Cresci a saber que os meus avós tinham vivido em Angola com o meu pai, que o meu tio tinha nascido por cá e que a minha tia Maria da Graça tinha falecido muito jovem por estas bandas.
Talvez pelo peso da perda e pelo processo de retorno, este país, que tantas maravilhas tem, não me tenha sido transmitido com a maior leveza. O peso da história familiar tornou a narrativa distante, ocasionalmente falada e quase sempre segredada. Cresci com pouco mais do que o imaginário, com um encontro ou outro de retornados e com saudades de uma terra que nunca tinha conhecido. O que não imaginava é que, quase 70 anos depois do meu pai, seria enviada para Angola.
Estar em missão foi, muitas vezes, confrontar-me diretamente com a realidade da minha própria vida em Portugal. Por vezes, o chão é igual ao da casa dos meus avós, em Malhadas, Miranda do Douro; outras vezes, as cozinhas que encontro por cá e as panelas completamente manchadas de preto, comidas pelo fogo, são tal e qual como a cozinha escurecida onde a minha avó cozinhava na lareira. As picadas e os buracos na estrada, ao chegar ao Alto Catumbela, lembram-me o caminho sinuoso para chegar à vinha; o capim seco, típico dos meses sem chuva em Angola, faz-me recordar os passeios de bicicleta por zonas completamente desabitadas em Trás-os-Montes.
Aqui em casa lavamos a louça em duas bacias; aliás, há bacias e baldes gigantes para reservar água, em todo o lado! Em pequena, isso dava-me tantos nervos; agora agradeço todos os baldes e baldinhos! Na província de Benguela, a língua nativa é o Umbundu; em Miranda temos o Mirandês. O Alto Catumbela, no planalto central angolano, está distante de Luanda, a cerca de 13 horas de autocarro; o sentimento mais agridoce que guardo da infância eram as 10 horas de viagem até à aldeia, no planalto mirandês.
Estas não são as únicas semelhanças. Compreendi melhor a minha avó Engrácia: a mulher que estudou pouco, mas que manteve o negócio; a mãe e esposa que carregou a família entre dois países; a mulher que enterrou o marido e as filhas. Obviamente, a minha avó não é a única e aqui não retrato nem metade dos seus grandes feitos. Destaco-a porque, em cada Mamã, em cada Tia e em cada Avó do Alto Catumbela, vejo o rosto da minha avó. Vejo mulheres cuja força é um dom, cuja dor se transforma em luta, mas que vivem muitas vezes à margem; mulheres que segredam aos ouvidos dos maridos a resposta certa, mas permanecem nas sombras.
À mulher tudo se exige: que eduque as crianças até chegarem à primeira classe; que mantenha a casa limpa; que vá buscar água; que prepare as refeições; que vá à lavra; que regresse para vender a colheita na praça; e que dê à luz, tantas vezes quanto o Senhor quiser.
E talvez seja por isso que, em tantas mulheres que conheci por cá, continuo a ver a minha avó. Reconheço nelas uma força que me é familiar. Uma forma de cuidar, de resistir, de carregar mais do que aquilo que seria justo e, ainda assim, encontrar espaço para acolher e continuar — a derradeira luta não armada. A minha avó contou-me sobre este país, mas foram as mulheres e as meninas de cá que me ajudaram a compreendê-lo.
Mesmo antes de partir, no aeroporto, fui ao ouvido do meu pai e, baixinho, de voz embargada, agradeci-lhe por me dar Angola. Não me deu grande bola: mandou-me embarcar. E ter juízo! Quase um ano depois, agradeço a muitas mais pessoas por me darem a conhecer este país incrível.
Por muita preparação que haja, nunca se compreendem verdadeiramente todas as camadas que compõem uma vida em Angola até começarmos a viver a nossa, como Leigos Missionários. Temos o privilégio de viver no campo, no interior, e de conhecer um país tão diferente daquele que a maioria conhece. Aquele que ainda não entra nos roteiros turísticos, nem no imaginário dos que estão mais distantes. E talvez seja precisamente por vivermos aqui, tão perto e tão dentro, que conseguimos reparar na beleza que, de tão quotidiana, facilmente passa despercebida.
Aquela beleza que não cabe muito bem em fotografias e que é difícil explicar a quem nunca a viu. Está nas montanhas e nas pedras gigantes do caminho para o Alto Catumbela. É notória às 16h30, quando toda a gente sai das lavras, de bebés nas costas ou pela mão, de sacas à cabeça e enxadas em equilíbrio, também na cabeça! Está nas praças, às 17 horas, quando todas chegam, umas para vender, outras para comprar. Está nos sábados, quando tanta gente se dedica aos serviços pastorais, e aos domingos, quando se veste a preceito para a Missa.
Está na mudança constante da vegetação entre a Ganda e Benguela, nas estradas intermináveis, nos embondeiros que escondem os kimbos, nas Mamãs que vendem pão, maçaroca e frango assado, múcua e carvão à beira da estrada. Está na chegada a Benguela pela Baía Farta e no mar que banha a cidade.
É a beleza que se reflete nas pessoas, nos sons, nas palavras, nos cheiros, nas rotinas e em todas aquelas coisas que, sem perceber, se foram tornando parte da minha vida.
Depois há a beleza da cultura, profunda e com muitas camadas.
Angola foi um país de reinos, de uma rainha e de reis. É a junção da política atual com o poder tradicional, na figura dos sobas, e com as línguas nacionais. São as talas, as minas tradicionais e os kimbandeiros, que ainda me custa compreender. São os Tshinganji, que vi numa única ocasião e cuja presença desperta tanto medo como profundo respeito. É saber que a espiritualidade não se esgota nas religiões; é uma questão de ancestralidade, de identidade, memória e pertença.
É saber que cada pessoa tem um nome de registo e um nome de casa, que vais ter de decorar os dois, e que o problema de um indivíduo é problema de toda a família. Que se vão sentar os mais velhos, conversar e decidir a melhor solução.
É também a cultura que se veste. São os panos Pindali, a Samakaka e tantos outros, com as suas cores e padrões, presentes tanto nas celebrações como no dia a dia. O pano é muito mais do que aquilo que se veste: é ferramenta. Serve para transportar bebés, para carregar coisas às costas, para guardar pertences, para proteger da sujidade, para limpar o que for preciso. São as missangas que embelezam e adornam as mulheres.
É saber que a História não desaparece, que a guerra muda vidas, condiciona sonhos e que tudo influencia a cultura. Que o passado e o tempo presente convivem lado a lado, na música e na dança.
É a memória coletiva, que não vive apenas nos livros, mas nas pessoas. É saber o que veio antes, quem são os mais velhos e que histórias carregam consigo. São costumes e saberes que atravessam gerações, que se contam e se repetem. E que hoje também vivem em mim, porque há lugares que conheço, pessoas de quem já sinto saudades, casas que me acolheram. Não deixa de ser o lugar onde a minha família viveu, mas começa a ser o País onde eu vivi.
Filomena Raposo
Ganda (Angola), 2025 – 2026
