“Em casa, li o que tinha escrito naqueles cinco dias. Só aí chorei”

Fazer memória é homenagear vivos e mortos. É lutar contra o impensável, para que não se repita. Pedrógão - a tragédia que chocou o país - revivida no Ponto SJ pelos jornalistas do Observador. Os primeiros a chegar à estrada da morte.

Fazer memória é homenagear vivos e mortos. É lutar contra o impensável, para que não se repita. Pedrógão - a tragédia que chocou o país - revivida no Ponto SJ pelos jornalistas do Observador. Os primeiros a chegar à estrada da morte.

Lembro-me bem daquele sábado, 17 de junho de 2017. Estava calor – muito calor – e o mês era de Santos Populares. Passei a tarde em casa de um primo com amigos, num churrasco, e o plano era seguir para um arraial depois de jantar. Entretanto, sem que nada o fizesse prever, começou a chover. Continuava um calor insuportável, mas chovia. Decidimos ficar por casa e ver um filme. Já sabíamos do incêndio na zona de Pedrógão Grande. Ou melhor, de um incêndio, mais um naquele verão. Ao início da tarde tínhamos lido notícias que davam conta de um fogo de grandes dimensões na região centro, mas naquela altura pouco sabíamos sobre a gravidade da situação.

A dada altura, a meio do filme, peguei no telemóvel. Tinha cinco chamadas não atendidas da Rita Ferreira, na altura, a minha editora no Observador. Liguei de volta e ouvi: “João, preciso que vás para Pedrógão Grande. Já morreram 19 pessoas e o Presidente da República está a caminho”. Inicialmente fiquei meio confuso. Como sou da zona de Leiria, o meu primeiro pensamento foi o de que talvez me estivessem a pedir que fosse de casa até lá, por estar mais perto, pelo que respondi: “Mas olha que estou em Lisboa”. “Eu sei. Vai para a redação, pega no carro e segue. Estamos a tratar do fotojornalista”, respondeu-me. Desci, apanhei o metro e fui para a redação.

Ao mesmo tempo, o André Carrilho, coordenador multimédia do jornal, estava ao telefone com o Júlio Lobo Pimentel, que na altura era o nosso videógrafo. Tentavam arranjar quem pudesse ir naquela noite para Pedrógão. Decidiu-se que iria o Júlio. Na altura, o jornal estava à espera da chegada do João Porfírio, fotojornalista que começaria a trabalhar connosco no dia 2 do mês seguinte. O diretor do jornal, Miguel Pinheiro, ligou-lhe e perguntou-lhe se queria vir – e ele disse que sim, claro. A resposta não surpreende quem o conhece. Aliás, mesmo estando de férias e entre empregos, ele já estava a preparar-se para seguir, sozinho, para o incêndio.

Em meia hora, estávamos na redação. Pegámos no carro e pusemo-nos a caminho. Não sabíamos o que esperar, o que iríamos encontrar lá em cima. Na redação, já se fazia a cobertura do incêndio havia horas. Através do telefone, das informações da Lusa e das televisões. Durante o caminho, explicaram-nos tudo o que já se sabia sobre o incêndio: era na zona de Pedrógão Grande, já tinha causado a morte a 19 pessoas e estava a tomar proporções gigantescas. Já prometia tornar-se na maior tragédia da história recente em Portugal.

A dada altura, no caminho, soubemos pela rádio que os acessos a Pedrógão Grande já estavam fortemente condicionados e que a vila podia ficar cercada pelo fogo a qualquer momento. Íamos na A13 e saímos na saída anterior à ligação com o IC8, porque as últimas notícias já confirmavam que aquela estrada estava cortada.

O nosso carro foi o último a sair da autoestrada. Atrás de nós vinha a polícia que fechou o acesso – naquela altura, todos as saídas da A13 na zona centro foram fechados. Foi por dez segundos. Até ao dia seguinte já ninguém conseguiria chegar ali.

João Francisco Gomes

Quando andávamos à procura da melhor forma de chegar a Pedrógão Grande, ouvimos a confirmação: a vila estava cercada e o fogo dirigia-se para a autoestrada e para Figueiró dos Vinhos. Decidimos ir para lá.

