Conforme vão passando os meses em missão, vai-se aprofundando em simultâneo a nossa integração na comunidade. E, quanto melhor vou conhecendo as pessoas, mais cresce em mim o desejo de levar um pouco da maneira de estar e relacionar destes nossos queridos amigos.
Uma das coisas que mais me impressiona é a enorme abertura ao outro, a disponibilidade espontânea para o encontro. É raro cruzarmo-nos com alguém fechado em si mesmo… Há sempre tempo para um cumprimento, uma palavra amiga, tempo para saber como estamos. E, no nosso caso, por sermos de fora, há também uma curiosidade genuína, muito alegre e por vezes até atrevida em conhecer-nos, a par de uma vontade muito bonita de nos fazer sentir acolhidos.
Algo que inicialmente me surpreendeu e me deixa de coração cheio são as chamadas ou visitas de amigos apenas para “saudar”. Interações desprovidas de interesses que não o de estar com o outro, saber dele e desejar-lhe bem. Para nós voluntários, esta espontaneidade chega, por vezes, a ser desconcertante pelo pouco que estamos habituados a relações tão desprovidas e gratuitas!
Talvez o traço que mais se faça notar nesta abertura ao outro seja mesmo a prontidão para ajudar. Aqui, é difícil encontrar uma situação em que não apareça alguém disponível para dar uma mão. Ainda recentemente, numa altura de crise de combustível, víamos uma carrinha ficar parada numa das longas estradas do interior e, sem hesitar, o nosso motorista parou para a puxar até à cidade mais próxima, assumindo prontamente o gasto acrescido de combustível numa altura em que cada litro conta. Um gesto simples, entre tantos outros, que diz muito sobre esta disponibilidade em sair do próprio caminho para apoiar quem precisa.
Na nossa chegada a Angola, fomos apresentados sem demoras, quase como num ritual de passagem, à música “Não é peso. É meu irmão”. Com o passar dos meses, vou percebendo cada vez melhor que esta música explica muito daquilo que temos vivido: aqui, todos são considerados como irmãos (ou “manos”), e quando é preciso ajudar um irmão, não há “peso” a medir. Não há fardo que não seja superado pela alegria de poder ajudar.
Angola tem-me dado muito. Entre as experiências, aprendizagens e os laços que vão deixando marca, espero poder levar comigo esta forma de olhar o outro… Esta noção, simples na teoria mas exigente na prática: se somos realmente todos irmãos, como pode o outro ser um peso?
Martim Jervell
Ganda (Angola), 2025 – 2026
