Dizia estes dias que por aqui, na Ganda e no Alto Catumbela, me parece sempre Natal! E, quando o digo, tenho uma memória muito específica em mente. Ainda assim, ao refletir, percebo que desde que estou em Angola, há muitas situações e momentos que me sabem a manhã de Natal.
Não por grandes semelhanças com a quadra como a conheço, mas porque há momentos que guardam o mistério e a tranquilidade do dia em que o Menino nasceu. Um tempo alegre de espera – como o Advento.
Este pensamento tomou forma num dos muitos momentos em que ficamos à mesa, depois das refeições em comunidade, alongando-nos no tempo, tanto quanto este permite. Entretidos em grandes diálogos, discutindo tudo e nada. Nesta azáfama de conversas, o café e as bolachas torradas são indispensáveis!
Poucas coisas me parecem traduzir melhor o amor do Natal do que preparar uma refeição em conjunto ou, de fones nos ouvidos e sozinha na cozinha, fazer pastéis de polvo e bolachinhas para o chá. E, se alguma das iguarias leva canela, é rapidamente dia de Consoada, envolta não no calor da lareira, mas no calor da rua, e na tranquilidade da Beu, do Simão ou do Cani.
Nos dias e serões comunitários, em que reina a música e nos deixamos balançar ao som do Umbundu cantado, ou enquanto fazemos jogos de perguntas e nos dispersamos porque queremos discutir aquele tópico que nos provocou a todos — é também Natal.
É noite de Natal quando, ao rezarmos comunitariamente, colocamos a Sagrada Família ao lado de uma vela — uma chama suave, luminosa e pacífica, que recebe as nossas preces, temores e graças.
Quando somos imensamente bem recebidos e especialmente ajudados por Amigos e Padrinhos, o carinho e o amor que sentimos vindos destas pessoas fazem ecoar o cuidado próprio deste tempo e recordam-nos o grande amor que Deus tem por nós. Um amor que nunca nos desampara.
O Menino nasceu longe da cidade, na periferia, distante da luz e fez-se luz da humanidade. O Alto Catumbela é também assim: cerne da nossa Missão. É empolgante e, ao mesmo tempo, desafiante sair do Alto quase sem luz, apenas com umas luzitas aqui e ali. Umas vezes, grandiosamente iluminado pelas noites de Lua Cheia; outras, mergulhado num breu profundo, que permite ver as estrelas e as constelações mais bonitas.
Viver o Natal numa terra onde não há luz da rede significa que as luzes de Natal fazem parte de um imaginário distante. Por isso, é Natal sempre que estamos e servimos; quando nos damos e quando se dão a nós. Ao fazer memória de todos estes momentos, percebo que é neles que está a dita “magia do Natal”:
o Nos meus manos de missão, que no dia a dia trazem no coração a alegria de Jesus nascido.
o Quando, em vez de luzes, brilha o amor nas conversas longas.
o Quando, em vez do frio das manhãs, há o calor intenso das novas amizades.
o Quando, em vez da abundância da mesa de Natal, há um doce feito ao acaso numa tarde livre.
o E quando, em vez da correria da quadra, há o ritmo lento do tempo, que nos permite escutar, acolher e estar.
Filomena Raposo
Ganda (Angola), 2025 – 2026
