Mysterium paschale: o amor que vence e recria o mundo - Ponto SJ

Mysterium paschale: o amor que vence e recria o mundo

A Vigília Pascal é amor que vence e recria o mundo. Não tenhamos medo. Este é o caminho de Cristo. Este é o nosso caminho, esta é a nossa Páscoa.

A Vigília Pascal é amor que vence e recria o mundo. Não tenhamos medo. Este é o caminho de Cristo. Este é o nosso caminho, esta é a nossa Páscoa.

Que a alegria e a paz de Cristo estejam consigo.

Hoje preparamo-nos para a Vigília Pascal. A Vigília Pascal é amor que vence e recria o mundo. É uma explosão da vida nova. Nos primeiros séculos, esta véspera do domingo de Aleluia, era a grande noite dos batismos. Entretanto, perdemos esta tradição, mas, felizmente, na década de cinquenta do século XX, no momento em que se está antes da grande reforma litúrgica, restaura-se a Vigília Pascal através de uma reforma de Pio XII.

Esta vigília tem quatro grandes movimentos: luz, palavra, água e eucaristia. Para quem nunca foi a uma vigília pascal, faça um esforço para a encontrar, porque é, de facto, a celebração mais bela. Sim, é longa, leva tempo. Mas qual é a pressa? Nós hoje celebramos todo o mistério da salvação. E é preciso entrar nesta mistagogia, nesta prática orante que nos revela o mistério.

A celebração começa cá fora. Todos cá fora, diante do fogo novo, eco do momento da criação, em que, no fundo do abismo, no meio do nada, brota a luz. Faça-se luz! Então nasce um fogo novo.

Teilhard de Chardin diz: “Se os homens redescobrissem o poder do amor era como inventar o fogo uma segunda vez.” É isso que hoje celebramos. Um fogo novo, no qual se acende o círio pascal, onde nós reafirmamos o Senhor que domina sobre todas as coisas e todos os tempos. E entramos numa procissão, na escuridão, iluminada somente por velas e pelo círio pascal. Tal como a nuvem de fogo na noite do Êxodo, atravessando os desertos. Nós com pequenas velas, com pequenas chamas, mostrando a fragilidade da nossa fé, guiados até dentro da igreja, da grande Arca de Noé, do grande templo de salvação, que nada mais é do que uma representação da comunidade viva. E aqui vamos começando pouco a pouco, a entrar no caminho de luz que é a nossa fé.

Sentamo-nos, ouvimos a Palavra e ouvimos toda a história da salvação. Uma brilhante encenação de tudo aquilo pelo qual nós passamos. Pode ir até ao máximo de sete leituras e a proclamação do Evangelho. E depois temos a água, onde ocorrem os batismos ou renovamos as nossas promessas batismais, recordando o fundamental que é a água para a nova vida. É fundamental lavarmo-nos daquilo que não interessa, daquilo que não é amor, daquilo que tem de ficar para trás. E, por fim, a Eucaristia. A ação de graças. A Primeira Missa da Ressurreição. O oferecer a vida por inteiro. O pão e o vinho. O Deus que se faz carne, que se oferece em sangue para que nós possamos ter vida. Ele que se torna frágil e se coloca ao nosso alcance. Ele que se torna alimento.

A ressurreição de Jesus não é um mero retorno à vida, não é mera memória. É vida nova, inaugurando uma nova criação. Se a cruz manifesta a obediência do Filho – a obediência amorosa do Filho, a confiança amorosa do Filho, que entra na morte – a ressurreição manifesta a ação do Pai. O Pai ressuscita o Filho pelo poder do Espírito. É a resposta do Pai. A ressurreição confirma que o amor levado até ao extremo não é derrotado pela morte.

Assim, o mistério pascal revela o movimento completo do amor divino. A entrega do Filho à solidariedade da Trindade com a morte e exaltação e uma vida nova. A Páscoa revela que Deus salva não por evitar o sofrimento humano, mas por mergulhar nele. E nós vivemos tanto tempo, fazemos tantos esforços para evitar todo e qualquer tipo de sofrimento, quando só no amor poderemos encontrar a alegria que é verdadeira luz e que é verdadeiro caminho. O nosso Deus salva mergulhando no sofrimento humano. Não é o sofrimento que salva. É o mergulho amoroso e o assumir o sofrimento por amor. E assim, amorosamente, somos resgatados do abismo pela ação do Espírito Santo. A ressurreição é o grande abraço do Pai que levanta o Filho. E temos aqui toda uma dinâmica de conversão. E o cume do Tríduo Pascal é que nós compreendemos como estamos a aprender a ser Cristo.

Na Quinta Feira santa temos o amor que se entrega. Na Sexta Feira Santa, o amor que sofre e se esvazia. No Sábado Santo, o amor que entra no silêncio da morte. E, na Vigília Pascal, primícias do domingo de aleluia, o amor que vence e recria o mundo. A Páscoa não é apenas a vitória de Deus sobre a morte, como se fosse uma abolição da morte, porque Deus não vem abolir a morte para já. A revelação de que Deus entrou até ao fundo de todas as mortes para ir ao nosso encontro, para estar connosco, para que não tenhamos medo.

Ser cristão é arriscar ganhar a forma da Páscoa. E aqui traça-se todo um programa de conversão e de santidade de vida, que está ao nosso alcance pelo Espírito Santo. Na Quinta Feira Santa aprendemos a entregar-nos. Na Sexta Feira Santa aprendemos a sofrer com Cristo todas as nossas dores e todas as dores da humanidade e todas as dores da criação. No Sábado Santo aprendemos a esperar no silêncio da incompreensão. Aprendemos a esperar no silêncio da solidão, a ver brotar a esperança ali, e não na vitória final. Na Vigília Pascal, a receber a vida nova.

Aprender a entregar-se, aprender a sofrer com Cristo, a esperar no silêncio, a acolher a vida nova. A vida cristã tem forma pascal. Para entrar nela, nós temos de ganhar a forma da Páscoa, arriscando missão e entrega, arriscando cruz e perda, arriscando silêncio e espera e incompreensão. Arriscando acolher a vida nova recebida de Deus.

Eis o amor que vence e recria o mundo. Este é o mistério que nós temos de aprender a guardar. Daniel Faria, num de seus poemas reza:

Guarda a manhã.
Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão.

 

O Evangelho habita-nos e precisa somente de uma centelha amorosa para verdadeiramente explodir na nossa vida. Mas para tal, temos de baixar a guarda e deixar de nos proteger.

Não tenhamos medo. O Senhor venceu o mundo.

Não tenhamos medo. Arrisquemos perder. Arrisquemos perder-nos por amor.

Não tenhamos medo. Este é o caminho de Cristo. Este é o nosso caminho, esta é a nossa Páscoa. Como diz São João Paulo II: “nós somos o povo da ressurreição e o nosso cântico é Aleluia!”

Que assim seja.


«Mysterium Paschale» são catequeses de Tríduo Pascal, que pretendem promover o crescimento na inteligência da fé e na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Preparadas pelo P. Nelson Faria, sj, pode ler ou escutar quando e onde lhe for mais conveniente, estando disponíveis no portal Ponto SJ e no canal whatsapp do Ponto SJ. Uma primeira catequese será publicada no domingo de ramos, sendo as outras oportunamente publicadas nos dias em que se assinalam os respectivos mistérios da paixão, morte e ressurreição do Senhor.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.