Parti de Portugal sozinha. A Maria e o Martim tinham seguido viagem dias antes e a Sofia estava de férias, na transição para o seu segundo ano de missão.
Cheguei ao Aeroporto 04 de fevereiro, pronta para ser transferida para o novo aeroporto, Dr. Agostinho Neto, deparando-me logo com duas questões: a história de um país que finalmente começava a conhecer e um tal Bruno, que me vinha buscar.
Dizem que o Lobito é o postal de visita de Angola, para mim, foi este Bruno. Um homem que aos dias de hoje mal recordo as feições, mas de quem guardo a amabilidade, o discurso apaixonado perante as injustiças do país e um caminho de 40 minutos de não hei de esquecer. O Bruno, vim a perceber, é grande amigo dos Leigos, e é fascinante o quanto se lembra de cada um de nós (apesar de só nos ter visto uma vez), dos nossos nomes e como a cada chamada que lhe fazemos vai perguntando como estamos.
De Luanda não conheci mais nada. Passei horas num aeroporto novo e quase deserto, ora dormindo, ora falando com os(as) seguranças, que me anteviam a solidariedade, a proximidade e curiosidade de um povo que ainda não conhecia.
Dias mais tarde, cheguei à Ganda, no interior de Angola, a um quarto temporário, naquela que seria a minha casa durante o próximo ano. Bastante emotiva, pensava “um ano é tão grande… como é que vou fazer isto?”. Não me interpretem mal, sabemos exatamente o tempo que nos é proposto. Mas o primeiro dia do resto de um ano é… “duro” (como diz um dos meus coordenadores, a tudo o que se assemelha a um desafio)!
Surpresa das surpresas: um ano é tão pouco ao lado de uma vida inteira. O privilégio de aqui estar é tão grande, tão vivido, que transborda. Fica alojado numa parte de mim que comecei a descobrir em Angola.
Um ano é tão pouco ao lado de uma vida inteira em Angola.
Uma vida inteira de quem se consagra a Deus e serve este povo sem temor. A força dos Padres e Irmãs que conhecemos é incalculável. São enviados para os lugares mais remotos e tornam-se testemunhas vivas do Evangelho. Acompanham os jovens, acompanham mamãs e papás, os mais velhos. Ensinam, escutam, cuidam. Celebram missas de três horas, a um domingo aparentemente comum e, logo depois, apanham uma mota, metem-se em estradas de terra batida e seguem para lá das montanhas, porque a messe é grande.
Reabrem missões do século passado, percorrem quilómetros sem conta, conhecem nomes e histórias infindáveis. São missionários uma vida inteira. Vivem numa alegria serena, numa esperança que tudo alcança.
Um ano é tão pouco ao lado de uma vida inteira de quem vive no interior de Angola, que luta todos os dias e não se resigna.
São rostos, cujos nomes eram difíceis de decorar, e que hoje vivem nas minhas orações. São mães, pais e tios que se ganham e com quem um dia espero voltar a cruzar-me.
São homens que trabalham nas fábricas de eucalipto. Mulheres que vão à lavra e à praça, que cuidam dos seus. Os seus, que são uma comunidade inteira, independentemente da crença e dos laços de sangue. São tios e são mais velhos, cuja sabedoria não está escrita; é transmitida oralmente, de geração em geração. São crianças que me ensinam todos os dias o poder de brincar, mas que me apertam o coração quando os vejo entregues à sua própria sorte.
E são os jovens. Jovens da Casa Infantil, do Grupo João Paulo II, do Grupo Teatral Ombembwa, são os coordenadores do projeto que acompanho, os jovens da Ganda. Têm sonhos, expectativas e cuidam genuinamente uns dos outros. Vivem a vida com a realidade que conhecem, e podiam facilmente deixar-se vencer pela frustração de um país com tantas aassimetrias. Só encontro neles corações imensos, compassivos, generosos. Nesta sua capacidade de avançar e construir, são exemplos de resiliência e esperança.
Uma vida inteira de música, de semba no pé, de ritmo e de um “jeito alegre de chorar”.
Angola, Missão, são as pessoas, as suas vidas, conquistas e dores. É um amor tão real, tão visível, impossível passar-lhe ao lado.
Um amor sentido porque um dia, há 30 anos, chegaram a Benguela cinco Leigos, que deram início a uma história que continua a ser escrita. Um projeto tão duradouro que quem hoje nos recebe pode confundir os nossos nomes entre gerações de voluntários, mas sabe uma coisa: somos LD.
Somos os que chegam para integrar e criar raízes, família, amor, no seu estado mais bonito. Para caminhar lado a lado.
Dapandula (Obrigada)!
Filomena Raposo
Ganda (Angola), 2025 – 2026
