Que a alegria e a paz de Cristo estejam consigo.
Hoje é quinta-feira santa, o dia em que nós celebramos o amor que se entrega.
Desde os primeiros séculos que a Igreja celebra a memória da Última Ceia. É durante a Idade Média, que se vão desenvolver os ritos próprios deste dia: o lava-pés, a procissão no final da celebração até ao lugar da Reserva Eucarística… esta grande devoção e comoção.
O núcleo teológico das celebrações deste dia desdobra-se em dois. Por um lado, a instituição da eucaristia e do sacerdócio, o sacramento da Ordem. Este dia de quinta-feira santa é marcado por uma missa crismal, onde o bispo se reúne com todos os padres da sua diocese, reafirmando a sua unidade como Igreja, a sua perfeita e plena comunhão. Mas tem este culminar no lava-pés que ocorre no final do dia, em que o gesto central é o serviço. Jesus lava os pés.
É muito curiosa a maneira como nós assumimos que esta é a grande forma de mostrar quem é que Jesus é: o amor que se entrega. O nosso Deus é amor que se entrega. E há uma carga simbólica fortíssima neste dia. Temos o pão e o vinho, que nos mostram como Deus é alimento, que se entrega como alimento. Faz-se pequeno e vulnerável, deixa-se partir nas nossas mãos. Fica sujeito a nós, faz-se escravo. Em Filipenses (Fl 2, 5-11), Ele, que era de condição divina, humilhou-se, desceu até à condição de escravo.
Por outro lado, temos também o símbolo do lava-pés, que é a maneira mais eloquente de nós afirmarmos que a autoridade cristã vem sempre do serviço, vem sempre do abaixar-se diante do outro, vem sempre de reconhecer o sagrado e o divino no outro, como filho querido e amado de Deus. Por muito que nós por vezes nos sintamos inclinados a julgar, diante do outro, há sempre uma centelha divina que nos deve levar a olhar com compaixão.
Temos também um outro momento bastante simbólico neste dia, que ocorre no final desta celebração. Nós não recebemos uma bênção final. O Senhor é retirado e o altar desnudado. E nós devemos seguir o Senhor até ao lugar do seu retiro, até ao horto, para aqui começar uma vigília com Ele. Este é o abaixamento ao qual todos nós somos chamados no seu seguimento, seguimento esse que é sempre um mistério. Mas é este o amor que se entrega e que qualquer filho sente que é chamado ao ter de responder em amor ao amor dos pais, ao amor que se entrega. Tal é uma evidência para os pais que compreendem, dia após dia, que eles são amor que se entrega. Jesus entra livremente na sua Paixão, obedecendo confiadamente ao amor do Pai. Não um Deus tirano, não um Deus “mandão”. Não um Deus das boas práticas e das boas regras, mas um Deus que diz: “faz, ama e ama até ao fim”. E a Eucaristia torna presente essa entrega radical em todos os tempos.
Celebremos hoje este dia, com este grande chavão “Amor que se entrega”. O meu Deus, o nosso Deus, é amor que se entrega. Peçamos viver ao seu estilo, como o faz Daniel Faria, num dos seus mais belos poemas.
Neste lugar transitório mantém-me mendigo
Desviando-me de mim – não
Da tua mão.
Conduz-me
Para a esquerda e para a direita,
roda-me sempre
Para a saída
Deixa-me ser a porta no eixo
Posta para trás pela mão de quem entra
Deixa-me ser o chão assiduamente
Quero ganhar a forma
Do degrau
A forma da mão que se abre quando nada tem
E quero a mão, no entanto.
Interessam-me alguns instrumentos de posse
A língua para me calar
As rótulas, os calcanhares, os rins
o corpo inteiro completo para morrer.
Isto que Daniel Faria nos diz, não é uma tragédia. É um amor que se entrega até ao fim, que quer viver de forma excêntrica, sempre em saída, sempre a sair do seu próprio amor, querer e interesse, como nos pede Santo Inácio nos Exercícios.
Disponível a ser a porta no eixo. Imagine uma porta. Abra essa porta e veja como ela roda sobre o seu eixo e a porta fica para trás quando entra. Este é o nosso desejo: de ser portas para o amor que os outros podem viver. Daí Daniel Faria dizer, a certa altura, que quer ganhar a forma da mão de Deus. Porque no início ele pediu isso mesmo: Desvia-me de mim, mas não da tua mão.
Daniel Faria afirma com este seu poema: «quero ganhar a forma da Tua mão, Senhor. Eu quero ganhar a forma de um amor que se entrega. E quero a mão. Eu não quero perder a tua mão e por isso interessam-me alguns instrumentos de posse: a língua, para que eu me cale, para que eu não fale tanto sobre mim». E depois acrescenta: as rótulas, os calcanhares, os rins. Três partes do nosso corpo que doem quando peregrinamos. Rótulas. Calcanhares. Rins.
Assumamos a nossa condição de peregrinos que seguem Jesus até ao Horto, desejando nada mais do que ser amor que se entrega.
Que assim seja.
«Mysterium Paschale» são catequeses de Tríduo Pascal, que pretendem promover o crescimento na inteligência da fé e na profundidade do mistério celebrado na Semana Maior da nossa fé. Preparadas pelo P. Nelson Faria, sj, pode ler ou escutar quando e onde lhe for mais conveniente, estando disponíveis no portal Ponto SJ e no canal whatsapp do Ponto SJ. Uma primeira catequese será publicada no domingo de ramos, sendo as outras oportunamente publicadas nos dias em que se assinalam os respectivos mistérios da paixão, morte e ressurreição do Senhor.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.