Um bom reencontro - Ponto SJ

Um bom reencontro

Quando não estava a dar Exercícios, nem a celebrar, nem a escrever documentos, nem com os jovens, dava por mim a confessar ou simplesmente a escutar. Um ministério muito nosso, da Companhia, que tantas vezes me deixava sem palavras.

Quando não estava a dar Exercícios, nem a celebrar, nem a escrever documentos, nem com os jovens, dava por mim a confessar ou simplesmente a escutar. Um ministério muito nosso, da Companhia, que tantas vezes me deixava sem palavras.

A meio do mês, recebi uma visita inesperada. Joana Gomes, amiga portuguesa que não via há quinze anos, agora residente em Kampala, veio passar um fim de semana. Não estava nada planeado. Mas foi um descanso bom. Reatámos a amizade com naturalidade. Apresentamo-nos amigos — o Marco e a sua família, a minha comunidade, a Lucía — e caminhámos muito, conversámos mais ainda.

 

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O reencontro do Missé e da Joana

No fim desse tempo bom, a Joana perguntou-me se poderia dar-lhe os Exercícios Espirituais online. Foi para um AirBnB no Uganda, junto ao rio Nilo, e falávamos duas vezes por dia, enquanto a vida em Kangemi continuava ativa. Foi uma graça enorme.

Formação e uma curiosa janela para o mundo

De tantas conversas nasceu uma necessidade: oferecer formação aos catequistas da paróquia e aos membros dos grupos litúrgicos sobre os sacramentos. Foi uma graça grande. Mais do que despejar conteúdos, o que aconteceu foi escutar perguntas. Recolher inquietações reais. Um tempo fecundo, uma bela memória que me levou a conhecer mais a fundo as preocupações reais daquela comunidade, aprofundar e rever as minhas intuições sobre a Igreja no oriente afircano.

Nesse mesmo dia, tive uma peripécia muito engraçada. As irmãs do Loreto convidaram-me — a mim e à Lucía — para almoçar em sua casa. Como não tinham lugares suficientes à mesa, aos domingos comiam em frente à televisão, sentadas em semicírculo, conversando entre si. O canal sintonizado? Vatican Live. Uma câmara fixa que transmite, sem interrupção, a Praça de São Pedro. Ri-me muito. Prometi-lhes que, quando chegasse a Roma, lhes mandaria mensagem: “Hey, estou aqui aos saltos para vos mandar um abraço!”

“Todos em comunhão”

Ao longo desse tempo, fui colaborando de perto com o P. Mauki. A nossa sintonia deu frutos concretos. Redigimos, por exemplo, um documento sobre o modo de escolher lideranças para os grupos paroquiais. Foi aprovado pelo conselho pastoral. Escrevemos também uma proposta de renovação da Missa das Crianças, celebrada na escola primária das irmãs do Loreto. Foram trabalhos mais burocráticos, é certo, atravessando sobretudo a segunda e terceira semanas na paróquia. Mas souberam bem: recompilação das melhores práticas, discernimento comum, respeito e colaboração com as irmãs e os seus modos de fazer.

Permito-me aqui um breve parêntesis para partilhar algo que me marcou de forma muito particular: a missa com as crianças, todas as sextas-feiras às 7h00. Por si só, aquela celebração era uma festa — os cantos, os sorrisos, a energia contagiante dos miúdos enchiam o pavilhão-igreja. Com o tempo, fui-me apercebendo de que muitos dos alunos e professores não comungavam pois havia bastantes protestantes entre eles.

Num desses dias, durante a missa, surgiu-me uma ideia simples: e se convidasse todos aqueles que não podiam comungar a aproximarem-se na mesma, cruzando os braços sobre o peito, para receber uma bênção? Disse-o com naturalidade. Logo de seguida, uma irmã — talvez temendo que alguém se enganasse e comungasse inadvertidamente — veio a correr, um pouco aflita, para intervir. Veio-me a tentação de lhe pedir, com humor, que se sentasse e confiasse, mas limitei-me a agradecer e a deixá-la ficar ao meu lado — parecia um guarda suíço em serviço litúrgico.

