Recolher a memória - Ponto SJ

Recolher a memória

Última partilha do P. Miguel Pedro Melo, sj, cujo testemunho acompanhámos durante esta semana, visitando em palavras e memórias a sua missão em Kangemi, Quénia.

Última partilha do P. Miguel Pedro Melo, sj, cujo testemunho acompanhámos durante esta semana, visitando em palavras e memórias a sua missão em Kangemi, Quénia.

Com o tempo, fui percebendo que muitos dos fundadores da paróquia estavam a envelhecer — alguns já tinham partido. Falei com o P. Mauki sobre a urgência de recolher esta história viva. Depois de algumas consultas com o historiador jesuíta dos Camarões, o P. Jean Luc Enyegue SJ, reunimo-nos — Mauki, James e eu — e desenhamos um acordo entre a paróquia e a escola secundária/profissional.

O plano era simples e prático: o grupo de jovens da paróquia identificaria nomes importantes para o testemunho histórico da comunidade. Depois, os alunos do curso de vídeo/imagem da escola profissional gravariam as entrevistas. Quem sabe se, mais tarde, este material não daria origem a um livro. Com ajuda da Clara Almeida Santos, professora de jornalismo, redigimos três guiões de entrevista, pensados para três perfis diferentes: jesuítas fundadores, iniciadores de ministérios leigos, e membros da comunidade paroquial ao longo dos anos.

Com o consentimento de todos, o projeto ficou pronto para arrancar. Já sem mim — mas com muita esperança de que vá em frente.

Jesus convida-nos a outra coisa. Convida-nos à vigilância, ao exame da consolação, a não viver dos rendimentos espirituais mas da fidelidade diária e criativa. Saí da paróquia a custo, pela alegria e tanto bem recebido. Mas sei que a fidelidade não é feita de saudade, é um olhar sempre posto no futuro, feito de memória agradecida e olhar vigilante. Caso contrário a tibieza — essa planta carnívora que devora o entusiasmo — toma conta da casa.

Entre a consolação e a vigilância

No meu último dia em Kangemi, o Evangelho parecia escrito para mim. Os discípulos, durante a Última Ceia, dizem a Jesus: “Agora falas claramente e percebemos-te.” E Jesus responde com lucidez: Será que me percebem mesmo? Em breve, diz Ele, vão dispersar-se de novo. Só em Mim encontrareis paz.

Na intensidade das experiências fortes — como a que acabava de viver — há uma espécie de claridade fulgurante que parece dissipar todas as dúvidas. Mas essa sensação, embora verdadeira e cheia de entusiasmo, se absolutizada, pode ser enganadora. Leva-nos à tibieza. Quando regressamos à rotina, ao pecado, à fragilidade, perguntamo-nos: como é que, depois daquele dom, voltei a cair nisto? E então ou desacreditamos o dom (“foi tudo invenção”) ou domesticamo-lo (“não é preciso viver sempre naquele estado de graça”). Ambas as atitudes são rotas diretas para a tibieza, a vida morna.

Jesus convida-nos a outra coisa. Convida-nos à vigilância, ao exame da consolação, a não viver dos rendimentos espirituais mas da fidelidade diária e criativa. Saí da paróquia a custo, pela alegria e tanto bem recebido. Mas sei que a fidelidade não é feita de saudade, é um olhar sempre posto no futuro, feito de memória agradecida e olhar vigilante. Caso contrário a tibieza — essa planta carnívora que devora o entusiasmo — toma conta da casa.

Animam-me agora as palavras de Paulo: “Aquele que começou em vós a boa obra também a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Fil 1, 6). Alegra-me pensar que quem se sabe amado por Cristo não precisa de controlar, porque a consolação imprime no coração a confiança de que Cristo levará adiante o que em nós começou. Uma graça que Paulo terá aprendido a custo, apesar do seu carácter. E, com ele, todos os que como Paulo queremos ser Seus imitadores. Efetivamente, não sei o que brotará destes humildes esforços a não ser a consciência de que tudo está nas mãos dAquele que une o destino dos povos para a edificação do Seu reino de amor. Que alegria fazer parte deste movimento de Deus que opera em tudo e em todos.

Na pobreza, tocamos também a nossa impotência. PNão temos respostas para tudo. E Cristo, muitas vezes, não é uma resposta. Cristo é uma pergunta. Uma pergunta encarnada e incómoda diante do rosto sofredor, que nos diz: “E tu?”
Queres resolver o mundo ou queres, antes de tudo, estar ao pé de mim?

Cristo como resposta e como pergunta

Levo no coração a memória de muitas ações. Mas, acima delas, a consciência clara de que, tantas vezes, a única coisa que me restava era olhar para Cristo Crucificado e dizer-Lhe: “a resposta está só em Ti.” No sofrimento dos mais frágeis — crianças, idosos, enfermos — o caminho para a alegria não se restringe à identificação das causas, más vontades ou falhas logísticas que geram injustiça no mundo. Há um mistério espesso, quase opaco, — o do mal e do sofrimento — que só se pode transformar pelo mistério ainda maior do amor de Deus, pela entrega de Vida à morte.

Na pobreza, tocamos também a nossa impotência. Podíamos ser milhões a dar a vida pelo mundo novo do Reino — e ainda assim, a graça não seria substituível. Não temos respostas para tudo. E Cristo, muitas vezes, não é uma resposta. Cristo é uma pergunta. Uma pergunta encarnada e incómoda diante do rosto sofredor, que nos diz: “E tu?”

Queres resolver o mundo ou queres, antes de tudo, estar ao pé de mim?

E quando sais à noite com os teus amigos, quando festejas — peço que não te esqueças nem envergonhes da carne sofredora do teu irmão?

Se a Minha presença se tornar demasiado etérea para ti, ao menos não permitas que a dor do teu irmão se apague da tua memória. Não te afastes de nós, no modo como amas, como esperas, como trabalhas, como sofres.

Não para te tornares triste, mas livre para esperares sempre o que Te estou a dar adiante.

Talvez aí — só aí — percebamos que o grão de mostarda não está fora mas dentro, à espera de um ligeiro ‘sim’ para começar a despontar como arvorezinha e insinuar-se como repouso para as aves que não têm onde encontrar abrigo…

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.