Ir ao cinema: As Guardiãs

Desta vez sugerimos cinema: "As Guardiãs" de Xavier Beauvois. Beauvois ficou conhecido entre em nós através do filme "Dos Homens e dos Deuses que relata o assassinato, na Argélia, em 1996, dos monges de uma da comunidade trapista.

Desta vez sugerimos cinema: "As Guardiãs" de Xavier Beauvois. Beauvois ficou conhecido entre em nós através do filme "Dos Homens e dos Deuses que relata o assassinato, na Argélia, em 1996, dos monges de uma da comunidade trapista.

Breve Sinopse

França,1915, durante a Grande Guerra. Uma propriedade rural na Bretanha. Hortense Sandrail (N. Baye), a matriarca da família, tem os dois filhos e o genro na Frente, mas é uma mulher determinada. Sem homens que possam assumir os trabalhos inerentes à propriedade, Hortense toma a peito, com a filha, Solange (L. Smet), garantir a prossecução das pesadas tarefas do dia-a-dia. Perante o excesso de trabalho, necessitando as duas mulheres de ajuda, é-lhes encaminhada a jovem órfã Francine (I. Bry) que se revela precioso auxílio. Georges (C. Descours), o filho remanescente, após o irmão ter morrido em combate, apaixona-se pela jovem Francine por altura de uma licença militar. Esse será o ponto de viragem conducente a uma situação dramática.

Nota Crítica

Para completa fruição de Les Gardiennes, será útil situar o realizador e actor Xavier Beauvois (n.1967). Ajudará, certamente, referenciá-lo como realizador de um filme que, ao contrário do que um superficial juízo poderia supor, constituiu um pouco por todo o lado (Portugal incluído) um êxito de bilheteira, com longa permanência em cartaz, para além dos muitos prémios, a começar pelo galardão máximo do Festival de Cannes: estou a referir-me a Dos Homens e dos Deuses (2010), a sublime produção (estou a medir o termo) que relata o assassinato, na Argélia, em 1996, dos monges da comunidade trapista de Nossa Senhora do Atlas, às mãos do terrorismo islamita. O mosteiro integrava-se plenamente na vida local, onde a população muçulmana respeitava os monges e por eles era assistida em necessidades do dia-a-dia. O filme aborda o drama da fé e de consciência naqueles homens que, perante a ameaça de morte, têm que optar entre partir ou ficar com a população. A opção será a de ficar. Um filme, portanto, sobre uma premente temática religiosa.

Mas a carreira de Beauvois começara muito antes (em 1991, com Nord), com obras não apenas construídas com qualidade fílmica, mas também com profunda observação dos indivíduos enquanto seres inseridos numa malha social. A sua obra, em França, cedo encontrou um ambiente crítico de grande acolhimento, bem como boa recepção pública. Infelizmente, em Portugal, uma distribuição cinematográfica plena de discutíveis opções, apenas se dá conta de Beauvois em 2010 porque ganhara o Festival de Cannes. Enfim, mais vale tarde do que nunca e, por isso, estamos hoje a usufruir de mais uma obra prima como As Guardiãs.

O facto de Beauvois se inspirar livremente num romance de Pérochon introduz dois elementos a considerar: por um lado trata-se de uma obra literária próxima dos acontecimentos da Grande Guerra, a reflecti-los a fresco. Por outro, o romance está próximo, em tempo, dos movimentos artísticos em França, desde logo a pintura, o que é valorizado pictoricamente, no filme, pela colaboradora habitual de Beauvois, a directora de fotografia Caroline Champetier que aqui constrói imagens de uma grande beleza. Essa beleza torna-se sensível ao espectador que nessas imagens encontra o contraponto à desolação das pontuais visões da guerra, apenas evocadas nos relatos, cartas ou nos pesadelos de quem a ela está amarrado. Devo confessar que perante a temperatura de cor e a composição dos planos, as imagens de Champetier me evocaram, desde o primeiro momento, a atmosfera desse quadro realista de Millet, As Respigadoras, uma obra citada pela veterana realizadora Agnès Varda no imorredouro documentário Os Respigadores e a Respigadora (2000) ou em outros quadros como as Ceifeiras do naturalista português Silva Porto. E ao restituir esta atmosfera Beauvois/Champetier fazem-no sem qualquer pretensiosa citação, mas como uma evocação que cria esse elemento fulcral da cinematografia, que amplamente tem sido abordado na História do Cinema, a criação de uma atmosfera, não só no exterior mas também no trabalho de iluminação dos interiores. A sedução é aproximada à atmosfera que nos envolvera na sucessão das estações do ano no encantatório e dramático filme do saudoso realizador italiano Ermanno  Olmi em A Árvore dos Tamancos (1997), filme premiado, em Cannes, com o galardão máximo e o prémio OCIC.

