Recentemente tive a oportunidade de fazer pela primeira vez a viagem entre o Alto Catumbela e a Ganda de “transporte público”. Sendo uma viagem neste meio algo que acontece raramente, torna-se uma das poucas ocasiões em que podemos conhecer algum dos tantos motoristas que, para ganhar o seu sustento, fazem diariamente este bonito troço pelo interior de Angola. Desta vez, esse motorista foi o Emanuel.
O Emanuel é um Gandense de gema, com muito orgulho e muito para contar sobre a sua terra. Apesar da dificuldade em conciliar o meu deslumbre com as paisagens do percurso, e a atenção ao que ele tinha para contar, fui aprendendo, entre outras coisas, sobre a riqueza agrícola do município e ouvindo histórias das suas viagens, nomeadamente até Benguela.
Quem já fez a viagem entre Ganda e Benguela, sabe que apesar de se percorrem pouco mais de 200km, o percurso pode levar até quatro horas devido ao estado da estrada. Esta condição exige, portanto, uma diligente preparação por parte dos viajantes – entre garantir níveis de combustível, óleo e pressão dos pneus –, e o Emanuel que o diga. Para além destes fatores, a aridez e falta de rede ao longo da maior parte do caminho são ingredientes que tornam esta jornada numa verdadeira “viagem secreta”, pelas palavras do experiente motorista.
O imaginário de viagem secreta remeteu-me de algum modo à minha experiência de vida em Missão. Também esta vivência tem sido uma viagem… O seu ponto de partida é claro, um coração que deseja amar e servir, de forma gratuita, onde for chamado. O caminho, apesar de profundamente belo, sabemos ter os seus buracos – dificuldades, imprevistos, expectativas não realizadas -, momentos de maior deserto – em que nos pomos em causa – e troços em que nos falha a rede do telemóvel – lugares em que sentimos de forma mais crua a distância do nosso conforto. O ponto de chegada, não sendo ele tão assinalável como a cidade de Benguela, confiamos ser uma versão nossa que se soube deixar tocar, que é mais humana, e traz consigo uma fome acrescida por um mundo mais justo e igual.
Se para o Emanuel as viagens até Benguela não dispensam de uma check-up técnico, para viver em Missão é indispensável acertar o passo com Deus, aprendermos com alegria a caminhar ao ritmo que Ele nos propõe. Como o carro pede combustível para andar, a Missão pede uma comunidade alegre, atenta e virada para fora. Como o carro pede óleo para proteger o motor, a Missão pede um cuidado delicado na caminhada espiritual: saber voltar à fonte que nos anima no Serviço. Como o carro pede a pressão certa nos pneus para seguir em segurança, a Missão pede serviço abnegado e paciente, capaz de acolher os inevitáveis imprevistos do caminho – naturais de qualquer viagem que vale verdadeiramente a pena.
A Missão tem por base um convite a trocar o certo pelo incerto, que, com a sua dose inerente – e quase inevitável – de mistério, traz consigo dificuldades pontuais: para quem parte, na tradução da experiência vivida, entre tantas novas caras, cores e sabores; e para quem fica, no tocar desde longe essa mesma experiência. Partilha-se, contudo, uma confiança firme no caminho e, sobretudo, n’Aquele que envia, sabendo que os buracos da estrada não impedem, mas ensinam a conduzir melhor: com mais delicadeza e confiança.
Martim Jervell
Ganda (Angola), 2025 – 2026
