Juventude com terra nos pés e perguntas no olhar - Ponto SJ

Juventude com terra nos pés e perguntas no olhar

Continua a partilha do P. Miguel Melo, sj com várias histórias sobre jovens que conheceu nesta missão e relações que abrem caminhos

Continua a partilha do P. Miguel Melo, sj com várias histórias sobre jovens que conheceu nesta missão e relações que abrem caminhos

A vida, claro, seguia por outras frentes. E uma das mais vivas era a juventude. Às quintas-feiras, rezávamos juntos o terço. Às sextas, havia ensaio de coro. Tentámos — ou melhor, tentei — ensinar-lhes uma música dedicada a São José. Foi um dos maiores desastres musicais da minha vida. Rimo-nos bastante.

Aos domingos, além da missa das 10h30, passava a tarde com eles. Futebol, voleibol, xadrez — conforme o céu permitisse. Num desses jogos, levei um encontrão tão forte que, caindo ao chão, pensei ter partido a perna. Os meus 38 anos revelaram-se com uma clareza inelutável. Ter-me-á ocorrido alguma palavra menos digna, que não recordo bem ou não quero recordar.

Conto algumas histórias. Uma rapariga levou-me a conhecer o mercado de Kwaranguare. Parou subitamente. Olhou em volta, depois para o chão, e disse: “Foi aqui que o meu pai foi morto.” Disse-o com uma secura que cortava. Fiquei sem saber o que dizer. Ali, naquela rua de terra vermelha, despida de carros e palavras, perguntei-lhe se queria rezar um Pai Nosso. E foi o que fizemos.

Uma rapariga levou-me a conhecer o mercado de Kwaranguare. Parou subitamente. Olhou em volta, depois para o chão, e disse: “Foi aqui que o meu pai foi morto.” Disse-o com uma secura que cortava. Fiquei sem saber o que dizer. Ali, naquela rua de terra vermelha, despida de carros e palavras, perguntei-lhe se queria rezar um Pai Nosso. E foi o que fizemos.

A Lucía contou-me que a Viona, uma jovem da paróquia, lhe confessou o desejo de ser religiosa. O motivo? A mãe, por ser casada, era muito maltratada. Lógica dura como a terra; o matrimónio parecia uma sentença, a vida consagrada uma proteção.

Aos poucos, fui percebendo que as raparigas mais bem vestidas da paróquia — e do bairro — nem sempre eram as mais ricas. Muitas tinham o que chamam um sugar daddy. O mesmo se aplica a alguns rapazes. Há bares longe dali onde se pode encontrar sempre um mzungu — estrangeiro — ou um local mais endinheirado que lhes paga os luxos em troca de companhia. Não são exceções. São fissuras da realidade.

Dói. E não vale a pena refugiar-se naquele velho refrão: “África não é só isto.” Pois claro que não é. Mas também é. Aqui, como em tantos lugares do mundo, não é “isto ou aquilo”, é “isto e aquilo”. Há alegria, bondade, resiliência. Mas também há uma cultura de fachada que permite a coexistência de tudo o resto, uma lógica de sobrevivência vestida de verniz.

Na minha humilde percepção, não é com slogans libertários, com timbre de ONG internacional, que se resolve profundamente o que aqui se passa. Mas também não é com uma certa rigidez moral que por vezes provém dos púlpitos, que parecem falar do Evangelho como quem vende um produto, não como quem acompanha os feridos. Dói. É preciso uma transformação de fundo. E pergunto-me: poderão os Exercícios ajudar nesse caminho? Poderemos nós, jesuítas, ajudar a dar passos? Verão, no nosso modo de proceder, os sinais da Paixão que Jesus teve por todos sem exceção? Aquela Paixão que rasga as fachadas, que deita abaixo todos os muros, sem com isso destruir as clareiras onde os doentes e os cansados podem contar com sombra, resguardo e cuidado?

Eleição do Papa Leão XIV

Por esses dias, a Igreja acolhia com alegria a eleição do novo Papa, Leão XIV. Em São José Operário, o nome soava com uma afinação particular. Que o bispo de Roma evocasse o mundo dos trabalhadores, ecoava como um selo providencial. Um novo tempo parecia despontar também ali.

Durante os dias em que se sucediam as notícias sobre a eleição do Papa Leão XIV, encontrei algum tempo para escrever. Enquanto lia os comentários nos vários sites católicos, impressionava-me — e, confesso, incomodava-me — a pressa com que algumas fações ideológicas da Igreja, à falta de melhor expressão, procuravam reclamar o novo Papa para si. Uns apresentavam-no como herdeiro da clareza e da ortodoxia, num gesto de oposição direta à “confusão” sinodal de Francisco; outros, pelo contrário, tentavam ligá-lo ao espírito de abertura e reforma do pontificado anterior. Nenhuma destas leituras me parecia inteiramente justa. Faltava-lhes profundidade, sobrava-lhes projeção. Parecia-me justa a afirmação do P James Martin SJ: “Let Pope Leo be Pope Leo”. Por isso, escrevi um texto sobre a sintonia espiritual entre Santo Agostinho e Santo Inácio de Loyola, tentando oferecer uma chave mais enraizada para pensar as continuidades e descontinuidades entre o primeiro Papa agostiniano e o primeiro Papa jesuíta. Foi um trabalho que me deu muita consolação: pelo caminho percorrido e pelos ecos que fui recebendo.

Com a mudança de Papa, intensificaram-se também as reuniões zoom com a direção internacional da Rede Mundial de Oração do Papa. Reinava alguma incerteza quanto ao desejo de Leão XIV em dar continuidade ao projeto do Vídeo do Papa e à centralidade das intenções mensais, como acontecera com Francisco. Felizmente, o seu secretário respondeu-nos confirmando que Leão XIV assinava todas as intenções deixadas por Francisco e que, em breve, se reuniria com o P. Cristóbal Fones SJ para decidir as modalidades práticas do vídeo durante o seu pontificado.

Relações que abrem caminhos

Entretanto, a política portuguesa andava aos tropeções e levaria, nessa altura, a eleições antecipadas. O P. Kitui levou-me à embaixada para votar. E ali, no meio da burocracia, encontrei a senhora Maria João Fonseca. Portuguesa, de Matosinhos, responsável pela administração consular, tinha passado pelo CREU e pelo CUPAV. Tivemos uma ótima conversa. Mostrou interesse em conhecer Kangemi. Convidei-a a vir e, mais tarde, reforcei o convite para visitar também o projeto de transformar o dispensário da paróquia em hospital — sonho da irmã Magdalena, superiora das Irmãs da Misericórdia.

Foi bonito pôr estas duas mulheres em contacto. Lembrei-me do que o P. Cândido de Dalmases dizia na biografia de Santo Inácio: que os Loyola eram uma família rica por possuírem três coisas — propriedade, receitas e relações. Inácio, claro, quis que a Companhia não tivesse as duas primeiras, senão ordenadas puramente em função da missão: obras, colégios, fundações, etc. Mas quanto às relações parece tê-las querido, cultivado e examinado com intenção reta a fim de as colocar inteiramente ao serviço da glória de Deus e do bem comum.

Fiquei mesmo feliz ao ver a senhora Maria João vir ter connosco, acompanhada da mãe e em pleno dia de aniversário da filha, para celebrar missa e conhecer a irmã Magdalene. A conversa seguirá entre o dispensário e a Embaixada Portuguesa em Nairobi — e isso alegra-me. Para chegar até ali, foram necessárias muitas conversas: com a paróquia, com o Development Office da Província, com o conselho pastoral… mas tudo se alinhou.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.