Cheguei ao bairro de Kangemi no dia 3 de maio de 2025, véspera da celebração dos quarenta anos da paróquia de São José Operário. A paróquia fora fundada a 1 de maio de 1985, precisamente no dia litúrgico de São José Operário, seu patrono. Como o aniversário calhava numa quinta feira, a grande celebração foi transposta para o domingo seguinte, dia 4, e teve um sabor único: foi presidida por um dos fundadores, D. Rodrigo Mejía SJ.
Entrar num novo lugar é sempre um gesto sensível. Entrar assim, no meio da festa e da memória, foi especial. Durante a celebração, surgiu em mim um convite claro e inesperado: recordar a primeira exortação do Papa Francisco, A Alegria do Evangelho. Não era apenas uma referência piedosa, já que havia imensos sinais na paróquia que recordavam a visita do Papa Francisco àquela igreja em 2015. Na sua exortação, Francisco afirma que a verdadeira alegria do Evangelho brota do encontro com Jesus ressuscitado que nos consola. E ali, em Kangemi, logo no primeiro dia, esse encontro já me surpreendia com força.
Não estava preparado para aquilo que experimentei. A alegria da celebração — vibrante em cada canto, em cada rosto, em cada gesto — tomou-me de surpresa. Dei por mim, ainda na primeira parte da missa, a pedir perdão, espontaneamente, por todos os momentos em que me fechei na tristeza. Tristezas pequenas, sim — como aquelas que crescem quando não gostei do que alguém me disse, ou quando dou por mim a julgar quem não vai à bola comigo. Mas são estas pequenas tristezas que, acumuladas, tornam o coração presa fácil das areias movediças do queixume, da suspeita, do olhar pesado.
Ali, naquele domingo de festa, dei-me conta de como a tibieza brota como uma planta carnívora: vai roendo, devagar, a alegria e o entusiasmo. E, no entanto, aquele dia surpreendeu-me pela alegria. No meio do aplauso, do canto e do incenso, fui reconduzido à simplicidade do encontro comunitário, ao cumprimento de onda do Ressuscitado. Ele é a Vida — não o meu lamuriar. A Sua voz devolve-nos à alegria, não nos enreda nos labirintos. Tocado por esta convicção, percebi: começava o tempo dos ministérios da terceira provação.
E para que o tempo dos ministérios não se esgotasse em boa vontade, procurei um critério. Tinha muito presente uma ideia do Papa Francisco que me acompanha desde há anos: tentar dominar espaços conduz à exaustão; tentar gerar processos leva-nos a identificar qual a ação que pode despertar um movimento inflexível na história. Essa foi a bitola.
Sem pretensiosismos — não me considero super-homem —, desejei apenas identificar, com realismo e abertura, os pontos e ações onde pudesse haver fermento. Mas para isso era preciso meter-me, não observar à distância. Estas coisas não se detetam do alto de um miradouro. E para me meter com critério, era preciso dialogar. Primeiro com Deus. Depois com todos, começando pelos meus irmãos jesuítas.
Desejei apenas identificar, com realismo e abertura, os pontos e ações onde pudesse haver fermento. Mas para isso era preciso meter-me, não observar à distância. Estas coisas não se detetam do alto de um miradouro. E para me meter com critério, era preciso dialogar. Primeiro com Deus.
Encarnação e obras
Ao meter-me nesta missão, como propunha o critério, fui conhecendo várias coisas. Uma das primeiras, e talvez mais decisivas, foi a história da fundação da paróquia de São José Operário. Nasceu como projeto durante o generalato do P. Pedro Arrupe. E logo aí, uma marca de origem: conhecendo a geografia de Kangemi — um monte que desce até à cidade —, percebe-se rapidamente a separação social entre os que vivem mais acima — o chamado mountain view (Jakaranda compound), a minoria mais rica — e os que habitam mais abaixo, a vasta maioria empobrecida.
Perguntaram então ao P. Arrupe se a comunidade jesuíta poderia instalar-se no topo do monte. A resposta foi clara: Não. A comunidade devia estar imersa entre os mais pobres. Não se tratava apenas de uma intuição sociológica ou de uma sensibilidade refinada. Era um gesto de nervo teológico, um programa pastoral. Kangemi, assim o entendi, tem a ver com encarnação: transformar não pela distância, mas pela proximidade total.
Essa proximidade deu origem a uma impressionante rede de ministérios nascida ao longo de quarenta anos. É difícil enumerá-los sem sentir o peso da graça que as originou e sustenta: Saint Joseph Technical Secondary School, Christ the King Church (a outstation), Saint Joseph the Worker Health Center, Dolly Craft and Women Sewing Projects, Nursery and Primary School, Upendo Program for Orphaned and Vulnerable Children, Uzima Integrated Gender HIV/AIDS Program, Carpentry Workshop, Pastoral Center. Cada obra é um eco concreto dessa decisão fundadora: estar com, estar no meio, estar por inteiro.
Ao longo desta semana partilharemos o testemunho do P. Miguel Pedro Melo, sj, e as suas Memórias de São José Operário, em Kangemi, Quénia, onde esteve a fazer a sua terceira provação.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.