Nós, Igreja, como promotores de Esperança e construtores de Fraternidade

Se todos somos Igreja, façamos das ideias do Papa Francisco ideias para o bem de todos.

A afirmação seguinte é verdadeira. A Liberdade-Universal, a Igualdade-Universal e a Fraternidade-Universal são possíveis, se (e quando) quisermos! A afirmação anterior é falsa.

 

Começo com uma adaptação do paradoxo mentiroso. Procuro introduzir neste texto a contraditória era em que vivemos e a dificuldade em aceitar a liberdade, igualdade e fraternidade como direitos humanos universais. Para todos. Para sempre. Nos últimos meses, tenho pensado na responsabilidade social das nossas sociedades perante a falta de liberdade, a desigualdade social e económica e de como a ideia de fraternidade se extingue (tão facilmente) na fronteira dos nossos interesses pessoais.

Tal como a Geração de 70 do século XIX, também a minha geração sonhava mudar Coimbra, Portugal e o mundo. Não conseguimos. Não conseguimos ainda? Parece-me, como canta JP Simões, “que a minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou, já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou, ou então morreu; já se acabou”. Alguns dos meus companheiros de geração, felizmente poucos, já migraram para a eternidade. Muitos aburguesaram os seus ideais e tantos, demasiados, deixaram de sonhar. Será que mudar o mundo continua a ser possível? Talvez sim, mas só se conseguirmos recomeçar a sonhar. Se acreditarmos que um mundo melhor é (mesmo) possível.

No dia de hoje estou muito pessimista quanto ao futuro comum. Estamos numa verdadeira guerra contra a indiferença social generalizada. Uma guerra fria de todos contra alguns e de alguns contra todos. Como assimilar a desigual distribuição da riqueza no mundo em que uma mão cheia de pessoas tem nas suas mãos a riqueza toda do mundo? Como compreender que não se nasce livre e igual, não se vive num mundo de iguais oportunidades, não se morre entre iguais? Como explicar aos nossos filhos que os meninos e meninas do fim da rua não moram todos na rua do fim da esperança. Num mundo que nunca foi tão pequeno, em que a fome nunca esteve tão perto de poder ser vencida, em que a Educação é unanimemente reconhecida como “a solução”, como perceber que as próximas gerações de tantos lugares estejam ainda condenadas a ser vencidas pela vida? Como entender que há crimes de opinião que possam ser punidos com a perda da vida? Como aceitar a inevitabilidade da morte por doenças que têm cura apenas porque o direito de acesso à saúde é contingente se não tivermos dinheiro? Como compreender que há vacinas para tantas doenças evitáveis, mas não conseguimos construir uma logística que permita a sua distribuição global? Como não estar pessimista?

Como compreender que não se nasce livre e igual, não se vive num mundo de iguais oportunidades, não se morre entre iguais?

Nestes tempos de pandemia, interiorizámos a ideia da necessidade do distanciamento físico, da impossibilidade dos abraços, das bolhas anti sociais em que o vírus nos exilou. Chegados a novembro damo-nos conta de que 2020 nem chegou a ter primavera, mas foi tão só inverno social. Todos os dias foram frios e sem calor humano. Ficámos, mais do que nunca, expostos a decisões políticas tantas vezes tolas e quase sempre pouco estratégicas. O saber científico tantas vezes desvalorizado pelos decisores políticos não se tornou saber comum mas, ao contrário, permaneceu elitista e pouco democrático. Só alguns sabem, só alguns podem, só alguns mandam. Um pouco por todo o globo, o multilateralismo, única forma de resolver problemas sociais complexos globais (como a fome ou a pobreza), foi ameaçado de morte e o nacionalismo primário parece tomar conta dos eleitores (quando estes existem). Não existem nacionalismos benévolos, nem de esquerda nem de direita. Nenhum nacionalismo é funcional. O nacionalismo é sempre excludente e separatista, afasta e isola. Mata por egoísmo e elitismo. Separa através de fronteiras sociológicas e de preconceitos e estereótipos difíceis de contrariar.

Tudo isto a propósito da emoção que senti ao receber a Carta Encíclica Fratelli Tutti que o Papa Francisco nos escreveu com o tema da fraternidade e da amizade social. Mostrando liderança e atualidade, o Papa Francisco desconstrói a ideia de fronteira, descoloniza o nosso pensamento sobre o “outro”, reitera a sua preocupação sobre a existência de um egoísmo demográfico em muitos países do Norte e de um desligamento dos problemas reais que existem nos países do Sul. Ao mesmo tempo, reintroduz humanidade no pensamento cristão, pugna por uma igualdade de género e clama pela universalidade dos direitos humanos. Ao voltar a falar de migrações dá-lhes um rosto humano, o de homens, mulheres e crianças que anseiam por uma vida melhor, e que não vêm para roubar nada, nem empregos nem identidades. Este primeiro Papa nascido no hemisfério Sul, devolve-nos, com esta encíclica, o Norte que nos tem fugido. E devolve-nos a possibilidade de sermos otimistas.

Este primeiro Papa nascido no hemisfério Sul, devolve-nos, com esta encíclica, o Norte que nos tem fugido. E devolve-nos a possibilidade de sermos otimistas.

Só agora percebo que a Liberdade-Universal, a Igualdade-Universal e a Fraternidade-Universal são (mesmo) possíveis, se quisermos! O primeiro teste à ambição de mudar Coimbra, Portugal e o mundo (que a temporada 2 da Geração de 70 em que me incluo deve almejar) é contribuir para a democraticidade e igualdade de acesso à vacina para a Covid-19. Começarmos por defender que em Coimbra, em Portugal e no Mundo não há exclusão de acesso em função da nacionalidade, do sexo, do grupo étnico, da idade, do grau de instrução ou de qualquer outro critério que possamos enunciar. Devemos contribuir para o financiamento e distribuição da vacina a quem a não possa ter de outra maneira. Financiar canais de distribuição e participar neles através de voluntariado ativo. Se cada um de nós doar (apenas) 1 euro por mês podemos alcançar os milhões necessários para uma operação de apoio ao desenvolvimento. Se soubermos liderar pelo exemplo seremos capazes de mudar o mundo. Se mudarmos um pouco, soubermos cooperar e abdicarmos de pouco mais do que nada, poderemos ter tudo. A Fraternidade não é apenas possível, mas essencial para que o futuro um dia chegue!

Chamo aqui à liça a Igreja para que lidere este movimento de construção de Igualdade, Liberdade e Fraternidade. No perímetro de influência moral e funcional da Igreja há organizações e instituições espalhadas por todo o mundo que devem ser convocadas para desempenhar o seu papel na angariação de fundos, na logística de distribuição e nas campanhas de vacinação ao nível local. Apelo ao sentido integrador e de ecumenismo que move o Papa Francisco para que seja possível agregar a este movimento todas as gentes de bem que compõem outras Religiões e Igrejas. Se todos somos Igreja, façamos das ideias do Papa Francisco ideias para o bem de todos.

Fotografia de Annie Spratt – Unsplash

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.