“Vai o coração de quem fica…

…e fica o coração de quem vai.”

Assim se diz pela província de Benguela, quando uma grande despedida se aproxima. Não duvido que o ouviremos até ao derradeiro momento. Até lá, como preparar o cuidado dos corações de cada lado?

Para os voluntários LD que vão, vive-se o desejo de fechar bem o tempo no projeto e de aproveitar bem o que ainda falta com os que nos acompanham. Não esquecemos a continuidade de tudo, por isso também se vai preparando terreno para o próximo ano.

Para quem fica, há o receio de se aproximarem mais – já que isso torna a despedida mais dolorosa – e o desejo simultâneo de estar perto e de continuar a colaborar no desenrolar da Missão. Qualquer um destes cenários leva-nos a continuarmos juntos. A meu ver, é uma situação em que todos ganham: a Missão promove a aproximação e acaba por dar-nos tempo na companhia uns dos outros antes da partida.

O grande desafio: estar focado no presente.

Nesta altura, todos temos o fim no horizonte dos nossos dias. É fácil dizer que não o devemos fazer – não devemos cair na tentação – de mantê-lo tão presente: só atrapalha o agora. Mas é difícil viver este tempo como se ainda tivéssemos muitos meses pela frente – já não os temos…

O que temos, é o agora. E como são poucos os afortunados com o milagre da bilocação (nem há DeLoreans adaptados como máquinas do tempo), vivemos uma coisa de cada vez. Já sabemos que devemos sempre estar prontos para o imprevisto. Enquanto ele não vem, há que deixar-nos saborear cada momento que ainda recebemos por cá, sabendo que passam depressa e que só voltam em memória.

E é na memória do coração que nos levamos uns aos outros. Por isso, fica o coração de uns e vai o de outros. Porque sei que o recordar todas as pessoas com quem se foi construindo relação inspirará força e coragem para o presente e esperança para o futuro.

Um futuro com o qual mal posso esperar por partilhar os corações dos tantos que ficaram com o meu.

 

Sofia Byrne

Ganda (Angola), 2025 – 2026