Instaladas as tão desejadas férias de verão, disparam, quase inevitavelmente, no painel do chamado “equilíbrio digital” dos ecrãs dos nossos filhos, os gráficos de consumo de tempo de redes sociais, jogos, internet. Dá que pensar: como era connosco, os que agora somos pais, quando tínhamos três meses de férias? Tendemos a relativizar e a balizar os comportamentos dos nossos filhos por aquilo que “eu também fiz” e não me fez mal nenhum. A verdade é que, neste campo, do uso desmedido da tecnologia, não temos comparativo. Todos nós temos um amigo ou primo que tinha as K-7 do Space-X, com o alucinante Prince of Pressia, mais tarde do Nintendo com 32 jogos, ou outras consolas semelhantes, que poderia acusar um certo nível de isolamento ou preferência pela tecnologia. Víamos também possivelmente muita televisão nas férias grandes, muitos filmes repetidos gravados em VHS, ou séries que passavam nos três ou quatro canais à hora certa. Não querendo entrar em saudosismos, recupero a memória para pensar na quantidade de semanas desocupadas que têm os nossos filhos.
A verdade é que nada do que a minha memória recuperou, sobre a ocupação do tempos nos anos 90, se compara com o ecrã que persiste e insiste em ser a extensão do corpo dos nossos filhos, em puxá-los em cada momento de aborrecimento, desde que abrem a pestana de manhã até que se decidem a fechá-la à noite, muitas vezes com o telefone na mão.
Os pais que, de alguma forma, já conseguiram estabelecer bons hábitos e rotinas no que diz respeito ao uso dos ecrãs em família, preocupam-se certamente com esta fase de férias, em que, associada à letargia própria dos adolescentes, potenciada pelo calor que os atira para o sofá, há uma enorme incapacidade de supervisionarem as horas a fio que estão agarrados aos ecrãs. Por muito boas conversas que tenham tido sobre o tema, implementado hábitos e rotinas durante o ano letivo, esta é de facto uma fase muito desafiante para o consumo de ecrãs.
Os nossos filhos precisam de se habituar a ser criativos na forma de ocuparem os seus tempos livres, resistindo à resposta de entretenimento e recompensa imediata dos ecrãs. As férias podem ser um tempo maravilhoso de desenvolvimento de competências e novas atividades que não têm oportunidade para desenvolver no período letivo.
Para isso, as crianças e jovens têm que se dar a oportunidade de estar aborrecidas. Só no aborrecimento, sem uma resposta rápida de um ecrã, se darão conta que têm um vizinho da mesma idade que gostaria de brincar ou jogar à bola com alguém – estarão a desenvolver competência sociais tão importantes; que podem aprender a cozinhar ou preparar alguma surpresa para a família – estarão a pensar no bem estar dos outros; que podem aprender a tocar um instrumento musical ou qualquer tipo de artes manuais com a avó, a tia ou vizinha (costura, tricot, ponto cruz, arraiolos) ou mesmo sozinho, desenho, pintura, olaria – estarão a trabalhar áreas tão importantes para o desenvolvimento do foco e concentração, controlo de impulsos, criatividade. Com persistência e objetivos estarão a desenvolver competências fabulosas que os ecrãs nunca lhes irão proporcionar.
As crianças e jovens têm que se dar a oportunidade de estar aborrecidas. Só no aborrecimento, sem uma resposta rápida de um ecrã, com persistência e objetivos, estarão a desenvolver competências fabulosas que os ecrãs nunca lhes irão proporcionar.
O tempo que os nossos filhos dispensam nos ecrãs importa, e importa também os conteúdos a que assistem. E aqui encontramos semelhança com a nossa infância: tal como não era indiferente vermos a Música no Coração ou o Rambo, também para as crianças e jovens de hoje não é indiferente verem, no recanto do quarto ou do sofá, conteúdos didáticos no youtube, ou seguirem um youtuber ou instagramer com ideias estapafúrdias e violentas, muitas vezes com conteúdos bastante sexualizados.
Cada vez mais estudos apontam para a relação entre o aumento significativo de jovens com comportamentos violentos* e o aumento de casos de violência de filhos e filhas contra os pais**, e o consumo abusivo de jogos e conteúdos violentos nos smartphones, causando problemas de saúde mental e sociais, como ansiedade, depressão, isolamento social, deterioração das relações pessoais e comportamentos agressivos**.
Para os pais trabalharem sossegados, precisam de não diabolizar a tecnologia, mas antecipar conversas sobre os temas que os preocupam – os perigos escondidos por trás de horas a fio nos ecrãs, dar regras e limites claros, passar informação útil sobre o seu desenvolvimento, potencialidades, e, se possível, promover alternativas de vida saudável na vida real. Adolescência há só uma!
* Uma meta-análise examinou 380 estudos que envolveram mais de 130.000 participantes, mostrando que a violência nos média causa comportamentos agressivos (Markman, 2010).
**Uso inadecuado de las TIC como factor de riesgo en la violencia filio-parental, Elisa González-Pérez, Alba García-Barrera e Isabel Martínez-Álvarez, Universidad a Distancia de Madrid 2024)
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
