O P. Miguel Gonçalves Ferreira, sj compilou em “Tirar a Bíblia da estante” muitos dos textos que foi escrevendo nos últimos anos, em especial na revista Mensageiro do Coração de Jesus. O livro que agora vem a público será apresentado no dia 29 de maio, às 19h, na Feira do Livro, em Lisboa. A apresentação estará a cabo de Laurinda Alves e P. Miguel Vasconcelos.
O Ponto SJ publica agora um excerto da obra: a apresentação.
Não consigo recordar-me quando é que ouvi pela primeira vez a história de Jesus. A minha mãe conservou uns desenhos que fiz, talvez com cinco anos, e nesses «rabiscos» infantis, Jesus está numa barca com os discípulos, atravessando o lago no meio da tempestade… Ao longo da infância e juventude, o Evangelho ouvido na Missa foi-me acompanhando, sem que eu desse por ele, mas certamente fazendo o seu efeito. Lembro-me de – em criança e entre irmãos – nos perguntarmos, ao regressar da igreja, quais tinham sido as leituras da Missa, ou o que tinha dito o senhor Padre… e só a custo nos recordávamos!
Houve, porém, um dia em que o Evangelho passou a falar-me ao coração e à vida, de forma existencial. Foi em novembro de 1989, nos primeiros Exercícios Espirituais que fiz, orientados pelo P. António Vaz Pinto, sj. A Palavra interpretada espiritualmente e rezada pessoalmente foi uma descoberta surpreendente e refrescante. A Bíblia passou a ser Palavra viva que falava à minha vida, ao ponto de ter feito amadurecer, e ajudado a discernir, o chamamento ao sacerdócio na Companhia de Jesus. Um marco importante nesse caminho, enquanto universitário em Lisboa foi a leitura, sugerida pelo P. João Seabra, de «Bíblia e Vocação», da autoria do Cardeal Carlo Maria Martini, sj, notável biblista, de quem, anos mais tarde, recebi a ordenação diaconal. A Palavra inspirada é capaz de inspirar diferentes formas de vida e vocação. Na Companhia de Jesus encontrei um cuidado com as homilias que me testemunhou a importância dada por Santo Inácio de Loiola ao ministério da Palavra de Deus. As primeiras cadeiras de Bíblia, enquanto estudante de Teologia, abriram-me a uma nova forma de ler o texto, que permitiu saborear, com conhecimento de causa, o espírito da letra. Prosseguir estudos em Novo Testamento deu-me a possibilidade de aprofundar a interpretação do texto bíblico com a ajuda de grandes professores, aos quais estou muito grato (nota 1).
Em 2011, tive a oportunidade de passar a semana da Páscoa na Comunidade ecuménica de Taizé, onde fiquei fascinado com a forma simples e profunda como os Irmãos orientavam as reflexões bíblicas. A palavra de Deus é mesmo uma boa notícia que está perto do seu povo! Ao longo deste percurso fui aprendendo que a Bíblia é fruto de uma comunidade, recebida numa comunidade, lida e aprofundada com a ajuda de uma comunidade. Aprender a ler, rezar e estudar a Bíblia foi, sem dúvida, uma das maiores ajudas que tive para a minha vida de fé em Igreja. Nem seria possível de outra forma, pois a fé tem a sua origem na escuta da Palavra de Cristo (nota 2). E é pela fé que Cristo habita o nosso coração e a nossa vida (nota 3). Nesta familiaridade com o Senhor Jesus está escondida a promessa da Vida já a ressuscitar: o amor justo que cura as nossas feridas, a alegria verdadeira e a paz «desarmada e desarmante» (nota 4). Aquilo pelo qual o nosso mundo – pessoal, familiar, eclesial, social, global… – na verdade mais anseia.
Foi o desejo de partilhar a riqueza do texto bíblico que me levou a apresentar, em 2008, no Centro Universitário P. António Vieira (CUPAV), um serão intitulado «Bíblia: como tirá-la da estante?». Passados uns tempos, a adaptação deste título deu nome a uma secção da revista Mensageiro do Coração de Jesus, onde durante cinco anos procurei oferecer uma introdução simples à leitura e interpretação dos Evangelhos, sem esquecer o contexto do Antigo Testamento. Mensalmente foram publicadas sínteses que procuravam fazer emergir uma imagem de Jesus a partir do texto evangélico. Fundamentei-me em comentários clássicos, mas sem preocupações académicas no que diz respeito à citação dos mesmos. No entanto, não restem dúvidas que tudo o que está escrito nessas páginas me foi ensinado ou «emprestado»! Estes são os textos que agora aparecem reunidos em livro, aos quais se acrescentou um itinerário de passagens do Evangelho para ajudar, pessoalmente ou em comunidade, a acolher de modo orante a vida de Jesus. Os pontos de contemplação que as acompanham são propositadamente incompletos e breves. Pois, como diz Santo Inácio, «é de mais gosto e fruto espiritual para a pessoa que contempla, se toma o fundo verdadeiro da história, discorre e raciocina, por si mesma, e acha alguma coisa que faça compreender ou sentir a história um pouco mais, seja pelo próprio raciocínio, seja porque o entendimento é iluminado pela divina virtude (…). Porque não é o muito saber que farta e satisfaz a alma, mas o sentir e gostar as coisas internamente» (nota 5). Deste modo poderá cada leitor ir crescendo na graça do «conhecimento interno do Senhor que, por mim, se fez homem, para que mais o ame e o siga» (nota 6).
Atualmente, há, graças a Deus, muitos tipos de «estante» para guardar o texto da Bíblia: podcasts, séries, páginas da net, canções… mas abrir com as próprias mãos o «livro dos livros», para ler as suas palavras de Vida, continua a ser uma experiência insubstituível. A leitura é uma arte tão humana que até admite pausas respeitadoras do nosso ritmo pessoal! Contudo, quando fechamos o Evangelho e o voltamos a pôr na estante, alguma semente ficou no nosso coração. A seu tempo dará flor e fruto.
Miguel Gonçalves Ferreira, sj
Évora, 25 de janeiro de 2026,
Festa da Conversão de São Paulo
e Domingo da Palavra de Deus
Notas:
1. Das diferentes etapas de estudos, recordo especialmente as sá bias intuições de Roland Meynet, sj, Bruna Costacurta, Ugo Vanni, sj, Daniel Harrington, sj, Thomas Stegman, sj e François Bovon.
2. Epístola de São Paulo aos Romanos 10, 17.
3. Epístola de São Paulo aos Efésios 3, 17.
4. Feliz expressão do Papa Leão XIV na sua primeira saudação.
5. Santo Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, 2. «Gostar» é, aqui, sinónimo de «saborear».
6. Santo Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, 104.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.