Se a linha estética que acabei de descrever é sensível ao envolver os trabalhos daquelas mulheres, nos campos, um segundo elemento se constitui como uma das forças motrizes da narrativa: a duração longa dos planos e o ritmo pausado da montagem. Se por um lado esse ritmo constrói uma dimensão que é inerente ao âmago da ruralidade nas épocas do ano, ele deixa o espectador ‘respirar’ (contemplando). E isso não é de somenos importância numa época em que, sobretudo a partir da hegemónica produção americana, potenciada por alguns produtos televisivos, o espectador é ‘bombardeado’ com a cadência diabólica de «x» imagens por segundo, não lhe dando tempo para ver e, ainda menos, para pensar.

E isso não é de somenos importância numa época em que, sobretudo a partir da hegemónica produção americana, potenciada por alguns produtos televisivos, o espectador é ‘bombardeado’ com a cadência diabólica de «x» imagens por segundo, não lhe dando tempo para ver e, ainda menos, para pensar.

Carlos Capucho

Mas não só de excelência estética este filme se constrói. Na verdade poder-se-á pensar que Beauvois edulcora artificiosamente as agruras da vida rural em confronto com o pesadelo da guerra. Nada de mais errado. O que o realizador propõe com mestria é a verdade dos gestos, digamos, sem medo da palavra, num olhar quase documental sobre a forma como a vida se processava à época (e aí volto a lembrar-me de A Árvore dos Tamancos). É evidente que hoje os ritmos e os contextos são diferentes. E Beauvois não o esquece quando Hortense e a filha investem as economias para adquirirem máquinas agrícolas que, sendo uma novidade técnica no início do século, inevitavelmente facilitarão os trabalhos e alterarão o ritmo e o contexto. Claro que um filme feito hoje, sobre o passado, necessariamente investe numa leitura feita no presente sobre a realidade de ontem, com os filtros de conhecimento da contemporaneidade. Mas vai uma grande distancia até se poder considerar que se queda, tão só, num olhar nostálgico. Claro que o olhar de Beauvois é rigoroso sobre como era a vida, mas é, simultaneamente, agora, uma visão crítica. E só um olhar enviesado por grelha ideológica se recusará a admiti-lo.

Se a ausência forçada dos homens, no início do século XX, vem mostrar que as mulheres são tão capazes de exercer e gerir tarefas com a mesma competência dos homens, logo o filme nos dirá que, no entanto, os atavismos do patriarcado são os mesmos do matriarcado, amarrando-se mutuamente nos mesmos injustos preconceitos e cedências, para salvaguardar um conceito egoísta de núcleo familiar onde o estranho não consegue entrar porque não tem a mesma matriz, ou porque os seus conceitos põem em causa o reduto familiar. E aí, os inesperados preconceitos da Mãe, em relação a Francine, são inoculados perversamente no filho mais novo, Georges, potenciando os ciúmes que, num momento, de forma superficial, ele desenvolvera contra a jovem.

O contraponto que nos dá Beauvois está na figura magnífica da órfã Francine, excelentemente incarnada pela estreante Iris Bry. Francine é-nos dada como uma jovem que, estando no tempo, de certa forma está à frente dele. Porque, responsável, ultrapassa as limitações sociais que lhe são impostas e procura, com discernimento, encontrar o seu caminho de libertação e realização, malgrado circunstâncias que lhe são desfavoráveis.

PS: uma chamada de atenção, apenas, para um excelente filme franco-alemão, exibido entre nós perto da data de estreia de as Guardiãs. Trata-se de Frantz (2016) do realizador francês François Ozon, ambientado no imediato rescaldo da Grande Guerra, em 1919. Trata-se de uma obra sensível sobre o confronto entre cidadãos dos dois povos inimigos, numa altura em que um é vencedor e outro o vencido. Tudo extraordinariamente bem urdido num contexto romanesco, inspirado num filme de Ernst Lubitsch, de 1932.

 

Ficha Técnica:

Título Original:  Les Gardiennes, França, 2017 – Drama Social

Realização: Xavier Beauvois  Música: Michel Legrand

Argumento: X. Beauvois/Marie-Julie Maille a partir do romance   de Ernest Pérochon (1924)

Actores e actrizes principais: Nathalie Baye, Laura Smet, Iris Bry, Olivier Rabourdin, Nicolas Giraud e Cyril Descours

Fotografia: Caroline  Champetier

Estreia em Portugal: 07/06/2018

Tempo e Classificação: 138 minutos – M/12 anos

Em exibição: El Corte Inglés (UCI), Lisboa – 18h45.

Este texto faz parte do caderno cultural da revista Brotéria de julho.

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.


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Esta seção é da responsabilidade da revista Brotéria – Cristianismo e Cultura, publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902.

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