Pequenas, Frágeis e Inacabadas

Sobre casas que acolhem e permanecem, mesmo frágeis, pequenas e inacabadas.

As casas sempre foram um tema frequente na minha família e, talvez por isso, quando cheguei a São Tomé, estas foram uma das coisas a despertar o meu interesse. Nunca tinha visto nada assim. Muito diferente do que estava habituada e do que poderia imaginar.

Casas de madeira altas, assentes sobre barrotes e pedras (aparentemente pequenas para o tamanho das casas). A fachada da frente normalmente composta por duas janelas, uma porta, um alpendre e umas escadas também de madeira. Por vezes, para garantir a preservação da madeira, são forradas de chapas de zinco normalmente vermelhas, ou então com algum tipo de padrão. Simples assim. Via estas casas e pensava em quão frágeis, pequenas e inacabadas são. Casas que rangem a cada passo, com um ar gasto, mas que se mantêm firmes. Afinal, o que é frágil também pode ser persistente e permanecer firme.

Muitas vezes são casas que parecem pequenas, que têm mais moradores do que espaço, que à primeira vista não acomodam quem lá vive, mas que na verdade têm sempre espaço para mais alguém, têm sempre espaço para acolher. Afinal, o que é pequeno também tem espaço para acolher.

Para além disso, são muitas vezes construídas à medida que se vai tendo recursos. Vai-se fazendo, não há demasiada pressa para concluir. Vai-se construindo. E o facto de não estar plenamente construída não impede que tenha vida, não impede de aproveitar o tempo da construção. Afinal, o que está inacabado tem mais espaço para crescer. Mas mais do que as casas, alegra-me e impressiona-me a vontade que a gente tem de nos mostrar as suas casas. A leveza com que abrem as portas sem cerimónias. Lembro-me da urgência que tenho em ter a casa limpa para receber pessoas de fora e da necessidade de ter as coisas arrumadas e no lugar. E depois, há estes contrastes de pessoas que não se inibem de nos mostrar as suas casas só porque estão “inacabadas” ou porque são “pequenas” ou “frágeis”.
Claro que já não é sobre casas que estou a falar, é sobre as próprias pessoas, e sobre mim. É sobre as lutas que vivem e que partilham com naturalidade, é sobre as suas vidas que não precisam de estar controladamente planeadas para serem vividas com alegria. E é sobre a descoberta que tenho feito sobre a minha “casa”, também ela frágil, pequena e inacabada, mas que permanece, que tem espaço para acolher e que está constantemente em construção.

Beatriz Bernardo
Praia Melão (São Tomé e Príncipe), 2024 – 2025