Quando 1% da felicidade implica mudar os outros 99%

Joana Gomes está no Chade com o Serviço Jesuíta aos Refugiados a dirigir projetos de educação em três campos de refugiados. Uma mulher de vida cheia que hoje, Dia Internacional da Mulher, foi uma das "Voices of Faith" a dar o seu testemunho de mulher cristã em Roma. Reveja aqui a sessão.

Joana Gomes está no Chade com o Serviço Jesuíta aos Refugiados a dirigir projetos de educação em três campos de refugiados. Uma mulher de vida cheia que hoje, Dia Internacional da Mulher, foi uma das "Voices of Faith" a dar o seu testemunho de mulher cristã em Roma. Reveja aqui a sessão.

A ideia é totalmente clara e assumida e Joana enuncia-a como se representasse o movimento mais simples do mundo: trocar o certo pelo incerto. Foi isso que fez na sua vida, ao deixar um ambiente confortável em Lisboa – com emprego, casa, carro, família, amigos e paz – para ir trabalhar para o Chade, onde há escassez de recursos mas também de afetos, muita pobreza, além do calor e do pó. A explicação, nas suas palavras, soa a óbvio: “Sentia-me 99% feliz, era tudo quase perfeito, como diz a sociedade. Mas faltava o 1%. E não era uma questão de adicionar mais 1% mas sim mudar os outros 99%”, contou numa sessão organizada pelos jesuítas em Lisboa, onde o Ponto SJ marcou presença. Hoje, ao ser responsável pela educação em três campos de refugiados no Chade, um deles com mais de 20 mil pessoas, Joana Gomes sabe que fez a opção certa, que está “onde tem de estar” e a fazer o que Deus quer.

É a radicalidade desta experiência, enquanto coordenadora de projeto do JRS internacional (Serviço Jesuíta ao Refugiado), que vai testemunhar hoje em Roma, no Dia Internacional da Mulher. Convidada para ser uma das vozes da iniciativa “Voices of Faith”, Joana Gomes vai integrar o grupo de mulheres católicas que se destacam no mundo pelo apoio aos mais frágeis e pela defesa da dignidade humana. A cerimónia vai decorrer na Cúria Geral dos Jesuítas, em Roma, e não no Vaticano, como tem acontecido nos últimos anos.

www.voicesoffaith.org
www.voicesoffaith.org

A jovem de 29 anos conta à Rádio Renascença que a sua presença neste encontro aconteceu porque o diretor internacional do JRS sugeriu o seu nome, mas adianta que vai aproveitar a oportunidade para defender uma voz mais ativa das mulheres no seio da Igreja, principalmente na tomada de decisões. E também para pedir à própria Igreja que seja “mais audaz nos convites que faz” e que recuse a ideia de que há “uma felicidade formatada” para as mulheres, que passa por casar e ter filhos. “Eu acho que a Igreja tem de ser mais convidativa, dizer ‘és uma mulher, não tens de ser freira para ires trabalhar pelos outros’, não tens que abdicar de um caminho, que mais tarde até pode ser um caminho de família, se agora neste momento queres ter um caminho de missão”, afirmou à jornalista Ângela Roque.

Joana não precisou propriamente de um convite para mudar de vida e dar espaço à inquietação interior que vinha sentindo. Pelo contrário. Foi ela própria que decidiu traçar o seu caminho, ir à descoberta da sua vocação que, a certa altura, pensou poder passar pela vida religiosa. Primeiro foi para a Sicília, onde esteve quase um mês a apoiar migrantes que tinham acabado de cruzar o Mediterrâneo, movidos pela esperança numa vida na Europa mas carregados de sofrimentos e traumas. “Nessa experiência percebi: quero estar no terreno com esta população”, conta. Depois voltou para o seu trabalho como técnica no gabinete social do Colégio São João de Brito, da Companhia de Jesus, onde trabalhou durante cinco anos. Mais tarde, tirou um ano sabático e voltou à Sicília, para contactar novamente com refugiados. No regresso, foi bater à porta do JRS internacional, disponibilizando-se para ir trabalhar para qualquer lugar, num espírito de total abnegação. Foi-lhe explicado que o destino podia ser um país em guerra, mas Joana estava disposta a tudo, sublinhando: “mais do que medo de morrer, tenho medo de não viver”.

