Namoro por cartas

Quem fica tem também a sua missão, e que missão! 

Estar em missão tem sido viver intensamente o dia a dia, vivendo as histórias e ouvindo o testemunho das pessoas. Tem sido “morrer num dia para ressuscitar no dia seguinte”, citando um professor amigo. Nalguns dias, caio na tentação de viver muito o momento presente e a comunicação com a família, amigos e namorado, que vão sendo parte da missão de tantas formas, é menos cuidada do que gostaria.

Por outro lado, há outras formas de comunicar à distância e é uma aprendizagem ir valorizando formas criativas de fazer chegar as notícias a outro continente (sem ser apenas por telefone, que já tanto facilita a comunicação). É bonito o investimento em diferentes formas de comunicar e cuidar, como saber que, se alguém nos vem visitar, trará na mala uma carta e pequenos presentes no interior do envelope (como pacotes de gomas, que trazem sabor a casa).

Namorar à distância tem sido partilhar o dia, mesmo quando é tão diferente, e saber que do outro lado há sempre acolhimento. É enviar, por vezes, as leituras das orações comunitárias e saber que ele se juntará em oração. É sentir que, nos momentos mais difíceis, há um esforço ainda maior para estar presente, mesmo longe.

Também outras pessoas vão tendo um papel crucial, principalmente numa região onde, se contasse com serviços dos correios, provavelmente, as cartas chegariam a Portugal já no final da missão. Numa data importante, apenas foi possível fazer chegar a Portugal uma carta, porque tivemos a visita da família do meu mano de missão, que levou a carta do interior de Angola até ao Porto e que, por mão da prima de uma amiga, fez a carta chegar a Lisboa, passando ainda pelas mãos do porteiro do prédio onde vivo em Lisboa, pelas mãos dos meus pais, até chegar ao destino final, mesmo a tempo do seu aniversário. As cartas têm caminhos curiosos, até ao nosso frigorífico já foram parar, por termos confundido o envelope com uma embalagem de presunto… Até hoje nos referimos a esta carta como “o presuntinho”, que afinal não o era. Tudo se torna comunitário, as alegrias de tudo o que chega até à missão, sejam cartas ou géneros alimentares, que são recebidos e partilhados com entusiasmo.

Se, por um lado, pode causar alguma tristeza não estar em Portugal, principalmente em datas importantes, como o nascimento da minha sobrinha (como diriam por cá, minha filha também, por ser filha da minha irmã), por outro lado, ver fotografias do Luís a conhecê-la, entre outras fotografias que vou recebendo de convívios familiares e de amigos, é algo reconfortante, quase como se tivesse uma mão minha além-mar. Quem fica tem também a sua missão, e que missão! Que bom que é podermos estar sempre juntos em oração.

 

Maria Lima Santos
Ganda (Angola), 2025 – 2026