O perdão em S. Inácio de Loyola

No domingo em que a Liturgia nos propõe celebrar a misericórdia de Deus , apresentamos alguns episódios da vida de S. Inácio que nos podem inspirar a viver e a rezar o perdão.

No domingo em que a Liturgia nos propõe celebrar a misericórdia de Deus , apresentamos alguns episódios da vida de S. Inácio que nos podem inspirar a viver e a rezar o perdão.

S. Inácio, no nº 282 dos Exercícios Espirituais, relata-nos o perdão de Jesus a Madalena – «porque muito amou» – e ao longo deste retiro inaciano convida o exercitante a pedir a Deus perdão, confusão e vergonha pelos seus pecados. Além disso na parte da sua vida descrita na Autobiografia[1] é perdoado, perdoa e ama o inimigo.

Em Paris, por volta de 1528, S. Inácio tinha sido instrumental na conversão do doutor Pedro Peralta, do bacharel Castro e do espanhol Amador, súbdito de Diogo de Gouveia no Colégio de Santa Bárbara (ensino superior) de que Gouveia era director. Na sequência disso os convertidos deram tudo o que tinham aos pobres, começaram a viver de esmolas e foram residir num hospital, local de assistência aos mais pobres onde estes recebiam roupas e alimento. Tal enfureceu os conterrâneos dos três convertidos (espanhóis) assim como Diogo de Gouveia. Este preparou um castigo, muito em voga, para S. Inácio, por este lhe ter «perturbado» o súbdito, que consistia em reunir todos os docentes do colégio numa sala – dar o castigo era conhecido por dar uma «sala» – para açoitarem o condenado. Mas tendo S. Inácio provado a sua inocência, no meio de todos os professores e demais pessoas, Diogo de Gouveia pediu desculpa de joelhos o que deu azo a uma grande amizade. Daqui se infere facilmente que S. Inácio não só não humilhou Gouveia, como o perdoou completamente não lhe tendo guardado rancor.[2]

Um outro episódio é descrito no nº 79 da Autobiografia. Um espanhol companheiro de S. Inácio «desde o princípio» (em Paris, 1528) gastou-lhe os 25 escudos que Inácio tinha recebido pela venda de uma «cédula de Barcelona[3]» e partiu de viagem sem lhe ter pago. Entretanto, Inácio soube que o devedor tinha caído doente e «vieram-lhe desejos de ir visitá-lo e ajudá-lo». Pensou imediatamente em fazer penitência e oração pela conversão do companheiro, tendo percorrido descalço e a pé as 28 léguas[4] que os separavam, sem comer nem beber e rezando constantemente.  À chegada, tratou do amigo e meteu-o num barco para Espanha. A Autobiografia é omissa se o conterrâneo terá pago a S. Inácio e se se terá convertido. Seja como for, o que nos interessa sublinhar são os imensos sacrifícios que S.. Inácio fez pela conversão do seu companheiro, seguindo à letra os ditames evangélicos de perdoar sempre e de perdoar ao inimigo. (Com a palavra «inimigo» Jesus refere-se a quem nos faz mal ou com quem nos zangámos e não tanto aos soldados de um país em guerra connosco.) Estes dois episódios mostram-nos de forma eloquente como o santo vivia o perdão.

 

[1] Autobiografia de Santo Inácio de Loiola : Editorial A. O., Braga, 2005, nº 79.
[2] Idem, nº 77 e nota 15 do capítulo VII.
[3] Idem, nº 73. (Não consegui apurar o significado de «cédula de Barcelona».)
[4] A distância do termo «légua» varia com o tempo e o lugar. Em Portugal corresponderia a mais ou menos 155km. (Note-se que naquele tempo as pessoas pobres estavam muito habituadas a andar a pé, tal como há 50 ou 60 anos no nosso país.)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.