Uma das maiores aprendizagens que tenho feito, e que continuo a fazer, é acolher o inesperado. Aqui em missão, por mais que tenhamos um horário, uma agenda, tudo foge ao plano, à expectativa. Não deixa de ser importante planear, pensar como queremos usar o nosso tempo; dá-nos orientação, ajuda-nos a sonhar.
No entanto, por vezes há um apego excessivo a esses planos. E eu que o diga, que sou uma grande adepta de agendas, “to do lists” e planos. Cá não deixei de o fazer. Mas tudo me tem ensinado que bem podemos fazer “to do lists” intermináveis e planos distantes, que (quase) tudo sai ao lado. E que a verdadeira sabedoria está em saber acolher o imprevisível, aquilo que não estava na lista nem no plano. E que há beleza numa agenda com riscos.
Há uma rua concreta no bairro onde trabalhamos que está cheia de bancas e pessoas sentadas à beira da estrada. Tenho de fazer quase a rua toda para chegar a casa de algumas mulheres que acompanho. Acho que o meu instinto, e aquilo que tantas vezes fiz, era ir caminhando por essa estrada, gritando um “bom dia, como está?” aqui e ali. Ultimamente tenho compreendido a beleza de parar para dizer olá e acolher os encontros inesperados e as conversas que não estavam nos planos.
Se calhar agora demoro uma hora a fazer esta estrada. Mas é nestes encontros sem pressas, neste parar para estar e para ouvir, que está também a missão. Nesta aprendizagem sou muito desafiada a estar sem pressas, sem tempos limitados na agenda. Estar inteira e disponível para quem se cruza comigo e quer conversar, sem pensar em onde tenho de ir a seguir.
Para um verdadeiro serviço é preciso este estar. É preciso proximidade. Estar verdadeiramente para e com o outro. Dar a própria presença, o próprio tempo. Dar-se a si mesmo. É no estar e no ser, muito mais do que no fazer, que está o verdadeiro serviço. É a isso que somos chamados aqui em missão.
As pessoas cá têm sido grandes professoras nesta arte de estar inteira, de estar sem pressas. Cá não há campainhas; quando entramos no quintal de alguém grita-se “com licença”. Não é preciso avisar que vamos visitar, é só aparecer. E há sempre uma cadeira ou um lugar na esteira, um encontro sem hora marcada para terminar. As manhãs e as tardes vão passando sentadas numa cadeira ou numa esteira no quintal de alguém. Seja a conversar ou em silêncio, há tempo para tudo.
Depois há o Mestre do imprevisível e do inesperado. Penso em como Jesus tantas vezes se desviava do caminho para onde ia para curar alguém. Como tantas das Suas curas e milagres aconteceram a caminho de alguma coisa, vieram do inesperado, não faziam parte dos planos.
A abertura à surpresa, ao inesperado, é aquilo que permite acolher verdadeiramente tudo o que Deus nos quer dar, todas as surpresas e dons que tem guardados para cada um. Deixarmos que seja o Senhor quem nos conduz, quem guia os nossos passos. É Ele que nos convida a entregar-Lhe as nossas agendas e planos ambiciosos. A entregar-Lhe o leme do barco, que tantas vezes queremos agarrar força. E depois percebemos que a beleza e o verdadeiro descanso estão precisamente em largar o leme e entregá-lo Àquele que sabe o caminho.
No fim do dia, quando as surpresas foram tantas, aquilo que antes facilmente veria como um fracasso, um dia que saiu completamente ao lado, cá tenho aprendido a acolher com um coração agradecido. Descobrir que, muitas vezes, foi precisamente nos desvios ao plano que estavam os encontros mais importantes. E agradecer tudo isto ao Mestre do inesperado, que nunca deixa de me surpreender e não se cansa de me ensinar.
Mariana Ortigão
Tete (Moçambique), 2025-2026