Mas a reação foi inesperada e comovente. Os alunos, os professores, todos começaram a vir. Um a um, em fila longa e dançante. Vieram tantos que a missa acabou por durar mais meia hora do que o habitual. Doía-me o braço de abençoar tanta gente. E, no final, os cânticos foram gritados com uma alegria tal que me encheu o coração.

Quando terminou a missa, o diretor pedagógico tomou a palavra e, dirigindo-se aos alunos, disse: “Hoje estamos todos em comunhão nesta escola.” Não pude conter a comoção. Talvez seja esta a memória mais grata que levo de todo o mês.

Quando não estava a dar Exercícios, nem a celebrar, nem a escrever documentos, nem com os jovens, dava por mim a confessar ou simplesmente a escutar. Um ministério muito nosso, da Companhia, que tantas vezes me deixava sem palavras.

A arte de escutar e de calar

Quando não estava a dar Exercícios, nem a celebrar, nem a escrever documentos, nem com os jovens, dava por mim a confessar ou simplesmente a escutar. Um ministério muito nosso, da Companhia, que tantas vezes me deixava sem palavras. Recordava um amigo jesuíta, médico, o Charlie Gomez Virseda. Enviado para o Chade, dizia: “Fui preparado para tratar diabéticos e cancerígenos; e aqui aparecem-me doenças sobre as quais nunca ouvi falar.” Sentia-me como ele. As confissões, às vezes, exigiam mais do que podia dar.

E o problema não eram as pessoas. Era a minha avidez de querer dar uma resposta. Como se fosse pecado o padre não saber. E nem sempre dá para responder com um “vou pensar e digo-lhe depois.” Lembrei-me muitas vezes da enorme Teresinha do Menino Jesus, ao dizer: “C’est la confiance.” Confiar e partilhar, com humildade, o que me parecia melhor. Perguntar à própria pessoa: “O que pensas daquilo que acabei de dizer?” Era um exercício de despojamento diário, mas que trazia uma paz funda, estável, firme.

Este mesmo exercício de despojamento diário voltava a encontrar-me todas as quintas-feiras de manhã, quando integrava a equipa que levava a comunhão aos doentes. Entre as 07h30 e as 10h30, calcorreávamos as ruas lamacentas de Kangemi, de casa em casa. Foi nesse itinerário que descobri, sem ter dado conta até então, um conceito novo para mim: a classe baixa-baixa e a classe baixa-alta. A distinção que fui fazendo surgia da atenção ao chão das casas — terra batida, lona plástica ou, nos casos mais afortunados, azulejos distribuídos por um espaço mais amplo.

Por vezes, tinha de me vencer. Vencer o desconforto dos cheiros, os meus pudores, os limites do meu corpo e da minha mente. Havia que entrar, ver, acolher, sem recuar. Havia que abraçar cada realidade como ela era — com a graça de Deus, e alguma ginástica interior. E, por mais que me esforçasse, sentia que a abertura interior só se cumpria quando acontecia um pequeno milagre. Algo que não se planeia nem se força, mas que, quando acontece, transforma.

Esse milagre surgia, por exemplo, quando a pessoa doente, com voz trémula, fazia uma oração em swahili, agradecendo entre lágrimas por Jesus a ter visitado na sua pobre casa. Ou então no cuidado com que acendiam uma vela minúscula e gasta, guardada numa gaveta meia presa que tilintava com as poucas coisas preciosas da casa. Com a chama trémula, a presença de Cristo era acolhida, na casa e no coração.

E isso bastava-me. Saía sempre tocado. Recolhido. Sem palavras.

Pergunto-me muitas vezes se sou verdadeiramente consciente do dom que é ter uma capela em casa. E se percebo mesmo o dom da Eucaristia quando comungo à pressa, e não com a comoção de quem está a ser visitado ou a receber o ar, algo de intrinsecamente vital que, recebido, transparecia naquelas pessoas. Como dizia o P. Fábio Rosini sobre o modo como a Chiara Petrillo viveu o final da sua vida: “estava doente mas cheia de saúde”. Algo semelhante se podia dizer daqueles homens e mulheres.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.