Às portas de Figueiró, o café “Figueiras” servia de base de apoio ao combate ao incêndio, que já se aproximava da vila. Mas ali a população lutava sozinha contra o fogo. Estacionámos o carro – com a frente virada para a estrada, para sairmos rapidamente em caso de necessidade, uma precaução que se revelaria preciosa – e fomos tentar ver o que se passava. Não podíamos fazer, naquele momento, muito mais do que olhar e contar o que ali víamos. Meia dúzia de homens tentavam apagar as chamas com ramos e baldes, evitar que chegassem às casas, já a menos de 100 metros do fogo. Ao mesmo tempo, meia dúzia de mulheres regavam as hortas cultivadas. Fui falar com elas, enquanto o João e o Júlio foram captar imagens de uma oficina ali perto que estava a ser consumida pelas chamas.

Fotografia de João Porfírio/Observador
Fotografia de João Porfírio/Observador

Perguntei se não havia bombeiros por ali. Disseram-me que não, que tinha tudo ido para Pedrógão Grande e que ninguém conseguia voltar para ali. Nem um bombeiro, nem um carro. Estava a meio desta conversa quando ouvi alguém a gritar: “De quem é este carro branco?” Era o nosso. Tinha vindo o Júlio a conduzir, mas como era eu que estava mais perto do carro, fiquei com a chave. Fui a correr para o local onde o carro estava parado e apercebi-me de que a distância segura a que achávamos ter estacionado o carro eram agora apenas cinco metros. Tirei o carro dali, arranquei rumo ao café e vi o João e o Júlio a virem ter comigo por outro lado. Disseram-me que tinham ficado encurralados e que tiveram de fugir, tal não tinha sido a rapidez com que as chamas se propagavam.

Saímos dali para ver outros lugares. Enquanto conduzíamos, surgia na rádio uma notícia alarmante: em determinada estrada, haviam morrido umas dezenas de pessoas, a tentar escapar do incêndio, encurraladas com fogo por todos os lados.

João Francisco Gomes
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Fotografia de João Porfírio/Observador

O estacionamento daquele café era um retrato perfeito da tragédia que ainda estava apenas a começar. Falei com um reformado de 61 anos que estava nervosamente agarrado ao telemóvel e me disse que acabara de “ligar pela décima vez para o 112 para chamar bombeiros”. “Há 22 anos que aqui ando e sempre que vejo incêndios é sempre assim, têm de ser as pessoas a apagar o fogo”, lamentava Fernando. Ali ao lado, uma senhora fugira de casa com o marido e a autocaravana. O neto alertara-os para o incêndio, salvando-lhes a vida. Mas não sabia o que tinha acontecido à casa – o mais provável era ter ardido, e a autocaravana seria a sua casa a partir dali. Antes de fugir, soltou o gado. Filmámos, fotografámos. Fui escrevendo pequenos textos, dois ou três parágrafos cada, nas notas do telemóvel, e enviei ao João de Almeida Dias, que estava na redação a acompanhar tudo em direto. A rede já era pouca, mas ainda deu para enviar três ou quatro textos por SMS ou pelo Messenger, que ele publicou no site. O ângulo: o fogo está a chegar a Figueiró dos Vinhos e não há bombeiros.

Não sabíamos onde tinha acontecido tal acidente. Da redação, pediam-nos uma reportagem com texto e fotografia. A rede, em toda a região, mal servia para enviar uma mensagem, quanto mais para enviar fotografias. Decidimos procurar então um sítio onde conseguíssemos contactar o jornal. Subimos, subimos, subimos, e acabámos por chegar à serra da Lousã, onde enviámos as fotografias. Lá tomámos a decisão de seguir para Pedrógão Grande – onde outros jornalistas estavam – e lá organizar o trabalho. Ainda tentei escrever um texto no banco de trás do carro, mas as curvas e a falta de sono impediram-no. Eram 5h da manhã.

Sem saber, tínhamos sido os primeiros a chegar à estrada que ficaria conhecida como “Estrada da Morte”. À nossa frente, dezenas de carros carbonizados ocupavam a estrada, dispostos como se um grande acidente rodoviário ali tivesse acontecido. Cada carro estava a ser identificado com uma placa e uma letra. Os corpos ainda estavam a ser retirados dos carros.

