Vunga Leve Leve – Escultura no Bairro da Boa Morte

O convite para participar numa residência artística em São Tomé vem-me acordar de um longo sonho: o de conhecer África através daquilo que mais gosto de fazer na vida: arte.

 

O convite para participar numa residência artística em São Tomé vem-me acordar de um longo sonho: o de conhecer África através daquilo que mais gosto de fazer na vida, a arte.

Os meus avós viveram em Moçambique e a minha mãe nasceu e viveu na cidade da Beira. Em casa contavam com saudade e muito pormenor histórias do que lá viveram e em mim ia crescendo a vontade de conhecer mais. Comecei então a pesquisar incansavelmente a música, a escultura e a pintura africana, em particular dos PALOP.

Desde criança que a minha escultura e pintura foram fortemente influenciadas por muitos artistas africanos: Malangatana, Chichorro, António Ole. Na música, a banda África Negra sempre foi, ainda antes de visitar São Tomé e Príncipe, uma das minhas grandes referências musicais.

Sem hesitação aceitei o convite e desenhei de imediato duas propostas para o projeto de arte pública “Qua Luxan Non” no Bairro da Boa Morte em São Tomé. Foi escolhida a proposta da grande cadeira de baloiço em que o seu encosto seria uma cena típica do bairro.

Fiz as malas, com mais ferramentas do que roupa, e voei. Aterrei, saí do avião e levei logo um abraço bem apertado do clima quente e húmido, do verde da paisagem e do cheiro a terra, e que boa terra. Fui para a casa dos Leigos para o Desenvolvimento, que alberga os voluntários em missão, com os quais fiz amizade, convivi e viajei por São Tomé durante a minha estadia. Nos primeiros dias, comecei por conhecer um pouco da cidade de São Tomé, encontrei um concerto espontâneo na rua, assisti a uma peça de teatro Tchiloli, visitei o centro cultural CACAU, etc.

No projeto participavam também os artistas santomenses Geane Castro, Demilson Sousa, Nilton 700 e Gualter Lopes, novos amigos e talentosos artistas com os quais trabalhei no mesmo atelier.

Reunimos para apresentarmos as nossas propostas artísticas e visitámos o Bairro da Boa Morte para mapear e entender onde seria a localização de cada obra. A Boa Morte é um bairro periférico da cidade de São Tomé onde se nota a mão de obra dos próprios moradores, desde as vedações de cactos ou chapas presas com pregos e anilhas feitas de caricas até às suas casas coloridas..

No atelier começava-se a trabalhar, cortar ferro, soldar, cortar pneu, etc. Por vezes era normal acontecer um apagão de eletricidade de algumas horas que nos mandava ir passear a uma praia ou ir conhecer um pouco mais da ilha. Até as peças começarem a ganhar forma demoraram algumas semanas, mas tudo aconteceu dentro do prazo.

Houve ainda tempo para selecionar alunos de uma escola primária para participarem na criação da cena de bairro a colocar no encosto da peça de baloiço Vunga Leve Leve. Fizemos uma sessão de desenho, e outra de recorte de pneus. Bonecos, figuras, casas, chinelos, barcos, chapéus, motas saíram das cabeças e mãos dos miúdos que recortavam com enorme destreza os pneus com uma tesoura. Lá fora estava a peça de baloiço ainda por acabar e sem pormenores e já os miúdos estavam a baloiçá-la e a testar os limites da força e do equilíbrio.

As peças foram expostas primeiramente na entrada da CACAU, onde houve uma inauguração e um momento de dança e música de Tchiloli. Na inauguração no Bairro da Boa Morte, onde foram finalmente colocadas, foram construídas bases de cimento para destacar as peças e inseri-las no roteiro turístico do bairro.

 

João Mouro
Artista visual