Saudades que vêm das entranhas

“‒ Você não tem saudades? ‒Claro que sim!! Muitas!!!”

Há uns dias, numa conversa em Praia Melão, constatava que já estou em São Tomé há muitos meses, e perguntaram-me se não tinha saudades de casa. A minha resposta foi imediata: “Claro que sim!! Muitas!!!”

De tanta gente e de tanta coisa! Daquelas saudades que vêm das entranhas, como diz a minha mãe, e que não dá para não sentir ou tentar enganar! Viver longe de casa e dos que amamos deixa sempre um espaço que não pode ser ocupado por mais nada nem ninguém! Escolhi estar aqui em missão, e voltaria a escolher, mas há sempre este mas…

São os bebés e crianças da família que estão a crescer demasiado rápido e que só vou acompanhando pelas fotos das mães babadas; as conversas com os pais e irmãos, cada um no seu quadradinho; as chamadas nos momentos de convívio alargado que só permitem vivenciar o grande ruído de fundo e uns acenos com beijinhos; as conversas por telefone com os avós e tios que nunca têm o mesmo tempo e a mesma calma; os abraços que ficam por dar; os programas suspensos com amigos, para saber novidades e recordar memórias; a liberdade dos programas a solo quando apetece; a boa comida portuguesa; o estar à mesa; o estar no sofá a existir em conjunto; o simples estar…

É normal sentir saudades! E é bom (sinal) sentir saudades! Mas também custa sentir saudades!

Depois, lembro-me que daqui a uns tempos também vou ter saudades de São Tomé e da vida em missão.

De algumas crianças que não vou ver crescer; de amigos com quem não voltarei a ter muitas oportunidades de estar; do carinho e alegria das irmãs e irmãos missionários; do trabalho de animação comunitária; até do ritmo leve leve que agora me consegue chatear, na hora de querer ver obra feita; dos convívios com boa música e boa dança; da boa comida santomense; do verde da ilha e da água quente do mar; da aleatoriedade e informalidade; da simplicidade e generosidade; da capela cá de casa, com o Senhor à distância de um corredor; de viver e conviver com os meus irmãos de comunidade LD; do simples estar…

Enfim, isto de ter casa em diferentes pessoas e lugares é tão bom, e é tão duro, e é tão bom!

 

Inês Rocha
Praia Melão (São Tomé), 2024-2026