João Francisco Gomes

Vindos de norte, seguíamos o caminho normal para Pedrógão Grande, e entrámos na nacional 236-1. Sem saber, tínhamos sido os primeiros a chegar à estrada que ficaria conhecida como “Estrada da Morte”. Passámos por um carro completamente carbonizado, parado na berma da estrada. Os pneus derretidos, os plásticos deformados, e o metal chamuscado. Mais à frente, outro, no mesmo estado. Uns metros adiante, a GNR estava a colocar fitas para fechar a estrada. Incrédulos, questionámo-nos: seria aquela a estrada de que se falava? Parámos e perguntámos o que tinha ali acontecido. Morreram ali dezenas de pessoas, responderam-nos. À nossa frente, dezenas de carros carbonizados ocupavam a estrada, dispostos como se um grande acidente rodoviário ali tivesse acontecido. Cada carro estava a ser identificado com uma placa com uma letra. E os investigadores da Polícia Judiciária, acabados de chegar após a extinção do fogo, vestiam-se e preparavam-se para recolher elementos daquele cenário. Os corpos ainda estavam a ser retirados dos carros.

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Fotografia de João Porfírio/Observador

Fotografámos, filmámos e recolhemos o máximo de informação que conseguimos dos agentes que guardavam o local. Como não podíamos avançar mais, tomámos um caminho alternativo e às 7 da manhã chegámos a Pedrógão Grande. Uma mesa de um café que tinha passado toda a noite aberta serviu de redação. Fiz um texto onde escrevi um primeiro retrato da estrada que ficaria conhecida como “Estrada da Morte” – e onde acabámos por ir ter quase por acaso – e em que descrevi tudo aquilo que se tinha vivido durante a noite e a madrugada em Figueiró dos Vinhos. O Júlio contou a história toda em vídeo. Aquela foi a primeira reportagem a sair no Observador sobre o incêndio, feita ao longo da primeira noite duma longa semana.

Entretanto, já se tinha percebido a dimensão da tragédia. A cobertura não ficaria por ali e seriam precisos mais recursos. O jornal mandou o Tiago Palma de Lisboa e o Miguel Santos Carrapatoso do Porto e antes da hora de almoço de domingo já estavam connosco. Naquele dia, começámos a escrever dezenas de textos que traçariam um retrato completo daquela semana: sobre as vítimas, os sobreviventes, as aldeias que perderam tudo, os funerais, os voluntários, os bombeiros. O Júlio ficou até domingo, eu até quarta. O João ficou a fotografar até domingo.

Antes ainda de vir embora, escrevi o texto que mais me impressionou e que mais me custou fazer. Fui ao cemitério de Vila Facaia, freguesia que perdeu quase 40 habitantes. Da noite para o dia, foi preciso abrir quatro dezenas de covas ali. Todos os funcionários da junta de freguesia foram chamados para ajudar, e todos acabaram por cavar as covas dos seus amigos e conhecidos. O seu relato é impressionante.

A viagem para Lisboa custou. Durante aqueles dias, tinha sentido pouco. A dor das pessoas com quem falava não passava para mim – achava eu. A adrenalina, a pressão de escrever e enviar, os nervos, não deixam um jornalista sentir, chorar. Só quando peguei no carro para fazer o caminho até Lisboa e liguei a rádio é que me comecei a lembrar de tudo o que tinha vivido desde que saíra da casa do meu primo a meio do filme para ir para o meio de um incêndio do qual quase não tinha ouvido falar naquela tarde. Quando cheguei a casa, li tudo o que tinha escrito naqueles cinco dias. E só aí chorei.

 

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Fotografia de João Porfírio/Observador

João Francisco Gomes e João Porfírio voltaram agora a Pedrógão Grande, quase um ano depois, em reportagem para o Observador. A sua passagem pela estrada que tanto os impressionou ficou relatada aqui.

Do século XVIII ao grande fogo. A pequena biografia da estrada a que chamam “da morte”

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João Porfírio e João Francisco Gomes, há dias, no local do grande incêndio.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.