A comunidade jesuíta era um retângulo discreto, bem inserido no tecido do bairro. Vivia-se ali com simplicidade, mas também com um ritmo próprio. O P. Mauki, superior da comunidade, era incansável. Sempre ativo, sempre atento a como aprimorar o serviço da comunidade. Ao seu lado, o P. Salvador Ferrão. Um sábio, um verdadeiro guru, e talvez o mais discreto de todos. O seu valor, profundo e enraizado numa caridade discreta, era por vezes desconhecido até pelos próprios irmãos. Amigo dos PP Belchior, João Caniço e Manuel Morujão, entre outros, era aquele com quem podia voltar a contar o mundo em português.
Havia ainda o P. James, empenhado na angariação de fundos para a escola, presença marcante pelas boas amizades que cultivava com muita gente da paróquia. Via-se nele um grande amor à Companhia e à Igreja que me chamava à atenção. O P. Kitui, por seu lado, era o canivete suíço da missão: fazia tudo o que fosse preciso, sem reservas. E o P. Pascal repartia-se entre o trabalho social e a pastoral nas jumuiyas, as pequenas comunidades cristãs. Às quartas-feiras, o fim de tarde era reservado à comunidade: pelas 18h00, reuníamo-nos para conversar com mais calma, à volta de uma cerveja ou duas.
As mulheres que são alma
Embora não fizessem parte da nossa comunidade, a sua proximidade era vital. Refiro-me aqui às irmãs da Misericórdia — presentes na pastoral, no projeto de tecelagem e no dispensário —, às irmãs do Loreto, que dirigem a escola primária, e à voluntária espanhola Lucía Samaniego, cuja bondade e entrega discreta se fez notar tanto na escola como no orfanato e na própria paróquia.
Quero nomeá-las porque, na diversidade dos seus carismas e vocações, sempre jogaram um papel essencial. Se o P. Ferrão podia ser visto como a alma da comunidade — e era-o, com a sua presença constante e disponível —, estas irmãs e a Lucía eram, não poucas vezes, a alma viva desta vasta rede de obras. Porque viviam com uma proximidade radical, enraizadas no chão do bairro, no ritmo das casas, nos rostos concretos. Nelas reconheci, sem hesitação, um sinal claro da proximidade do Evangelho de Jesus.
Missas, encontros e uma pergunta
Integrar-me nesta vasta rede pastoral começou com o que é mais simples: celebrar a Eucaristia e entrar no ritmo do conselho pastoral. Durante a semana, às sete da manhã, saía para celebrar missas em inglês fora da igreja principal: com as irmãs da Misericórdia, na escola primária das irmãs do Loreto, no dispensário…
Foi num desses dias que, por mero acaso, um padre da casa se esqueceu de celebrar para uma comunidade recém-chegada: as irmãs Escravas de Maria. Pediu-me que fosse no seu lugar. Pús-me a caminho. E ali começou uma das relações mais significativas deste tempo. Duas irmãs chilenas e treze jovens quenianas, entre noviças e postulantes. Terminada a missa, convidaram-me para jantar. Era o dia 5 de maio.
A conversa foi longa e boa. As irmãs tinham acabado de chegar a Kangemi. Na comunidade anterior, a relação com o pároco fora tão difícil que a única queniana da congregação tinha abandonado a ordem. Agora, num tempo novo, viam renascer vocações, renascia alguma esperança. A nossa paróquia acolhera-as com gratidão, mas a verdade é que ainda não tinham missão. Queriam servir, mas não sabiam como nem onde. Saí daquela noite com a terra vermelha agarrada aos sapatos e a pergunta agarrada ao coração: que posso fazer?
Lembrei-me de uma conversa recente com o P. Mauki. Perguntara-lhe se havia algum serviço de Exercícios Espirituais na paróquia. Disse-me que não. Aquilo ecoou. E a pergunta transformou-se em inquietação: será que há aqui espaço para os Exercícios?
Exercícios espirituais no meio da poeira
À medida que os dias passavam, a graça do exame tornava-se mais viva, mais concreta. Não como uma técnica de organização interior, mas como uma sensibilidade fina para captar a presença de Deus nos pequenos gestos do quotidiano. E quanto mais consciente dessa presença, mais ativo me sentia no trabalho, mais livre e mais presente ao presente.
Foi nesse tempo que comecei a sentir com clareza que os Exercícios Espirituais de Santo Inácio podiam ser um caminho interior precioso para este povo. Um caminho não de fuga, mas de fortaleza. Não de teorias, mas de vigor. Se estas pessoas não têm meios para fazer Exercícios numa casa de retiros como Mwangaza, então os Exercícios têm que vir até elas. Para que nelas também se fortaleça, passo a passo, uma liberdade interior capaz de resistir à dureza da vida que enfrentam todos os dias e sonhar com largueza.
Comecei a sentir com clareza que os Exercícios Espirituais de Santo Inácio podiam ser um caminho interior precioso para este povo. Um caminho não de fuga, mas de fortaleza. Não de teorias, mas de vigor. Se estas pessoas não têm meios para fazer Exercícios numa casa de retiros como Mwangaza, então os Exercícios têm que vir até elas.
Uma tarde, uma irmã levou-me a visitar um rapaz. Sofria de epilepsia e vivia completamente reduzido aos dois metros quadrados da sua casa. A mãe cuidava dele dia e noite, enquanto o pai ia diariamente à cidade, trabalhando à jorna. Ao olhá-los com atenção, senti-me muito pequeno. Tão pequeno como diante do pão e do vinho consagrados. E, logo a seguir, fui invadido por uma convicção: gostava de fazer alguma coisa para que os Exercícios cheguem aqui. A força interior que eles despertam é alimento urgente.
Voltei a falar com o Mauki. Falei depois com as irmãs Escravas de Maria. Propus-lhes que fizessem os Exercícios segundo a modalidade do Caminho do Coração, da Rede Mundial de Oração do Papa. Se sentissem que esse caminho era para elas, poderiam vir a oferecê-lo na paróquia. Escrevi a proposta, apresentei-a e foi aprovada. As datas disponíveis eram apenas duas: 12 e 13 de junho. Aceitamos e, mais tarde, o retiro aconteceu com muito fruto.
A consolação foi grande. Mas mais consolador ainda foi o que se seguiu: as conversas preparatórias, os encontros, os sonhos que começaram a nascer em torno desta possibilidade. O que começou com um esquecimento transformou-se numa das mais belas sementes plantadas neste tempo. Asante Bwana! (Obrigado, Senhor)
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.