A chegada ao Chade, em janeiro, foi impactante. O francês que escutava era imperceptível, as condições que a esperavam eram muito diferentes das que estava habituada  e todos a olhavam como se fosse um bicho raro. Ainda hoje, um ano depois de estar no Chade, conta que as crianças ainda lhe tocam com estranheza, olhando de seguida para as mãos para ver se ficaram manchadas pelo seu tom de pele.

O seu trabalho passa por duas cidades, Gozbeida e Koukou, onde coordena os projetos educativos do JRS em três campos de refugiados, abrangendo 15 mil alunos, 240 professores e 36 escolas. Mas no total, são 12 os campos de refugiados na fronteira entre o Chade e o Sudão cheios de deslocados que fugiram da guerra do Darfur há mais de dez anos e ali reconstruíram a sua vida.

As aulas de crianças e adultos são ao ar livre, não há mesas nem livros, as crianças escrevem no chão e o processo de aprendizagem passa pela repetição. O desafio é convencer os pais a enviarem os filhos para a escola, pois a educação não é uma prioridade da família. “Estou sempre a dizer-lhe que a educação não é uma responsabilidade da mulher, mas da comunidade. Por isso, as crianças não podem estar a trabalhar na hora de ir para a escola”.

A pouca valorização das crianças é algo ao qual não se consegue habituar, confessa, relatando um dos episódios que mais a marcou neste ano de trabalho em África: um bebé de dois meses com um braço amputado pelo pai na sequência de uma ferida. “As crianças não são bem cuidadas. Ali a vida é tão volátil que qualquer um pode adoecer e morrer. Pelo que não há um investimento na vida”, afirma.

A ação das organizações não governamentais no Chade, integradas na missão do ACNUR (Agência da ONU para os Refugiados) começou com a crise do Darfur mas passada a emergência, entrou na fase de desenvolvimento. Muitas ONG’s, entre as quais o JRS, preparam agora a sua saída, à medida que os financiamentos também vão diminuindo, e o enfoque da ação nestes últimos tempos vira-se para a capacitação da população. Há projetos de criação de pequenos negócios que ajudem a sustentar financeiramente as escolas e também de formação e sensibilização das mulheres. “Não sou muito feminista mas aqui sinto que tenho de o ser e de lutar pelos direitos das mulheres. Temos de as capacitar para serem autónomas, pois são elas que fazem tudo. Os homens não fazem nada, estão sempre à sombra da bananeira.”

Ao fim de uma experiência de um ano, Joana Gomes esteve em Portugal para passar uns dias, em janeiro. Mas foi convidada a renovar a sua missão no Chade e aceitou, embora acredite que, mais tarde ou mais cedo, o seu trabalho possa passar por outros cenários, até de guerra.  A aprendizagem que traz desses meses em missão passam pela simplicidade e o contacto com o essencial. “Trata-se de aceitar o pouco com que se vive, seja material ou afetivo. Mas também ver que as pessoas não têm muito mas são felizes”, confessa Joana, que já ia preparada para esta experiência. Aqui vive-se ao ritmo da natureza e das estações do ano – o relógio que dita as rotinas é o sol- e aprende-se a esperar.

O balanço do trabalho no terreno, mas também na interioridade, é muito positivo: “Foi um ano espetacular, e nunca pensei ter os meus dons a render tanto. Embora também tenha passado momentos difíceis, de profunda tristeza e solidão onde me apeteceu fazer as malas e vir embora”. Nessas alturas, agarrou-se a Deus (fez exercícios espirituais) e teve a certeza de que a sua missão continuava a passar pelo Chade.

A convivência entre crentes de várias religiões, nomeadamente cristãos e muçulmanos, é outra riqueza que destaca, acrescentando que há um profundo respeito pelas crenças e práticas religiosas de cada um. Algo que se concretiza, por exemplo, numa exigência laboral menor aos muçulmanos na altura do Ramadão, em que o jejum desencadeia algumas limitações físicas. No sítio onde vive há cerca de 200 católicos, com que vive a celebração da palavra ao domingo, uma vez que nem sempre há eucaristia. “Às vezes penso: como é que aqui, não meio do nada, há gente que conhece Deus?”

 

Siga a sessão em direto: