra Mundial. Barcarena: Marcador, 2023.
[4] Arquivo Português da Companhia de Jesus (APSI) 134/13, Arquivo da Província Portuguesa, vol. I, 1939–42, 335–6.
[5] APSI 134/13, Arquivo…, vol. II, 1943–1962, 235–41.
[6] Mendes SJ, João. “A guerra e o Homem”. Brotéria 29 (1939): 245–50.
[7] Mendes. “A guerra e o Homem de agora”. Brotéria 30 (1940): 267–72.
[8] Mendes. “Quem vence a guerra?”. Brotéria 31 (1940): 79–89.
[9] Maurício SJ, Domingos. “A posição de Portugal frente à guerra”. Brotéria 33 (1941): 157–67.
[10] APSI, Ecos da Província de Portugal, 5 (1945): 91–2; 2 (1946): 34–8; 1 (1947): 21–2.
[11] Para uma análise desta questão, ver Ptak, Roderich. “Review of Wartime Macau: Under the Japanese Shadow”. Journal of Asian History, 51 (2) (2017): 328–33.
[12] Também aparece romanizado como Shiu-Hing, na província de Guangdong, a norte de Cantão. A cidade de Shiu-Hing foi o ponto de partida, em 1583, para a missão de evangelização na China pelos jesuítas Matteo Ricci (1552–1610) e Michele Ruggeri (1543–1607). O vice-rei concedeu-lhes um terreno fora da cidade, onde construíram a primeira residência jesuíta na China. Os Catalogus portugueses referem-se sempre a esta parte da missão de Macau no território continental chinês como Shiu-Hing.
[13] APSI 356/19, Diário da residência de Vila Flor (Diary of Vila Flor Residence), 1938–41.
[14] APSI 356/07, Historia Domus Shiuhingensis (História da Casa de Shiuhing), 1942–44.
[15] APSI 354/03, cartas de 3 de março, 11 de março, 20 de maio, 25 e 10 de junho de 1941.
[16] APSI 354/04, carta de 24 de abril de 1942.
[17] APSI 352/13, carta de 1 de abril de 1942.
[18] APSI 354/04, carta de 25 de abril de 1942.
[19] APSI 356/12, Diário de Shiu-Hing – Casa e Missão.
[20] APSI 352/13, carta de 21 de abril de 1944.
[21] APSI 357/19, correspondência entre setembro de 1944 e 1945.
[22] APSI 357/10, correspondência enviada e recebida por Ramalho.
[23] APSI 356/18, Diário do P. Ministro de Macau – Seminário.

 


 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.