Um passo atrás para dar dois em frente

Para avançar com firmeza precisamos não poucas vezes de dar um passo atrás para dar dois em frente.

Cá pela Ganda e Alto Catumbela são muitos os momentos em que nos detemos a pensar como algumas vivências nesta nossa Missão funcionam como um regresso ao passado. Acordar ao som dos galos no quintal, incluir na alimentação frutos da nossa horta, ir diariamente buscar água à paróquia por falta de água corrente em casa, tomar banho com baldes de água fria, trocar os ecrãs por papel e caneta e, sobretudo, servir uma comunidade profundamente interdependente são experiências do nosso quotidiano que nos transportam a esse outro tempo.

Entre todas estas coisas que nos transportam ao passado, o que mais me tem encantado é o sentido comunitário que por aqui se vive de forma tão vincada. Por exemplo, no Alto
Catumbela, para irmos ao encontro de um amigo, em vez de ligar ou enviar mensagem (já que o mais provável é que do outro lado não haja rede ou saldo para responder), a melhor estratégia é irmos simplesmente bater à porta de sua casa. Se por lá não se encontrar ninguém, os vizinhos sabem quase sempre redirecionar-nos até quem procuramos, indicando onde foi e a que horas saiu, já que todos se conhecem e acompanham o dia a dia uns dos outros. Se por casa se encontrar esse nosso amigo, seremos seguramente acolhidos com uma grande alegria e hospitalidade, bem como com uma típica cadeira de plástico, convite discreto para nos sentarmos e nos sentirmos em casa. Já se procuramos alguém cuja casa visitamos pela primeira vez, basta perguntar o caminho a alguém da comunidade que se cruze connosco. Certamente saberão quem é, onde vive e o percurso mais indicado para lá chegar (melhor que qualquer versão de Waze ou Google Maps).

Dá que pensar o quanto podemos ganhar ao recuperar alguma da sabedoria daqueles que, antes de nós, souberam viver a partir desta simplicidade.

E se, num tempo em que a vida para tantos se mede pela eficiência e produtividade, voltássemos a recuperar a paciência e encanto pelos processos que exigem tempo e cuidado e, por isso mesmo, dão o fruto mais fecundo?

E se, num mundo em que temos tudo à distância de um clique e procuramos ser cada vez mais autossuficientes, nos deixarmos fazer depender mais de Deus e dos outros?

Num sentido mais amplo, mais do que um regresso temporal ao passado, para avançar com firmeza precisamos, não poucas vezes, de dar um passo atrás para dar dois em frente. A Missão tem-me convidado a arriscar esse passo – essencial para discernir a direção mais acertada a seguir, mas que requer a humildade e a liberdade de nos sabermos dependentes e de nos confiarmos totalmente no Senhor. Ele, como bom oleiro, vai trabalhando em nós e através de nós com a calma de quem não se deixa apressar pelo instantâneo, mas opta continuamente pelo que dá mais Vida, mais fruto, e, a Seu tempo, nos conduz a avançar dois, três ou até mais passos.

 

 

Martim Jervell
Ganda (Angola), 2025 – 2026