“A coisa mais bonita que vi até hoje, não foi um quadro, não foi um monumento, não foi uma mulher, não foi o mar. A coisa mais bonita que vi até hoje foram 20 mil hectares de girassol na Baixa do Cassanje, em Angola.” O excerto do segundo livro de crónicas de António Lobo Antunes, recentemente falecido, é trazido à aula de alfabetização pela professora Inês Cunha. As alunas leem devagar, soletrando as palavras que ainda são difíceis de verbalizar e entender e trazem à memória os tempos em que habitavam terras africanas e talvez ainda não sonhassem com uma vida em Portugal. No final da leitura, a pergunta é devolvida a cada uma e a recordação da coisa mais bonita que já viram na vida é comovente: o rosto do primeiro filho, uma paisagem num santuário distante…
O escritor e o propósito desta interação na aula de terça-feira do projeto de alfabetização do Centro Social e Paroquial de Cristo Rei, no Pragal, provam que este não é apenas um mero projeto que pretende ensinar a ler quem já está na idade da reforma e nunca teve oportunidade de aprender. Esta é também uma iniciativa que deseja fomentar os laços entre as pessoas, gerar comunidade numa população imigrante de África, e dar ferramentas necessárias à vida do dia a dia.
A turma que embarcou há três anos nesta aventura de aprender a ler tem cerca de uma dezena de alunos que se reúnem duas vezes por semana num dos espaços do centro social e paroquial que pertence à Paróquia de São Francisco Xavier de Caparica, confiada pela diocese de Setúbal à Companhia de Jesus. São na maioria senhoras de origem africana, emigradas em Portugal há várias décadas, às quais se junta Carlos Santos, que aqui também procura aprofundar a leitura e a escrita. Mas nestas aulas não se fala apenas de letras e palavras, cultiva-se o gosto pela leitura, o interesse pela atualidade e abordam-se temas que, parecendo distantes, têm uma dimensão prática e pedagógica. “Já falámos do Presidente da República e do Parlamento, na altura das eleições, falamos muito sobre questões de saúde ou de educação dos filhos porque são as questões que as preocupam”, explica a professora Inês, falando com entusiasmo. A literatura de Lobo Antunes foi um tema evidente, assim que o conceituado escritor português morreu o assunto foi trazido à sala de aula.
A iniciativa de criar este projeto de alfabetização também partiu de uma necessidade concreta de um grupo de senhoras: aprender a ler para ajudar a rezar. Algumas das que agora aqui se juntam para ler, juntavam-se desde o tempo da pandemia para rezar, mas tinham de contar sempre com a ajuda de alguém para ler os trechos bíblicos e as orações. Quando essa pessoa deixou de estar disponível, deixaram de o poder fazer, explica Felismina Tavares, a impulsionadora do grupo, que conta como a ideia foi acolhida e dinamizada pela direção do centro . Algumas já sabiam juntar as letras, mas nunca leram fluentemente, outras nunca tiveram oportunidade de ir à escola na infância, em África, outras até teriam tido gosto em aprender, mas as exigências familiares obrigaram a outras opções.
“O que me fascina neles é o gosto que têm em aprender”, comenta a professora que na aula de hoje ajuda a turma a exercitar a letra X, pois este ano, a pedido dos alunos, estão a trabalhar a letra manuscrita. Inês Cunha vai espreitando as fichas de exercício manuscrito que a turma praticou em casa e depois começa a escrever no quadro conjuntos de sílabas com a letra x para que os alunos, juntando-as, formem as palavras.
Hoje a turma não está completa, estão apenas 7 alunos pois, apesar de reformados, muitos ainda cuidam dos netos, têm outros afazeres e trabalhos que ajudam a compor o rendimento familiar e que, quando aparecem, não podem ser dispensados. O bairro onde o centro está instalado espelha as várias vagas de emigração chegadas a Portugal e as dificuldades económicas e sociais que encontraram, tanto os que chegaram nos anos 80 e 90, como os que continuam a chegar.
E estas vidas deram um livro
A história de Chiquinho, a personagem do livro do escritor cabo-verdiano Baltasar Lopes, foi uma das primeiras leituras do grupo e cuja história de emigração viria a inspirar e dar o mote a outro projeto. Ao ler a história deste protagonista, cuja história deu um livro, as alunas foram confrontadas com a sua própria história e desafiadas pela professora: e se a vossa história desse um livro também? E deu mesmo. Oito alunas e um aluno contaram a sua história, que foi escrita por um escritor convidado a abraçar o projeto e todos foram fotografados individualmente. O resultado é a obra “A minha vida deu um livro”, que será apresentado no dia 21, à noite, no clube B.leza, no Cais do Sodré, em Lisboa. Andreza Reis, Carlos Santos, Felismina Tavares, Lina Soares, Maria Fátima Almeida, Maria Fátima Varela, Maria Gomes Ribeiro e Rosalina Semedo são as protagonistas de uma obra que contou com a colaboração dos escritores Gonçalo Cassiano Santos, João Monge, Jacinto Lucas Pires, Luísa Sobral, Marta Hugon, Raul Azevedo, Rosa Ruela e Rita Redshoes. O prefácio é do escritor cabo verdiano Germano Almeida e a introdução cabe a Mónica Azevedo, diretora técnica do Centro Comunitário do Centro Social Paroquial de Cristo Rei.
O projeto integra a iniciativa Com.Unidade, dinamizada pela Santa Casa da Misericórdia de Almada e pelo Centro Social Paroquial do Cristo Rei, no âmbito da medida Comunidades em Ação, Operação Integrada Caparica e Trafaria, com financiamento do PRR – NextGeneration EU.
Texto: Rita Carvalho
Vídeo e fotografias: Carolina Berlim
Apoio à produção: Teresa Bento
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.