O Fiel Jardineiro

O que será um missionário além de um jardineiro diligente, trabalhando num jardim comum? Preparando a terra, semeando, regando, cuidando com atenção e zelo.

Foi para isso que me senti chamado quando vim para São Tomé – nada mais do que ser este servo disponível que com paciência vai pondo os seus dons a render, vai jardinando. Nos dias mais difíceis, em que o cansaço e outros obstáculos se impõem, resiste a preocupação em cuidar do jardim, das plantas que têm de ser estimadas. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Consinto bastante. Mas não basta nascer, é preciso crescer. Pois há tanto que nasce e morre sem dar fruto. Para não ficar por aí, é preciso que o sonho do homem seja construído pelas suas mãos, é preciso arregaçar as mangas.

Nós, Leigos, aspirantes a jardineiros, tentamos fazer isso mesmo por cá. E, felizmente, não trabalhamos sozinhos, pois seria impossível cuidarmos de todo este jardim comunitário. Trabalhamos com outros jardineiros de cá, mais habituados a esta terra e a esta flora. Cada um faz a sua parte, e quanto maior for a colaboração e o contributo de todos, melhores resultados sairão. E como é ser um jardineiro em Praia Melão?

Para quem ainda não conhece São Tomé e Príncipe, deve ter em consideração que o trabalho decorre a um ritmo ímpar daquele frenético que nos acostumamos em Portugal. Aqui, cada reunião que acontece é um sucesso, corra como correr e comece a que horas começar. Cada pessoa que se faz presente deve ser celebrada. Não o digo de tom pejorativo. Não se deve ver este facto apenas como uma característica cultural ou uma debilidade em termos de capacidade de trabalho. Seria uma visão redutora. Concretamente em Praia Melão, muitas das pessoas com quem trabalhamos são dependentes da pesca para colocarem comida na mesa. Os pescadores, com quem tenho convivido de modo mais próximo, só sabem se vão ao mar no próprio dia e nunca sabem quando voltam. Como eles me explicam: quem vai ao mar leva pouca coisa – uma garrafa de água, um GPS, material de pesca, coragem, mas nunca carregam pressa para regressar. Portanto, não há o “picar o ponto” nesta atividade laboral, não há horário de saída. Se tenho de reunir com um pescador há que, por vezes, esperar pacientemente na praia com os olhos no horizonte, à espera que a sua canoa se revele. Estes e outros desafios têm fortalecido a minha paciência e resiliência. E a fé de que as sementes hão de brotar, crescer e dar fruto faz-me cuidá-las.

Mas já hoje vejo rebentos! Em formas muito distintas, como naquelas pessoas que se abriram a nós Leigos, aquela palaiê (vendedora) que deu um passo em frente, aquele grupo de jovens pescadores que saiu do papel para o concreto, ou a associação que reuniu para planear o futuro. Os rebentos são pequenos, mas a alegria é muita. E a festa, como poderão constatar em testemunhos anteriores, não falta. Ser jardineiro em Praia Melão também é imaginar o jardim. Imaginar o que se pode plantar, o que ficaria melhor naquele canteiro, o que precisa de ser tirado, etc. Portanto, para além das tarefas diárias, o jardineiro também tem uma parte criativa, ou até estratégica.

Deixando as analogias de parte, de facto a casa da Madre Deus onde os Leigos habitam tem um bonito jardim que precisa, como qualquer outro, de cuidado. Apesar do tempo ser sempre escasso para os planos que idealizamos, tem sobrado algum que nos permitiu fazer uma pequena horta. Para já, tomates, alfaces, coentros, alhos e abóboras são os legumes que estamos à espera. A inspiração para este testemunho também surgiu do romance O Fiel Jardineiro, de John Le Carré. que me acompanhou neste último mês e que recomendo. Apesar de pouco ter que ver com jardineiros, inspirou-me a pensar na Criação como um jardim que precisa de ser estimado. E acho que nesta ilha cortada pelo equador tem de haver um grande jardineiro. Plantou boa fruta, instalou sistema de rega, pensou na posição de cada uma mesmo nos sítios mais remotos, e todas crescem em harmonia. Dá gozo passear neste jardim. Resta-nos contemplá-lo, fazermos a nossa parte para o manter, e admirarmos o seu Fiel Jardineiro.

Francisco Santos

Praia Melão (São Tomé), 2025-2026